RIO DE JANEIRO, 15 de setembro de 2026 — Oito ministros votam na terça-feira, e o resultado pode estar definido no primeiro deles, antes que os outros sete sejam proferidos.
Seis votos são razoavelmente previsíveis, três de cada lado. Sobram dois, e a narrativa que se repete em Brasília diz que eles se equivalem, que a Corte está dividida ao meio e que tudo depende do fiel da balança. Não é o que a aritmética mostra.
Antes de qualquer palpite, uma ressalva: nada do que vem abaixo foi declaração de voto antecipado por quem quer que seja. São inferências a partir de atos já praticados, decisões assinadas, vistas pedidas, manifestações públicas. Ministro surpreende, e às vezes surpreende justamente quando todo mundo achava que já sabia.
Também importa o que está em jogo, porque muda o cálculo. A sessão não vai decidir se Moraes é culpado de alguma coisa. Vai decidir se foi regular a ordem que aprofundou a extração do celular de Daniel Vorcaro, se o que se obteve a partir dela pode ser aproveitado e qual o destino dos elementos que citam o ministro. Isso oferece a quem quiser blindá-lo uma saída covarde: anular por vício de procedimento, sem tocar no mérito. A Procuradoria-Geral da República já pediu exatamente isso.
A ordem da sessão
Comece pela sequência, porque ela explica o resto.
Como relator, Edson Fachin abre. Depois vêm os demais em ordem inversa de antiguidade: Flávio Dino, Cristiano Zanin, André Mendonça, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux, Cármen Lúcia e, por último, Gilmar Mendes, o decano. Dias Toffoli e Alexandre de Moraes não devem votar, e já explico por quê.
Guarde duas posições nessa fila. A primeira pertence a quem recebeu de Lula, três dias antes, uma reclamação sobre o relator do caso. A penúltima pertence à ministra que ninguém consegue prever, e que só vai descobrir se o próprio voto ainda importa depois que os seis anteriores tiverem sido proferidos.
Quem não vota
O Supremo tem onze cadeiras por mandamento constitucional, mas funciona com dez desde a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso. A vaga segue aberta porque o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias em 29 de abril, primeira recusa em 132 anos.
Dias Toffoli deverá estar fora por decisão própria. Já declarou suspeição por foro íntimo, com base no artigo 145, parágrafo 1º, do CPC, depois que a Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro menções a supostos pagamentos a ele. A declaração vale para todos os processos ligados ao Master, inclusive os futuros.
Alexandre de Moraes é o objeto da deliberação. Ninguém julga a própria causa.
Restam oito.
Os seis previsíveis
Favoráveis a Moraes devem ficar três.
Gilmar Mendes o defendeu publicamente em dezembro, afirmando ter absoluta confiança na conduta do colega. Foi dele o pedido de vista que travou, na Segunda Turma, o julgamento sobre o afastamento do diretor-geral da PF. E foi dele a cobrança pela cópia integral do material extraído do celular de Vorcaro.
Flávio Dino derrubou a decisão de Mendonça sobre a chefia da Polícia Federal por decisão monocrática que atropelou o próprio Mendonça, a maioria já estabelecida na segunda turma e a própria presidência da Suprema Corte. É o voto mais previsível da mesa.
Cristiano Zanin também exigiu a íntegra dos dados e trabalha o caso pela chave da cadeia de custódia, que é o terreno em que a tese covarde da nulidade se sustenta melhor.
Com Mendonça devem ficar dois.
Luiz Fux, como presidente da Segunda Turma, deferiu a sessão extraordinária pedida pelo relator, e lançou voto favorável nove minutos depois da abertura. Kassio Nunes Marques fez o mesmo movimento no mesmo intervalo.
E o próprio André Mendonça, que produziu o material, remeteu o caso ao plenário e não tem por que recuar agora. Voto dele na própria causa poderia até ser discutível, e eu voltarei a esse ponto, mas previsível é.
As duas incógnitas
Edson Fachin é a primeira, e não tenho a menor condição de cravar o voto dele.
