A jogada ensaiada e o sorteio que traiu o sistema
PF, PGR e Moraes se movimentaram no recesso para tirar o caso Lulinha de Mendonça. O sorteio estragou o plano
ORLANDO FL, 02 de agosto de 2026 — Existe um Brasil que funciona em horário comercial e outro que decide o destino da República no silêncio do recesso. Foi nesse segundo Brasil que se desenrolou, na última semana de julho, uma das movimentações mais reveladoras do ano dentro do Supremo Tribunal Federal: a tentativa de tirar das mãos do ministro André Mendonça a investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República.
A cronologia fala por si.
No dia 24 de julho, sexta-feira, em pleno recesso do Judiciário, a Polícia Federal protocolou no STF o pedido de abertura de inquérito contra Lulinha por suspeita de tráfico de influência em negócios ligados à cannabis medicinal. Detalhe que não é detalhe: o pedido chegou justamente no período em que Alexandre de Moraes exercia a presidência interina da Corte. Segundo reportagem da CNN Brasil, uma ala do próprio Supremo avalia que a PF esperou Moraes assumir o plantão para evitar que a decisão coubesse ao presidente Edson Fachin, que tem dado respaldo integral a Mendonça na condução dos inquéritos do INSS.
Na representação, a PF sustentou uma tese, no mínimo, curiosa: a de que o novo caso não teria conexão com a Operação Sem Desconto, aquela que apura o desvio bilionário nos benefícios de aposentados e pensionistas. Sem conexão? A investigação nasceu de elementos encontrados na própria Sem Desconto e envolve os mesmos personagens, a começar pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso Careca do INSS, preso desde setembro do ano passado. Ministros da Corte, em conversas reservadas relatadas pela imprensa, apontam exatamente isso.
Mas a tese da desconexão tinha uma serventia processual muito clara: afastar a prevenção. Se o caso não tem ligação com o INSS, ele não vai automaticamente para Mendonça, relator da Sem Desconto. Vai para sorteio livre. E foi isso que a PF pediu.
Moraes, antes de decidir, ouviu a Procuradoria-Geral da República. No dia 27 de julho, a PGR de Paulo Gonet concordou com a Polícia Federal e defendeu a livre distribuição. Com o parecer na mão, Moraes mandou o caso para o sorteio eletrônico.
E aí a história ganhou contornos de ironia fina: o sistema sorteou André Mendonça.
A jogada fracassou pela mão do acaso. No dia 30, quinta-feira, Mendonça autorizou a abertura do inquérito da cannabis. No dia seguinte, autorizou um segundo inquérito, este sobre suspeita de tráfico de influência em contratos da Dataprev, a estatal de tecnologia que, vejam só, processa exatamente os dados dos benefícios do INSS. Dois inquéritos contra o filho do presidente em dois dias.
Circulam ainda relatos de que a assinatura do segundo inquérito teria ocorrido supostamente às 20h44 de sexta-feira, com registros no sistema eletrônico do tribunal se estendendo supostamente até as 2h56 da madrugada de sábado. Se confirmados, os horários apenas reforçariam o retrato de uma semana em que tudo correu fora do expediente e longe dos olhos do público.
Enquanto isso, parte da grande imprensa repetia, como fato pacífico, que a investigação contra Lulinha “não envolve os desvios em benefícios de aposentados e pensionistas”. Tecnicamente, é a posição oficial da PF. Mas apresentar essa frase sem contar ao leitor que ela era, naquele exato momento, o coração de uma disputa de relatoria dentro do STF não é jornalismo. É meia verdade de conveniência. A origem probatória é o INSS. Os personagens são os do INSS. O relator, ao final, é o do INSS.
Este episódio deveria acender um alerta em qualquer cidadão, de qualquer campo político. Quando os órgãos de investigação e acusação escolhem a hora, o plantonista e a tese processual mais conveniente para definir quem julga o filho do presidente, o que está em jogo não é um inquérito. É a confiança no princípio do juiz natural, cláusula pétrea de qualquer democracia séria.
O sorteio salvou as aparências. Mas ninguém deveria depender da sorte para que a Justiça funcione.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



