RIO DE JANEIRO, 8 de outubro de 2026 — Na quarta-feira, 7 de outubro, o ministro Kassio Nunes Marques mandou avisar o país: a revisão criminal de Jair Bolsonaro só será julgada depois do segundo turno, marcado para 25 de outubro. A razão, dita em nota, é que analisar o caso antes “pode interferir no período eleitoral”. Releia a frase com calma. Um ministro do Supremo diz que a Justiça precisa esperar a urna fechar.
Vamos à cronologia, que importa. A primeira revisão criminal foi distribuída a Nunes Marques em maio, e ele pediu manifestação da PGR. Agora há um segundo pedido, com o mesmo relator, sobre o qual a Procuradoria ainda não se manifestou. A data do plenário, segundo a nota, depende do presidente do Supremo, Edson Fachin. Ou seja, um homem preso, condenado a 27 anos e 3 meses, espera o calendário político decidir quando a Corte vai ouvi-lo.
Para mim, Bolsonaro é um preso político. Está condenado em um processo que muita gente no país considera injusto, inclusive eu e agora vê o próprio Supremo admitir que o momento de olhar o caso depende da campanha. Se a Justiça fosse cega, como diz a estátua, não consultaria o calendário eleitoral antes de agir.
A defesa sustenta que não teve acesso à íntegra das provas e apresentou um parecer técnico que questiona a cadeia de custódia das provas digitais. É exatamente para alegações desse tipo que existe a revisão criminal: reexaminar uma condenação diante de dúvidas sobre o processo. Se o instrumento existe, ele deve funcionar no tempo da lei, e não no tempo da campanha.
Agora o ponto que quase ninguém está discutindo. Se a revisão criminal for acolhida e o Supremo reconhecer falhas no processo, a conclusão desse julgamento pode anular toda a condenação. Na minha leitura, isso abriria um precedente que não é anistia, mas produz efeito parecido e é até melhor: em vez de perdoar, a Corte reconheceria o erro e o corrigiria. Se o processo cai, a lógica vale para os outros presos políticos e exilados, que também poderiam pedir a anulação de suas condenações. Ficaria pendente a reparação, porque quem foi preso e perseguido por uma condenação anulada tem direito a indenização. E, sejamos honestos, nenhum valor é compatível com a dor e o sofrimento que essas famílias passaram.
O argumento de quem defende a espera é conhecido: julgar agora jogaria combustível na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, que prometeu indulto ao pai se vencer. O detalhe é que o indulto só poderia ser concedido depois da posse. Ou seja, o eleitor vai às urnas sem saber se a condenação será mantida, revista ou anulada.
Aqui está o ponto que me incomoda. Prudência com a eleição é um argumento político, não jurídico. Quando o ministro admite que a data do julgamento pode influenciar o voto, ele reconhece que a decisão do Supremo pesa na escolha do eleitor. Então a espera também pesa. Silenciar até o dia 25 é uma interferência por omissão, só que com aparência de neutralidade.
Eu critico há tempos o protagonismo do STF na política. Foi o próprio Tribunal que se colocou no centro do debate nacional, e agora descobre que não consegue decidir sem mexer na eleição. Quem escolhe julgar tudo, em todo lugar, acaba preso a essa armadilha: qualquer data é política.
E o que ganha o brasileiro comum com isso? Ganha a certeza de que o prazo da Justiça é elástico quando o tema é o poder. Quem espera anos por uma sentença trabalhista ou por uma aposentadoria sabe que o relógio do Judiciário raramente respeita a pressa de quem precisa. Mas, quando a pauta é eleitoral, o relógio parece ouvir os palanques.
Há perguntas que o Supremo deveria responder antes do dia 25. Quando a PGR vai se manifestar sobre o segundo pedido? Fachin já tem data em mente? O relator pretende liberar o voto logo depois do segundo turno ou o processo só ficará concluso mais adiante? A própria nota admite que não será necessariamente imediato.
Esperar ou decidir já? Minha posição é que a Justiça devia ser previsível justamente para não precisar de justificativa. Se o caso fosse julgado no ritmo normal, ninguém precisaria explicar por que parou. Agora, a explicação virou notícia, e a suspeita vem junto. O país merece uma Corte que decida sem olhar o calendário eleitoral, para o bem ou para o mal de qualquer réu.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Por mim o Kassio libertaria Jair já❗️😹