RIO DE JANEIRO, 9 de outubro de 2026 — Condenação transitada em julgado em 3 de outubro. Ordem de cumprimento da pena em 8 de outubro. Segundo turno em 25 de outubro. Entre uma data e outra, cinco dias. Entre a ordem e as urnas, 17. Antes de falar em coincidência, vale olhar a régua que o Supremo usa.
Vamos aos fatos, porque eles importam. O ministro Alexandre de Moraes mandou Eduardo Bolsonaro começar a cumprir 4 anos e 2 meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, mais 50 dias-multa, por coação no curso do processo. A Primeira Turma o condenou por unanimidade. A decisão manda expedir mandado de prisão, cancela os passaportes brasileiros dele e suspende seus direitos políticos enquanto durar a pena.
Há um detalhe que o noticiário trata como rodapé: Eduardo mora nos Estados Unidos, onde tem green card. O mandado vai para a Polícia Federal e entra no Banco Nacional de Monitoramento de Prisões, mas não existe PF brasileira em Washington. Para a ordem virar prisão de verdade, ele teria de voltar por conta própria ou o Brasil precisaria obter cooperação internacional. Ou seja: a decisão tem efeito jurídico no papel e efeito político na rua.
Então por que agora? Deixo claro o que penso: a Justiça não deve consultar o calendário eleitoral, nem para adiar nem para acelerar. Transitada em julgado a condenação, a ordem de cumprimento é o passo seguinte do processo, e o relógio da campanha não deveria entrar na conta. Em nota, Eduardo chamou a decisão de arbitrária, inoportuna e inócua, e disse que ela foi tomada deliberadamente no meio do processo eleitoral. Pode-se discordar do tom, mas ele aponta para uma pergunta real: por que o Supremo só aplica a lei sem olhar o calendário quando o réu é um Bolsonaro?
Porque na quarta-feira, 7 de outubro, o ministro Kassio Nunes Marques avisou que a revisão criminal de Jair Bolsonaro só será julgada depois do segundo turno, já que analisá-la antes “pode interferir no período eleitoral”. No dia seguinte, Moraes mandou executar a pena do filho, a 17 dias das urnas. Mesmo tribunal, mesma semana, duas réguas: para o pai preso, a espera da campanha; para o filho que vive nos Estados Unidos, a execução imediata.
E o enredo não é novo. A acusação contra Eduardo diz que ele usou o mandato e a atuação nos Estados Unidos para buscar sanções contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF, e assim pressionar o julgamento do pai. Esse é o enquadramento do tribunal. Do outro lado, o que muita gente vê é um parlamentar punido por pedir ajuda externa contra um sistema que, na avaliação dela, não lhe oferecia defesa justa. Um brasileiro que denuncia o que considera perseguição lá fora acaba condenado por coação aqui dentro. Isso mostra o tamanho do poder de quem escreve a sentença e também executa a ordem.
Aqui entra a consequência que vai além do caso. Se o Judiciário ora espera as urnas, ora ignora as urnas, conforme o sobrenome do réu, cria-se um precedente: o momento da caneta vira instrumento político, e cada ato passa a ser lido como interferência. A decisão já virou combustível de campanha, em vez de virar página virada. Quando o tribunal vira personagem da eleição, o eleitor deixa de confiar no árbitro.
Pense em quem fica com a conta. O eleitor de direita vê reforçada a sensação de que as regras mudam conforme o adversário. O eleitor indeciso vê um país em que o mais alto tribunal pauta o debate a duas semanas do voto. E o eleitor de esquerda, que talvez comemore hoje, precisa se perguntar o que acontece no dia em que a caneta mudar de lado. Instituição que serve a um lado só dura até a próxima eleição.
Jair Bolsonaro está preso, condenado a 27 anos e 3 meses, e para mim é um preso político. O filho agora é condenado e tem a passagem de volta cancelada, já que o passaporte brasileiro foi anulado. A família inteira, e com ela a oposição, vive sob decisões que chegam sempre em um tempo diferente do tempo dado a todos os outros.
Eduardo diz que o eleitor vai restaurar a normalidade nas urnas. É um discurso de campanha, claro, mas aponta para a única resposta que a democracia oferece quando as instituições perdem a noção do próprio peso: o voto. Até lá, a pergunta continua de pé. Se o calendário eleitoral não pode pesar, por que ele pesa para um Bolsonaro e não pesa para outro?
Faltam 16 dias. Se o Supremo tem razão nas duas decisões, por que precisa de duas réguas para sustentá-las?
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Tenho defendido que a esquerda é a principal responsável por uma parcela dos votos recebidos pela direita. A esquerda perdeu a capacidade de interlocução com a base. Em vez de ouvir o eleitorado, tenta convencê-lo de que está errado. Essas sinalizações da Suprema Corte também entram no jogo. Os eleitores que não fazem parte da militância, bem como parte do próprio eleitorado da esquerda, querem o fim desse ciclo
Torcendo pela queda do careca.
Ele sabe que não tem credito na conta.