A investigação que cita o filho de Lula travou. E não foi por acaso.
Na maior fraude contra aposentados da história do Brasil, a apuração que investiga se o Lulinha é sócio oculto do Careca do INSS anda no passo de quem não tem pressa.
Rio de Janeiro - RJ | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (007)
A Polícia Federal acabou de admitir, por escrito e ao Supremo, algo que deveria estar na primeira página de todo jornal do país. E não está.
Na maior fraude contra aposentados já registrada no Brasil, um esquema que sugou bilhões de reais de quem trabalhou a vida inteira, a PF informou ao ministro André Mendonça que só tem onze servidores tocando a investigação. Onze. A própria corporação disse que precisaria de mais de quarenta para dar conta do volume. Trabalha hoje, portanto, com menos de um terço do que ela mesma considera o mínimo.
Para dimensionar o descaso, basta lembrar como a mesma polícia operava quando queria mostrar serviço. Na Lava Jato, em fases decisivas, a força-tarefa de Curitiba chegou a reunir cerca de quarenta agentes concentrados. Aqui, numa fraude bilionária cujo fio da meada passa pelo nome do filho do presidente, montaram uma equipe visivelmente pequena para o tamanho do estrago.
Os números do trabalho seguem a mesma toada. A Operação Sem Desconto foi deflagrada em 23 de abril de 2025. Catorze meses depois, a PF havia analisado cerca de 40% dos aproximadamente 1.700 itens apreendidos. Faça a conta: dá menos de dois itens examinados por dia. Num caso em que a perícia define se o dinheiro roubado de aposentado volta ou não para o bolso de quem foi lesado, esse foi o ritmo escolhido.
E aí vem a parte que mais incomoda. No início de maio, a corporação afastou do comando o delegado Guilherme Figueiredo Silva, que chefiava a Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários. Não era um nome qualquer. Foi ele quem pediu a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e quem sustentou o pedido de prisão de Antônio Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como um dos operadores centrais do esquema. Na mesma toada, o inquérito deixou a divisão especializada em crimes previdenciários e foi parar na Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores.
Mendonça ficou sabendo da troca por um advogado do caso, não pela PF. Relatou a interlocutores que se surpreendeu com a mudança num momento tão sensível. Convocou reunião, cobrou explicações, pediu um relatório detalhado sobre cada alvo e determinou que a equipe fosse mantida, com justificativa formal a cada alteração. A quebra de sigilo do Lulinha, aliás, ele já havia autorizado lá em fevereiro. Deu sessenta dias para a perícia sair.
E o que a PF respondeu? Pediu mais prazo. Disse que concluiria a análise do material dos presos em trinta dias e que precisaria de até seis meses para o restante dos investigados. A justificativa foi a de sempre: falta de gente.
Some tudo. Uma equipe reduzida a um terço do necessário. Uma perícia que se arrasta a menos de dois itens por dia. O delegado que mirava o filho do presidente tirado do comando bem na hora em que a investigação esquentava. E, na ponta, aposentados que provavelmente continuam sendo descontados todo mês enquanto a apuração que investiga se o Lulinha é sócio oculto do Careca do INSS simplesmente não anda.
Ninguém precisa gritar conspiração para enxergar o óbvio. Falta de efetivo existe, e é um problema real da corporação. Só que decidir onde alocar o pouco que se tem, o que corre e o que fica na fila, isso é escolha. No Brasil, quem decide o que deve andar rápido dificilmente é pego de surpresa pelo resultado.
Compartilhe esta reportagem. Quanto mais gente souber que a maior fraude contra aposentados do país caminha no passo de quem não tem pressa, mais difícil fica varrer essa história para debaixo do tapete.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


