A jogada que muita gente não percebeu na live de Flávio Bolsonaro
A apresentação de 47 candidatos ao Senado revela uma estratégia que vai muito além da corrida presidencial
A política costuma produzir fatos que chamam atenção imediatamente e outros que só revelam sua importância com o passar do tempo. A live realizada por Flávio Bolsonaro nesta semana pode se encaixar na segunda categoria.
Muita gente saiu da transmissão comentando apenas o anúncio de Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente. Outros concentraram a análise nos nomes apresentados para disputar o Senado. Mas, observando o conjunto da estratégia, a impressão é de que a mensagem principal era outra.
A campanha parece querer convencer o eleitor de que a eleição de 2026 não será decidida apenas pela escolha do próximo presidente da República.
O Senado passou a ocupar um papel central
Isso faz sentido. Em 2026, os brasileiros escolherão dois senadores por estado, renovando dois terços da Casa. É uma oportunidade rara para qualquer grupo político alterar significativamente a composição do Senado em uma única eleição.
Foi exatamente nesse ponto que a live procurou chamar atenção.
Ao anunciar apoio a 47 candidaturas espalhadas pelo país, Flávio Bolsonaro mostrou que sua campanha pretende construir uma estrutura nacional muito maior do que a disputa presidencial. Em diversos estados, o apoio foi direcionado não apenas a nomes do PL, mas também a candidatos de partidos aliados, como PP, Republicanos, Novo, Podemos e União Brasil.
Essa talvez seja a principal novidade da estratégia. Em vez de exigir alinhamento exclusivamente partidário, a campanha parece priorizar a construção de uma maioria política.
São Paulo ilustra bem essa lógica. O apoio foi anunciado para Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL. No Rio de Janeiro, a chapa formada por Carlos Portinho e Carlos Jordy representa uma aposta em dois perfis diferentes, mas identificados com o mesmo campo político.
Essa composição demonstra uma preocupação que talvez tenha sido aprendida nos últimos anos: vencer a eleição presidencial pode não ser suficiente se o governo não conseguir formar uma base consistente no Congresso Nacional.
O Senado possui atribuições que vão muito além da elaboração de leis. Cabe aos senadores analisar indicações para o Supremo Tribunal Federal, tribunais superiores, Procuradoria-Geral da República, Banco Central e diversas outras instituições estratégicas para o funcionamento do Estado brasileiro.
Por isso, a disputa pelas cadeiras da Casa Alta ganha uma dimensão que muitas vezes passa despercebida durante as campanhas eleitorais.
Outro aspecto interessante da live foi a escolha de Alfredo Gaspar para compor a chapa presidencial.
Promotor de Justiça durante boa parte da carreira, ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas, ex-secretário de Segurança Pública e deputado federal, Gaspar chega à campanha carregando uma imagem fortemente associada à segurança pública e ao combate à corrupção.
Sua atuação como relator da CPMI do INSS ampliou sua projeção nacional e o colocou definitivamente entre os principais nomes da oposição no Congresso.
Durante a transmissão, Flávio revelou que sua intenção inicial era ter uma mulher como candidata a vice-presidente, mas as negociações não prosperaram. A escolha de Gaspar acabou acontecendo na reta final das articulações.
Essa informação ajuda a compreender que sua indicação não foi resultado apenas de afinidade política, mas também da necessidade de consolidar uma chapa capaz de dialogar com diferentes segmentos do eleitorado.
Gaspar acrescenta experiência na área jurídica, histórico na segurança pública e uma presença importante no Nordeste, região tradicionalmente desafiadora para candidatos do campo conservador.
Naturalmente, sua escolha também desperta críticas e questionamentos por parte dos adversários políticos, o que faz parte do ambiente eleitoral. Como ocorre com qualquer candidato de projeção nacional, sua trajetória continuará sendo examinada ao longo da campanha.
Independentemente das preferências políticas de cada eleitor, uma conclusão parece evidente.
A live não foi organizada apenas para apresentar nomes.
Ela procurou transmitir a ideia de que um eventual governo precisará nascer acompanhado de uma base parlamentar robusta. Em outras palavras, a mensagem foi de que a eleição presidencial e a eleição para o Senado fazem parte do mesmo projeto político.
Mas uma coisa parece clara desde já
Quem olhar apenas para a disputa pelo Palácio do Planalto poderá deixar de perceber uma das batalhas mais importantes de 2026: a que definirá a composição do Senado Federal e, consequentemente, o equilíbrio institucional dos próximos anos.
Obs.: A Revista Timeline se reserva ao discordar de dois nomes sugeridos que são Arthur Lira do PP em Alagoas e Michelle no Distrito Federal onde nossa recomendação é o voto em Bia Kicis e Sebastião Coelho.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Não entendi a indicação de Arthur Lira. Já o conhecemos e não gostamos.
A mim parece que a Michelle anda meio instável. Mas tem sua própria base.