RIO DE JANEIRO, 29 de agosto de 2026 — Você já viu essa cena no supermercado.
A mulher na fila do caixa, com a calculadora do celular na mão, olhando o carrinho. Ela tira o queijo. Depois tira a carne. Fica com o frango. Pensa mais um pouco e devolve o pacote de café.
Ninguém filma isso. Não vira manchete. Mas é a cena mais importante da economia brasileira hoje.
Porque aquela mulher acabou de fazer sozinha, em pé, na frente de estranhos, o que a casa em que ela mora se recusa a fazer há anos.
A casa
Imagine uma casa comum. Foto na geladeira, boleto preso no ímã.
Entram R$ 10 mil por mês. Saem R$ 13 mil.
Você já sabe o que precisaria acontecer. Cancelar assinatura. Trocar o carro. Rever o supérfluo. Cortar o desperdício.
Qualquer família faz isso. Sem drama, sem discurso.
Mas nessa casa os pais se recusam.
Não existe uma única despesa que possa ser cortada. Nenhuma. E, todo ano, aparecem gastos novos.
Faltam R$ 3 mil. Então eles pedem emprestado.
O agiota nunca bate na porta
No começo, o banco empresta.
Depois o banco começa a olhar aquela família com desconfiança. Vê gente que gasta mais do que ganha e que não dá o menor sinal de querer mudar. Então faz o que qualquer credor faz. Cobra caro pelo risco.
Ninguém obrigou esses pais a nada. Eles escolheram.
Quem paga a escolha é outro.
Uma noite, eles chamam os filhos na sala.
“A partir deste mês, vocês vão entregar uma parte maior do salário para a casa.”
Esses são os impostos.
E aqui está o que quase ninguém para para sentir. Cada real que sai da mão do filho é um real que ele não usa para comprar, guardar, investir ou abrir o negócio com que sonha desde os vinte anos.
A casa arrecada mais. Os moradores empobrecem.
E nem assim a conta fecha, porque ninguém lá dentro corta nada.
Essa casa tem endereço
Agora eu preciso dizer o nome dela.
Ela é o Brasil. Quem administra são Lula e Janja.
A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, 81,9% do PIB, segundo o Banco Central. O Ipea estima déficit primário de R$ 49 bilhões só naquele mês. Pelo Focus, a dívida segue subindo até 2030, quando chegaria a 94,1% do produto.
Não é falta de arrecadação. É recusa a cortar.
E enquanto a conta engorda, a casa se permite o supérfluo. A comitiva da primeira-dama em Roma, em fevereiro de 2025, consumiu ao menos R$ 292,3 mil em passagens e diárias, segundo levantamento do Estadão. As passagens dela, em classe executiva, custaram R$ 34,1 mil. Semanas depois, mais R$ 60 mil em passagens para um evento em Paris, na volta de Tóquio. A Justiça Federal chegou a dar prazo ao governo para explicar quem paga essas viagens.
Nenhum desses valores derruba o Orçamento sozinho. Eu sei disso.
Mas eles dizem tudo sobre a cultura da casa. Quem gasta assim no supérfluo nunca vai cortar no essencial.
Enquanto a comitiva embarcava, a mulher da fila devolvia o café.
O que a casa fez com os filhos
A Selic está em 14% ao ano desde 5 de agosto. Com o IPCA em 4,44% em doze meses, o Brasil carrega um dos juros reais mais altos do planeta.
E o juro alto não fica preso na mesa dos economistas. Ele sobe as escadas e entra em cada quarto.
No quarto do casal. 82% das famílias brasileiras têm dívida, recorde da série da CNC. Entre quem ganha até três salários mínimos, são 84,9%. E 38,5% dos mais pobres já estão com contas em atraso, contra 15,1% dos mais ricos.
Na cozinha. Desde 2020, o IPCA subiu 43,3%. A comida dentro de casa subiu 67,5%, segundo o Ibre/FGV. Neste primeiro semestre, tomate, cenoura e batata mais do que dobraram de preço. É por isso que o carrinho encolheu.
Na loja da esquina. O Brasil fechou 2025 com 2.466 empresas em recuperação judicial, o maior número da história da série da Serasa Experian. Em janeiro havia 8,7 milhões de CNPJs negativados. Cada um desses números foi o sonho de alguém.
Na saída. Das 339 empresas no regime de maquila do Paraguai em dezembro de 2025, 231 eram brasileiras. Lupo, Döhler, Karsten, Kidy, Dass, JBS. Lá o MWh industrial sai por cerca de US$ 41. Aqui, US$ 113.
Elas não quebraram. Elas arrumaram as malas.
E toda empresa que atravessa a ponte leva junto o emprego que o filho de alguém não vai ter.
O filho que corta
Nem todo mundo naquela casa sente a mesma coisa.
O filho rico protege o dinheiro em aplicações. Com juro real de dois dígitos, ele até ganha com o desastre. Tem margem, tem tempo, tem quem cuide disso por ele.
O filho pobre não tem nada disso.
Ele entrega a parte dele em imposto. E, com o que sobra, encontra comida mais cara, aluguel mais caro, gás mais caro, energia mais cara, transporte mais caro.
Ele não corta assinatura. Não corta viagem. Não tem o que cortar.
Ele corta comida.
Guarde esta frase: a casa se recusou a cortar os próprios gastos, aumentou a contribuição dos filhos, acumulou dívida e aceitou juros cada vez maiores. Quando a conta chegou, quem cortou despesa foi o filho mais pobre.
Ele nunca foi ouvido. Nunca votou naquele gasto. E foi o único que pagou.
Traduzindo a metáfora
O limite da casa
Uma metáfora não é um modelo econômico, e eu não vou fingir que é.
Dívida alta não vira inflação automaticamente. A Selic é definida pelo Banco Central olhando as perspectivas de inflação, não o humor de quem empresta. E o agiota da história, na vida real, não é um criminoso de esquina. É o mercado de títulos públicos, onde muitas vezes está o próprio filho, com seu Tesouro Direto e sua previdência privada.
O que a casa explica bem é o que importa. Gasto fora de controle cobra prêmio de risco. Prêmio de risco mantém o juro alto por mais tempo. Juro alto trava a atividade. E a atividade travada chega ao supermercado.
Não é um interruptor. É um acúmulo.
Em outubro, essa família vai decidir quem administra a casa.
E a mulher da fila do caixa vai continuar lá, com a calculadora na mão, esperando que alguém finalmente corte alguma coisa que não seja o jantar dela.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.





Ainda temos que tolerar ver o velho fraudado canalha cachaceiro (e a velha blogueira comunista nojenta lambe botas dele Miriam “porcão” no Globo Lixo) dizer que a inflação que o povo pobre SOFRE na pele todo dia é só uma “sensação”❗️😪 Se Flavio quiser MESMO aparecer como “vencedor” ele que peça pro Trump EXIGIR voto em papel auditável o mais rápido possível❗️sem o qual essa farsa do TSE petista não será “reconhecida” pelos EUA❗️🇺🇸 😑 Chega de palhaçada