RIO DE JANEIRO, 19 de agosto de 2026 — Ela juntou moeda por moeda para comprar uma blusa de R$ 50 num site chinês. Quando a encomenda chegou, o preço era outro. Vinte por cento de imposto federal, mais o ICMS do estado. A blusa de R$ 50 virou uma blusa de mais de R$ 70. Ninguém tinha avisado.
Avisaram exatamente o contrário, aliás.
Em 12 de abril de 2023, a primeira-dama respondeu no antigo Twitter a um post que criticava a nova tributação com uma frase curta e definitiva: a taxação era para as empresas, e não para o consumidor. Ela contou, na mesma sequência de publicações, que estava a bordo de um avião rumo à China ao lado de Fernando Haddad, e que o ministro tinha acabado de explicar como as regras funcionariam.
Faltou explicar para as empresas.
Porque não existe empresa no planeta que absorva imposto de importação por bondade. Tributo sobre consumo entra no preço. Entrou na blusinha, no cabo de carregador, no par de fones de R$ 39.
O jabuti que virou lei
Em 27 de junho de 2024, Lula sancionou. A cobrança entrou de carona no projeto do programa Mover, de incentivo a veículos menos poluentes, incluída por emenda da Câmara. Virou a Lei 14.902/2024. Em 1º de agosto de 2024, começou a valer: 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50.
Funcionou muito bem para o caixa. R$ 158,5 milhões já no primeiro mês. Média de R$ 179,3 milhões mensais. Em 2025, R$ 5 bilhões.
Funcionou muito mal para o resto do país.
O estrago nos Correios
Quem comprava pouco e barato simplesmente parou de comprar. As postagens internacionais nos Correios despencaram 60,3% na comparação anual apurada no primeiro trimestre de 2026.
Some isso a uma estatal que já vinha sangrando e o retrato fica cruel. O patrimônio líquido dos Correios saiu de R$ 4,36 bilhões negativos no fim de 2024 para R$ 16,2 bilhões negativos em março de 2026. O prejuízo do primeiro trimestre deste ano foi de R$ 3,16 bilhões, 82,3% maior que o do mesmo período do ano anterior. Para não parar de funcionar, a empresa tomou R$ 12 bilhões emprestados com garantia do Tesouro Nacional em 2025, e as despesas financeiras explodiram 248% em um ano.
Não foi só a taxa que quebrou os Correios. Havia déficit estrutural, passivo trabalhista e greve no meio do caminho. Mas foi a taxa que secou justamente o volume que ainda entrava pela porta.
E aí chegou 2026
Ano de quê? Eleição.
Em 12 de maio, Lula assinou a Medida Provisória 1.357 e zerou o imposto federal que ele próprio havia sancionado. Cerimônia de última hora no Planalto, sem discurso do presidente. Segundo apuração publicada pelo Poder360, a ideia partiu de Sidônio Palmeira, ministro da Secom: o Planalto precisava se descolar da medida antes da eleição, porque a cobrança batia em consumidor de baixa renda, público estratégico para Lula.
Não é interpretação de opositor. É a leitura do próprio marketing do governo.
Enquanto isso, Haddad passou a contar outra história. Em entrevista à CNN Brasil no dia 10 de agosto, agora como candidato ao governo de São Paulo, disse que a taxa não foi iniciativa dele nem do governo federal, que o pedido veio do varejo nacional, que quem introduziu foi o Congresso e que Lula chegou a ameaçar vetar. O imposto ficou órfão. Todo mundo cobrou, ninguém criou.
Guarde esta data: 8 de setembro de 2026
Medida provisória tem prazo. Essa vence em 8 de setembro. Se o Congresso não aprovar até lá, no dia 9 os 20% voltam a incidir, e isso acontece a menos de um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.
O Congresso adiou duas vezes a instalação da comissão que analisaria o texto, por falta de acordo sobre quem preside e quem relata. A nova data é 1º de setembro. Sete dias antes do vencimento. Na terça-feira, 18 de agosto, Lula apareceu publicamente defendendo a aprovação da MP.
Alguém aí acha que essa agenda caiu do céu?
E 2027 já está marcado
Aqui está a parte que quase ninguém contou.
Passada a eleição, as compras internacionais voltam a ser tributadas pela União. Com a entrada em vigor da CBS, em 2027, dentro da Reforma Tributária, a incidência volta, e agora sem o limite de US$ 50 como referência. A alíquota ainda será fixada pelo Senado. A estimativa oficial de 2024 era de 8,8%, e projeções de consultoria já falam em 9,43%. O ICMS estadual, entre 17% e 20%, continua onde sempre esteve. No fim da transição, a soma de CBS e IBS está estimada em 26,5%.
Traduzindo: zeraram o imposto no ano da eleição e reagendaram a cobrança para o ano seguinte à eleição.
Não é coincidência de calendário. É engenharia de calendário.
O que me revolta não é nem a manobra. É o cálculo por trás dela. Alguém sentou numa sala e concluiu que quem compra uma blusa de R$ 50 pela internet não vai lembrar, em outubro, de quem assinou a lei em 2024. Que o eleitor confunde revogação com generosidade. Que memória curta é matéria-prima de campanha.
Prove que erraram.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



