RIO DE JANEIRO, 5 de outubro de 2026 — Os institutos de pesquisa repetem uma frase como quem reza o terço: pesquisa é uma fotografia do momento. Gosto da comparação. Ela ajuda a entender o que aconteceu no domingo.
Imagine uma foto de família em que o fotógrafo, sem querer, corta sempre o mesmo primo do enquadramento. Na primeira vez, todo mundo ri. Na segunda, alguém estranha. Na terceira, a família começa a perguntar se o problema é a câmera ou quem está atrás dela.
Pois bem. No sábado, véspera da eleição, oito dos onze institutos que divulgaram pesquisa nacional mostravam Lula na frente. No domingo, a apuração avançou estado por estado e o retrato mudou de figura. Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno em primeiro lugar, com 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente.
Lula apareceu na foto do jeito que estava. Flávio apareceu menor do que era.
A balança da feira
Durante as últimas semanas fiz uma conta que os institutos raramente fazem em voz alta. Peguei a última pesquisa de cada um antes da votação e coloquei ao lado do resultado oficial do TSE. Fiz isso para presidente, governador e senador, nos 27 estados, em 2022 e em 2026. Foram 103 disputas.
Errar faz parte do ofício. Pesquisa trabalha com amostra, e amostra tem margem. O problema não é o erro. É a direção dele.
Pense na balança de uma feira. Se ela erra às vezes para mais e às vezes para menos, está desregulada e precisa de ajuste. Mas se pesa sempre a menos para o mesmo freguês, ninguém na fila chama isso de acaso.
Foi isso que encontrei. Somando 2022 e 2026, houve 53 disputas com candidato do PL, para presidente, governador e senador. Em 43 delas, as pesquisas deram ao partido menos do que ele teve nas urnas. Quatro em cada cinco vezes, o prato da balança pendeu para o mesmo lado. Nos governos estaduais de 2022, foram doze em doze. O PT, curiosamente, saiu das contas quase no zero.
O aviso que veio em 2022
Quem acompanha eleição tem a sensação de já ter visto esse filme. E viu.
Em 2022, no 1º turno, Jair Bolsonaro chegou às urnas com uma imagem de candidato em queda. O Datafolha dava 36% dos votos válidos para ele. Abertas as urnas, eram 43%. Sete pontos de diferença, o equivalente a milhões de eleitores que existiam no país e não existiam na pesquisa.
Lula também foi medido um pouco abaixo naquela noite, mas o erro dele foi pequeno. O de Bolsonaro foi grande. E a distância entre os dois, que é o que o eleitor enxerga na televisão, parecia maior do que era em dez de treze pesquisas.
Quatro anos depois, mudou o primeiro nome na urna. O erro continuou com o mesmo sobrenome.
Quando a previsão diz sol e chove
Ninguém se irrita com a meteorologia quando ela erra a chuva de amanhã. Agora imagine uma previsão que, eleição após eleição, anuncia céu limpo para o mesmo bairro, e é exatamente lá que cai o temporal.
No Rio de Janeiro, as pesquisas desenhavam Eduardo Paes à frente na disputa pelo governo. Douglas Ruas terminou o 1º turno em primeiro, com dez pontos a mais do que a média dos institutos indicava. No Senado fluminense, Carlos Portinho vinha atrás de Benedita da Silva e saiu da apuração como o mais votado.
Em São Paulo, em 2022, o Datafolha apontava Márcio França quase 15 pontos à frente de Marcos Pontes na corrida ao Senado. Pontes venceu com folga. Em Santa Catarina, o Ipec colocava Jorge Seif em segundo, bem atrás de Raimundo Colombo. Seif teve mais que o dobro dos votos do adversário.
Ao todo, oito candidatos do PL venceram partindo de trás nas pesquisas. E o caminho inverso não apareceu nenhuma vez: nenhum candidato do PL que liderava as pesquisas perdeu a eleição para outro partido.
O temporal caiu do Rio Grande do Sul a Roraima. Foi mais forte no Sul e no Sudeste, mais fraco no Centro-Oeste, mas não poupou nenhuma região.
Por que isso importa para você
Pesquisa não é só um termômetro. É um termômetro que muda a temperatura da sala.
Ela decide quem o telejornal apresenta como favorito. Orienta o empresário que escolhe onde colocar a doação. Sussurra ao eleitor indeciso que o voto dele vai para um candidato sem chance. Tira o ânimo do militante na última semana, justamente quando ele mais faz diferença.
Um erro isolado é acidente. Um erro que se repete em duas eleições, em cinco regiões e em três cargos, quase sempre contra o mesmo partido, vira um problema de método que os institutos devem explicar ao país. Não preciso provar intenção para mostrar o efeito. O efeito está nas urnas, e as urnas são públicas.
A próxima foto
Daqui a 20 dias, Lula e Flávio voltam a se encontrar no 2º turno. As próximas semanas vão trazer gráficos coloridos, empates técnicos e margens de erro recitadas com solenidade.
Antes de acreditar na foto, faça uma pergunta simples: quem ficou de fora do enquadramento da última vez?
Os números completos, disputa por disputa e instituto por instituto, estarão, em breve, num estudo publicado na Timeline. Quem quiser pode conferir comigo.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Parabéns pela análise. Raramente se lê algo baseado em levantamentos, fornecendo dados primários. Vou divulgar e guardar.
Curiosa a coincidência com a eleição do antes presidente Jair Bolsonaro.... a atual eleição em dado momento travou a apuração e quando retornou o resultado foi dalí em diante favorável à Lula.