FILADÉLFIA, 15 de outubro de 2026 — Vinte e nove anos de casa, e a despedida coube numa nota de poucas linhas. Nesta quinta-feira, a Globo desligou Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, depois de ter acesso, na quarta, às conversas dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, trocadas de outubro de 2023 a julho de 2025. O motivo? “Relação inadequada do executivo com um anunciante”. Só isso. Nenhuma mensagem, nenhuma data, nenhum exemplo.
A empresa que se apresenta como juíza de todo mundo decidiu que o que viu era grave o bastante para pôr na rua um diretor de quase três décadas, mas não grave o bastante para mostrar ao público. Quem decide o que é inadequado, e por que o leitor tem de aceitar a palavra de quem ficou com as provas?
Agora a cronologia, porque ela incomoda. As conversas cobrem quase dois anos. Em todo esse tempo, o Master crescia, patrocinava e subia em palcos. E a Globo diz que só teve acesso ao conteúdo na quarta-feira, dia 14. Quase dois anos de mensagens de um diretor com um dos maiores anunciantes que ela própria cita, e ninguém dentro da casa viu nada? Ou viu e esperou o assunto estourar? A nota não responde, e a pergunta não vai embora.
Não parto do zero. Uma coluna do Correio da Manhã já havia contado, em março, que Kachar agradeceu publicamente a Vorcaro num evento do grupo em Nova York, em 2024, bancado pelo Master. A proximidade estava no palco, à vista de quem quisesse olhar. Não afirmo crime de ninguém: não há condenação, e o conteúdo das mensagens segue escondido. Afirmo o que é fato: um dirigente de peso da maior empresa de comunicação do país mantinha relação próxima com quem pagava a conta, e a empresa só agiu quando o assunto chegou às suas mãos.
A nota reafirma a “absoluta independência editorial” do jornalismo da casa. É a frase que todo grupo escreve quando precisa de uma muralha e não pode mostrar o que há atrás dela. Independência não se declara em comunicado, se demonstra. E demonstrar exigiria abrir as mensagens, dizer quais coberturas passaram perto desse anunciante e explicar o que o diretor pedia, oferecia ou ouvia.
Repare na régua. Quando um político aparece ao lado de um empresário, o telejornal cobra explicação, o colunista pede quebra de sigilo, o âncora fala em conflito de interesses. Quando o empresário aparece na própria diretoria, vem uma nota curta e a ordem de que a página seja virada. O que se exige de prefeitos, ministros e juízes some quando a pergunta bate na porta de casa.
Isso não é detalhe de bastidor. É o eleitor que decide em quem votar, em quem confiar e o que pensar de cada escândalo a partir do que a Globo escolhe contar. Se parte dessa escolha passou por quem mantinha intimidade comercial com os personagens da notícia, o público foi tratado como plateia, não como destinatário. E o dinheiro que sustenta esse conforto sai, em boa parte, do bolso de quem assiste.
O substituto de Kachar será anunciado em breve. Troca-se o nome na porta, a vida segue, e a Globo espera que o assunto morra junto com o crachá. Não deve morrer. Quem cobra transparência de governos, empresas e tribunais precisa entregar a mesma transparência quando o investigado de ocasião é a sua própria diretoria. Que a Globo publique o que leu, diga desde quando sabia e informe quem mais conversava com quem.
Até lá, a leitura é uma só: o que a Globo não contou pesa mais do que o que ela escreveu na nota. Demissão resolve o cargo. Não devolve ao brasileiro a confiança de saber quem mandou na notícia.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Quem há de confrontar a Globo com isso?! Quem vai investigar isso?! Essa é a questão.
A Globolixo sendo Globolixo!