O mapa que a imprensa desenha o coloca no grupo de Mendonça. Eu tenho ressalvas sérias com essa leitura. Fachin foi indicado por Dilma Rousseff em 2015, depois de declarar apoio público à reeleição dela, e chegou à sabatina do Senado carregando um histórico de simpatias à esquerda, incluindo a atuação como advogado do MST no Paraná. Foi relator da Lava Jato no Supremo a partir de 2017, e foi ele quem assinou o atestado de óbito da operação: em 8 de março de 2021, anulou todas as condenações de Lula e devolveu ao ex-presidente a elegibilidade que o levaria de volta ao Planalto.
E teve o sábado passado. No mesmo dia em que o despacho que lhe entregou as petições foi assinado, Lula subiu ao palanque em Curitiba e contou, ele próprio, que havia estado com o presidente da Suprema Corte para dizer que não era possível o relator divulgar apenas trechos escolhidos das investigações. Não houve vazamento nem especulação de bastidor. Horas depois, as petições daquele relator estavam na mesa de quem recebeu a queixa.
Alguém pode alegar coincidência. Eu chamo de sequência.
Só que há atos apontando para o outro lado, e eles são relevantes. Como foi Fachin quem exigiu a derrubada total do sigilo, acabou com isso expondo na íntegra o contrato de 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos entre o Master e o escritório da mulher de Moraes. E foi ele quem retirou de Moraes o inquérito das fake news, onde o colega concentrava seu maior poder. Quem quisesse blindar o colega não teria feito nem uma coisa nem outra.
É por isso que o classifico como incerto, e não como voto adversário. As duas séries de fatos são verdadeiras ao mesmo tempo, e eu não sei qual delas prevalece na terça. Quem disser que sabe está torcendo, não analisando.
Cármen Lúcia é a segunda. Diz a interlocutores que vê erro dos dois lados e que só decide depois de ler os autos. Foi indicada por Lula em 2006 e votou, em 2021, pela parcialidade de Sergio Moro, enterrando a Lava Jato. Mas também, foi ela quem presidiu a Corte entre 2016 e 2018 mantendo a prisão após condenação em segunda instância, que era justamente o entendimento que sustentava o encarceramento de Lula. Os dois blocos a cortejam porque nenhum dos dois consegue prevê-la.
E é aqui que a narrativa corrente desanda.
Ela não é o fiel da balança
Toda a cobertura descreve Cármen Lúcia como o voto que decide a terça-feira. Faça a conta e veja que não decide.
Se Fachin votar com Moraes, o bloco dele chega a quatro. O pior resultado possível passa a ser o empate em quatro a quatro, e empate em matéria criminal favorece o investigado. Nesse caminho, o voto de Cármen Lúcia deixa de escolher o desfecho e passa a escolher apenas o tamanho do placar, cinco a três ou quatro a quatro. O resultado é o mesmo.
Ela só decide alguma coisa no outro caminho. Se Fachin ficar com Mendonça, aí sim o tribunal inteiro para e espera, porque o voto dela separa a investigação que avança por cinco a três do empate que a sepulta.
Ou seja: o primeiro voto da sessão determina se o penúltimo ainda importa. E quando a vez dela chegar, na sétima posição da fila, isso já estará escancarado para o plenário e para o país.
Duas ressalvas
A primeira é que essa conta pressupõe que os seis previsíveis se comportem como previsto. Basta Fux ou Nunes Marques mudarem de posição para que ela se desfaça.
A segunda é que o efeito do empate depende de o plenário reconhecer natureza criminal à deliberação. Como o objeto formal é a validade de uma medida de investigação, alguém pode sustentar que a regra aplicável é outra. Some-se a isso a possibilidade de o voto de Mendonça na própria causa ser questionado, e a sessão pode consumir duas horas em questão de ordem antes de o primeiro voto sair.
A saída mais barata e covarde
Existe ainda o caminho que dispensa placar: um pedido de vista, com até noventa dias para devolução. Gilmar Mendes já usou o instrumento uma vez nesta crise, e ele funciona. Empurra a decisão para depois do primeiro turno e transforma a sessão histórica de terça-feira em nota de rodapé.
Se o voto de Fachin for desfavorável a Moraes, é esse o caminho que mais merece atenção: o pedido de vista e isso é o que mais me incomoda. Não porque alguém vá fraudar alguma coisa, mas porque não é preciso. Numa mesa desenhada assim, quem tem a perder não precisa vencer, e nem sequer precisa de maioria.
Só precisa que nada aconteça.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



