RIO DE JANEIRO, 12 de setembro de 2026 — Bastaram oito dias para o Brasil assistir, em público, sem disfarce e sem constrangimento, o presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Federal combinarem o andamento de um processo criminal.
Não é força de expressão. É cronologia.
Sexta, 4 de setembro. Palácio do Planalto
Edson Fachin foi ao Planalto. Estavam na sala o presidente da República, o procurador-geral Paulo Gonet, o presidente do STJ Luis Felipe Salomão, o ministro da Justiça Wellington Lima e Silva e o advogado-geral da União Jorge Messias.
Ali, segundo o relato da imprensa, conversou-se sobre a crise entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Fachin sinalizou que levaria os casos ao plenário. Disse que os assuntos eram sérios e que iriam ser tratados com o rigor devido.
Pare um segundo e olhe para a composição daquela roda.
O presidente da República, cujo filho mais velho é alvo de inquéritos na mesma Corte. O advogado-geral da União, indicado por ele para uma vaga no Supremo. O procurador-geral, que já havia pedido a anulação do relatório da PF sobre Moraes. E o presidente do Supremo Tribunal Federal, falando sobre o rumo de casos pendentes de julgamento.
Não havia um só advogado de defesa naquela sala. Não havia ata. Não havia sessão pública. Não havia nada do que a Constituição chama de devido processo legal.
Havia café.
Quarta, 9 de setembro. Brasília
Fachin anuncia um pacote de medidas. Marca para o dia 15 o julgamento do relatório da PF que envolve Moraes e Daniel Vorcaro. Retira de Moraes o inquérito das fake news e traz para si. Suspende medidas sobre o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal.
Quinta, 10 de setembro. Estúdio do SBT
Lula vai à televisão elogiar o presidente do Supremo. Diz que Fachin agiu corretamente no dia anterior. E vai adiante, dizendo o que ele ainda deveria fazer: pegar o processo, “trazer para ele, colocar ordem na casa”.
Pois é isso mesmo. O chefe do Poder Executivo, em rede nacional, dando ao chefe do Poder Judiciário a instrução de avocar processos.
Sexta, 11 de setembro. Supremo Tribunal Federal
Fachin dá 24 horas para que André Mendonça retire o sigilo de tudo o que se relaciona à Operação Compliance Zero. Determina que os documentos sejam enviados aos gabinetes de todos os ministros.
O relator do caso, que até então decidia o que abrir e o que preservar, passa a ter um prazo de um dia para obedecer.
Sábado, 12 de setembro. Boca Maldita, Curitiba
Bandeiras vermelhas. Uma hora de microfone.
E aí o presidente da República conta ao seu eleitorado o que fez. Disse ter estado com o presidente da Suprema Corte para reclamar que o relator ficava “soltando matérias pinçadas, somente daquilo que interessava a ele”. Contou que pediu a liberação integral do processo. “Deixar nu, para saber quem é que está por trás disso.”
Ele não vazou. Ele não foi flagrado. Ele anunciou.
Anunciou porque acredita que aquilo é um mérito. Que o eleitor vai bater palma. Que dizer ao presidente do Supremo como um inquérito deve ser conduzido é serviço público, e não o contrário exato daquilo que a Constituição de 1988 escreveu no artigo 2º com quatro palavras que uma criança de escola pública entende: independentes e harmônicos entre si.
O que Lula fez
Um homem que foi preso, que foi solto, que teve condenações anuladas por decisão do próprio Supremo, que construiu sua narrativa política inteira sobre a tese de que juiz nenhum pode ter agenda própria, hoje senta com o presidente do Supremo para tratar de processo criminal e depois sobe no palanque para contar.
Não é juiz. Não é advogado. Não tem formação jurídica, e fez disso bandeira por cinco décadas.
Há milhões de brasileiros extraordinários sem diploma. A questão não é essa e nunca foi. A questão é que nenhum brasileiro, com diploma ou sem, tem o telefone do presidente do Supremo para reclamar da condução do seu processo.
Só um tem.
E ele está disputando uma eleição em três semanas, contra um adversário cujo nome aparece nos autos que ele quer abertos, enquanto autos que respingam em senadores do próprio partido também estavam lá dentro.
O que Fachin fez, que é pior
Porque Lula, ao menos, é um animal político. É candidato em campanha, onde sempre faz o que dele se espera, prometer e dizer ao seu público o que querem ouvir. Cabe a ele ser contido? Cabe. Mas cabe muito mais a quem deveria dizer não.
E quem deveria dizer não é Edson Fachin.
Ele tinha uma frase pronta e simples para dar naquela sexta-feira no Planalto: presidente, esse assunto eu não trato aqui. Sete palavras. Custavam nada. Valiam tudo.
Não foram ditas.
Depois disso, o presidente do Supremo assistiu ao presidente da República elogiá-lo na televisão, prescrever em rede nacional o que ele deveria fazer com os processos e, no sábado seguinte, exibir a conversa dos dois num comício de campanha como troféu eleitoral.
Até agora, silêncio.
Nenhuma nota. Nenhuma correção. Nenhum “a conversa não foi essa”. Nenhum gesto mínimo de quem entende que a autoridade de uma Corte Suprema não vem da toga, vem da distância.
É isso que deveria estar tirando o sono do país. Não a briga entre Moraes e Mendonça, que ao menos acontece à luz do dia, nos autos, com voto e com placar. Mas o entendimento silencioso entre o Planalto e a Presidência do Supremo, construído em sala fechada, revelado em palanque, e não desmentido por ninguém.
Terça
Na terça-feira, dia 15, o plenário julga o relatório da PF sobre Moraes. No dia 23, o caso de Mendonça.
Seja qual for o resultado, ele já nasce com uma mancha que nenhum acórdão apaga: o país inteiro sabe que o presidente da República opinou antes, por dentro e por fora, e que o presidente do Supremo ouviu sem devolver.
Uma Corte não perde a independência num golpe. Perde num café. Foi assim com Moraes recentemente e se repetiu com Fachin.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



