A água que não chegou: o teatro de R$ 720 milhões que o PT montou no Nordeste
Túnel inaugurado seco, contêiner disfarçado de obra e uma ponte de 17 anos que ainda não nasceu
Rio de Janeiro - RJ | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (008)
Na quinta-feira, 2 de julho, o presidente Lula desembarcou em Luís Gomes, no sertão do Rio Grande do Norte, para inaugurar o túnel Major Sales, obra de 6,5 quilômetros do Ramal do Apodi que promete levar as águas do São Francisco ao oeste potiguar. Palanque montado, imprensa credenciada, discurso preparado. Faltou um detalhe: a água.
Diante do microfone, o próprio presidente admitiu o vexame. Chamou o dono da empreiteira ao palco, reclamou do “erro de cálculo” e prometeu ao prefeito que a água chegaria à meia-noite. Chegou a sugerir que o povo fizesse vigília na beira do túnel para esperar. Uma inauguração sem o objeto inaugurado, com hora marcada para o milagre.
Mas o pior não estava no palco. Estava a alguns quilômetros dali, em José da Penha. Imagens feitas por drone e espalhadas nas redes mostraram um contêiner metálico enferrujado servindo de estrutura de passagem de água em outro trecho do mesmo Ramal do Apodi. Um contêiner. Numa obra bilionária de integração hídrica. A sucata fazendo o papel da engenharia, coberta de terra e pedra, torcendo para ninguém olhar de cima. Alguém olhou.
E por que tanta pressa em inaugurar uma obra inacabada, iniciada ainda no governo Bolsonaro pelo então ministro Rogério Marinho? A resposta está no calendário. A legislação eleitoral proíbe inaugurações com a presença de candidatos a partir de 4 de julho. O governo correu para carimbar o mapa do Nordeste antes do apito final, e a qualidade das entregas ficou pelo caminho.
A véspera explica tudo. No dia 1º, Lula esteve em Vera Cruz, na Bahia, para uma “cerimônia simbólica de início das obras” da ponte Salvador-Itaparica. Leia de novo: início das obras. A ponte foi lançada oficialmente em março de 2009 pelo então governador Jaques Wagner, hoje envolvido até o pescoço nas apurações da CPMI do Banco Master. De lá para cá, dezessete anos se passaram e três governadores do PT se revezaram no Palácio de Ondina: Wagner, Rui Costa e agora Jerônimo Rodrigues. Três mandatários do mesmo partido, promessa repetida em todas as campanhas, e a ponte continua sendo pedra fundamental.
O custo dessa espera não é só simbólico. Levantamento do portal Aratu On com base no Transparência Bahia mostrou que, entre aportes ao fundo garantidor e gastos diretos, mais de R$ 720 milhões já tinham saído dos cofres estaduais até setembro de 2024 sem uma estaca cravada no mar. Em 2026, a secretaria criada exclusivamente para cuidar da ponte, a SVPonte, desembolsou outros R$ 160 milhões nos primeiros meses do ano. O contrato, assinado a R$ 5,3 bilhões, foi renegociado para R$ 10,4 bilhões. O sistema completo já é estimado em R$ 13,3 bilhões. Tudo isso antes de a obra existir de verdade.
O padrão se repete pelo Nordeste como uma linha de montagem do improviso. Em junho de 2025, a governadora Fátima Bezerra, também do PT, virou piada nacional ao abrir uma torneira em Governador Dix-Sept Rosado e declarar “teje entregue”, com a água espirrando diante das câmeras. O governo alegou que o gesto simbolizava a entrega de uma adutora do sistema Apodi-Mossoró. Pode até ser. Mas quando a cena que o próprio governo escolhe mostrar é uma bica jorrando numa praça, o problema de comunicação vira sintoma de algo maior: a política da encenação substituindo a política da entrega.
Em fevereiro deste ano, o senador Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso, inaugurou em Santana, no Amapá, o “Espaço Orelha”: quatro canos de PVC pregados num muro com tigelas plásticas para alimentar cães de rua, devidamente batizado com placa e nome do senador. Dias depois, reportagem da TV Equinócio flagrou a ração coberta de larvas, encharcada de chuva, sem um único cachorro por perto. Nem os animais compraram a encenação.
Contêiner enferrujado disfarçado de obra hídrica. Túnel inaugurado sem água. Ponte que completa dezessete anos de promessa consumindo centenas de milhões antes de nascer. Torneira aberta como troféu. Comedouro de PVC com placa de inauguração. Isso não é gestão pública. É teatro montado com dinheiro de imposto, encenado justamente para a plateia que mais precisaria de obra de verdade.
O nordestino trabalha, paga imposto, enfrenta seca, fila de ferry-boat e estrada esburacada. Deu ao PT décadas de confiança e maiorias eleitorais folgadas. Em troca, recebe cerimônia sem entrega, placa sem obra e promessa requentada a cada eleição. O eleitor do Nordeste não é figurante de palanque. É cidadão. E cidadão se respeita com obra pronta, não com contêiner coberto de pedra.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


