A pobreza que desfila de grife
Desde 2023, Érika Hilton recebeu cerca de R$ 1,6 milhão em salários. Ao TSE, declarou R$ 15,9 mil. E transformou o número em atestado de virtude. Deveria?
RIO DE JANEIRO, 08 de agosto de 2026 — A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) registrou sua candidatura à reeleição declarando ao Tribunal Superior Eleitoral um patrimônio de R$ 15.975,73. Diante da repercussão, respondeu com uma frase que virou manchete na coluna de Mônica Bergamo, na Folha: é impossível enriquecer na política sendo honesta.
A frase é boa de palanque. O problema é que ela não sobrevive a uma calculadora.
Vamos aos números, que são públicos e estão no DivulgaCand do TSE. Um deputado federal recebe hoje subsídio bruto de R$ 46.366,19 por mês. Líquido, na casa dos R$ 33,8 mil. Desde que assumiu o mandato, em fevereiro de 2023, Érika Hilton acumulou aproximadamente R$ 1,6 milhão em salários brutos. Isso sem contar verbas indenizatórias, cota parlamentar e benefícios como o auxílio-moradia, que pode chegar a R$ 25,5 mil para quem se enquadra nos critérios da Câmara.
Resultado declarado depois de três anos e meio nesse regime: R$ 15,9 mil. Menos que o valor bruto de um único mês de trabalho. E menos, inclusive, do que os R$ 19.989,96 que a própria deputada declarou em 2022. O patrimônio não cresceu. Encolheu 20%.
Ninguém é obrigado a poupar. Cada um faz do próprio salário o que quiser, e isso vale para a deputada como vale para qualquer brasileiro. Mas, foi ela quem transformou o número em argumento moral. Foi ela quem sugeriu que patrimônio baixo é prova de honestidade, e que, por consequência lógica, patrimônio alto é indício do contrário.
Essa régua é perigosa. E, pior, ela corta nos dois sentidos.
Se a ausência de bens atesta virtude, o que dizer dos levantamentos da imprensa que apontam a deputada circulando com acessórios de grife? Segundo reportagens publicadas nesta semana, entre eles uma bolsa Bottega Veneta avaliada em cerca de R$ 27 mil no site da marca e uma Balmain vendida no Brasil por mais de R$ 18 mil. Cada uma dessas peças, sozinha, vale mais do que todo o patrimônio informado à Justiça Eleitoral.
Que fique claro: não há, até aqui, qualquer acusação formal de ilegalidade na declaração. Bens de uso pessoal são objeto de interpretações distintas sobre a obrigação de declarar. Mas o contraste existe, é visual, é público, e foi a própria parlamentar quem convidou o eleitor a julgar caráter por extrato bancário.
O histórico também merece registro. Em 2016, candidata a vereadora em Itu, declarou R$ 1.200 em espécie. Em 2020, eleita vereadora em São Paulo, informou não ter bens. Em 2022, R$ 19,9 mil. Agora, R$ 15,9 mil, dos quais R$ 13.602,14 em conta-corrente na Caixa Econômica Federal e o restante pulverizado em aplicações modestas no Nubank e no Tesouro Direto.
Para onde foi o R$ 1,6 milhão? A resposta pode ser perfeitamente banal: aluguel, família, consumo, doações, campanha. De novo, direito dela. Mas quem sobe no palanque da austeridade patrimonial precisa aceitar que o público faça a pergunta. Transparência não é o número final da declaração. É a capacidade de explicar o caminho do dinheiro.
E há um segundo problema na frase da deputada, talvez mais grave que o primeiro. Dizer que é impossível enriquecer na política sendo honesto é jogar na vala comum todos os colegas de Congresso que construíram patrimônio de forma lícita, declarada e rastreável. É a generalização que a esquerda costuma denunciar quando é feita contra ela. Honestidade não se mede pelo saldo da conta. Mede-se pela coerência entre o que se declara, o que se exibe e o que se explica.
Nesse teste, convenhamos, a semana não foi boa para a deputada.
O eleitor de 2026 fará bem em olhar menos para as frases de efeito e mais para o DivulgaCand. Os dados estão lá, abertos, para qualquer cidadão. Esse é, aliás, o único palanque que não mente: o dos números públicos.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




“A régua (da Erika) corta nos dois sentidos “ LMAO! Será que o pessoal doutrinado na cartilha do Paulo Freire vai sacar essa? 😛
Depois de subir num carro alegórico da Gay Parade esse ano e desferir as mais abjetas opiniões contra as mulheres e famílias tradicionais, esse ser ainda quer se reeleger.