RIO DE JANEIRO, 8 de outubro de 2026 — “Disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989.” A frase não saiu de um adversário, de um colunista ou de uma pesquisa. Saiu da boca de Lula, na quarta-feira, 7 de outubro, diante de parlamentares de esquerda recém-eleitos, no Hotel Meliá, em Brasília. Quem avisou que a casa estava em desordem foi o dono da casa.
Lembre que o Edinho em questão é Edinho Silva, presidente do PT. Ou seja, o candidato disse ter ido ao comandante do partido para reclamar da bagunça. E foi além: afirmou que fez uma campanha “aquém da minha possibilidade” e que “poderíamos ter feito mais”. Segundo a Jovem Pan, que reproduziu o material do Estadão Conteúdo. Pode ser. Mas quem brinca com a própria campanha a 18 dias da decisão está dizendo algo sério.
Agora olhe os números do primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou com 47,03%. Lula ficou com 45,16%. A diferença é de cerca de 2,2 milhões de votos. Em Minas Gerais, estado que decide eleição, Flávio abriu 588.612 votos de vantagem. Isso não é um empate técnico para tranquilizar aliado. É um presidente da República que disputava a reeleição e foi para o segundo turno atrás. Suas recentes táticas eleitoreiras como aumento do bolsa família, promessa de caneta emagrecedora no SUS e término das bets parece que tiveram efeito contrário. E a culpa, com toda certeza será de qualquer um, menos dele.
E aqui está o detalhe que me chamou a atenção. Lula disse que não conseguia enxergar como não ganharia já no primeiro turno “pelas entregas que fizemos”. Depois completou: “Isso não foi suficiente para que uma parcela da sociedade entendesse o que fizemos.” Releia. O problema, na versão dele, é que o eleitor não entendeu. Não passa pela cabeça do presidente que o eleitor entendeu muito bem e não gostou?
Quem paga conta de luz, enche o tanque e faz feira sabe o que sente no bolso. Nenhuma campanha organizada substitui isso. Quando o eleitor sai de casa para votar, ele não pergunta se a coordenação do PT tinha um bom cronograma. Ele pergunta se a vida melhorou. Mais da metade do país respondeu que não ao candidato do governo, e o governo prefere dizer que faltou explicar.
Veja agora o que o PT resolveu fazer depois da confissão. Segundo o Metrópoles, a coordenação promoveu mudanças para realinhar a estratégia. Lula passou a gravar vídeos em formato selfie e, de acordo com aliados, prometeu um por dia, após pedidos de deputados jovens. Na quarta-feira foram nove publicações no perfil dele. A campanha quer reforçar a presença nas universidades e entre estudantes, com a chamada bancada jovem.
Faltando pouco mais de duas semanas, depois de perder o primeiro turno, o candidato descobre que precisa falar com o eleitor na internet todos os dias. Isso é o básico de qualquer campanha em 2026. Se foi preciso o resultado das urnas para lembrar do básico, a reclamação do Lula sobre a organização deixa de ser piada e vira diagnóstico.
Há ainda um episódio curioso do mesmo dia. Minutos depois de Lula criticar publicamente os organizadores, a transmissão do encontro no YouTube do PT foi derrubada por moderadores e voltou ao ar 12 + 1 minutos depois, conforme a reportagem da Jovem Pan. A matéria não informa o motivo. Registro o fato como ele é, sem tirar conclusão: o discurso que o PT não queria ouvir ficou, por alguns minutos, fora do ar.
Enquanto isso, o outro lado se mexe. Republicanos, União e PP formalizaram apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. Ou seja, Flávio sai na frente, soma partidos e ainda enfrenta um adversário que admite, em reunião reservada, ter feito menos do que podia.
Na mesma reunião, Lula ainda sonhou alto: disse que um dia a esquerda estará toda em um partido só e atribuiu a divisão, principalmente, à disputa por cargos no governo. Também é uma confissão, e das boas. Se o motivo da fragmentação é cargo, o discurso de que o campo progressista luta por ideias perde força justamente quando mais precisa dela.
O segundo turno é em 25 de outubro. Restam 16 dias contados a partir de amanhã. O PT consegue organizar em duas semanas o que, nas palavras do próprio candidato, não organizou em meses? Consegue convencer o eleitor de que ele não entendeu o que viu? Ou o eleitor, que já escolheu Flávio com 2,2 milhões de votos de frente, está dizendo exatamente o que quis dizer?
A resposta não está nos vídeos em selfie. Está no que cada brasileiro sente quando fecha o mês. E sobre isso, nenhuma coordenação de campanha, organizada ou não, tem controle.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



