Ana Campagnolo escolheu o inimigo errado
Carol está na chapa, a trégua foi oferecida, Jair decidiu. Insistir na guerra agora só tem um desfecho possível
RIO DE JANEIRO, 10 de agosto de 2026 — Há divergências políticas legítimas. Há discordâncias estratégicas compreensíveis. E há aquele momento raro e revelador em que o argumento que sustentava uma posição simplesmente deixa de existir, e a posição continua de pé.
Ana Campagnolo chegou exatamente a esse ponto.
Quando começou a discussão sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina, a deputada estadual assumiu publicamente uma bandeira muito clara: proteger Carol de Toni. “A vaga do nosso PL era da deputada Carol, agora será dada ao Carlos”, disse ela, resumindo sua preocupação.
E, convenhamos, o argumento até que fazia algum sentido.
Carol construiu sua trajetória em Santa Catarina. Tem capital eleitoral próprio, identificação com a direita catarinense e vinha sendo apresentada como um dos nomes naturais para o Senado. Quando surgiu a possibilidade de Carlos deixar o Rio de Janeiro para concorrer pelo estado, criou-se a impressão de que Carol poderia ser sacrificada para abrir espaço ao filho de Jair Bolsonaro.
Ana reagiu. Defendeu Carol. Comprou a briga.
Até aí, pode-se concordar ou discordar, mas havia uma lógica política compreensível.
Só que aconteceu algo fundamental.
O dia em que o argumento acabou
No dia 1º de agosto, a convenção do PL catarinense homologou a chapa ao Senado. E a chapa tem dois nomes: Carlos Bolsonaro e Carol de Toni.
Carol não foi retirada da disputa. Carol não foi sacrificada. Carol está candidata.
E aqui a pergunta se torna inevitável: se o problema era proteger Carol, e Carol está na chapa, qual é exatamente o problema agora?
É neste ponto que a posição de Ana Campagnolo deixa de ser uma defesa e começa a parecer outra coisa — uma resistência pessoal à candidatura de Carlos Bolsonaro, mesmo depois de Jair Bolsonaro ter manifestado diretamente sua escolha.
E isso muda completamente a natureza da discussão.
A trégua que foi oferecida e ignorada
Vale lembrar que a família Bolsonaro tentou encerrar o assunto. Em maio, houve reunião de alinhamento mediada pelo governador Jorginho Mello. Carlos pediu desculpas formalmente pelas divergências anteriores e declarou publicamente que havia coisas mais importantes em jogo: “Temos um Brasil para resgatar. Bola pra frente.”
O armistício foi oferecido. A liderança cedeu para manter a união.
O que veio depois, porém, contou uma história diferente.
Em evento recente em Itajaí, circulou um vídeo que diz mais do que qualquer nota oficial: ao lado de Carol de Toni, Campagnolo aparece receptiva e sorridente até o momento em que o nome de Carlos Bolsonaro é citado pelo locutor. A deputada, então, sai do enquadramento, recusando-se a pedir voto para o candidato escolhido por Jair Bolsonaro.
Dias depois o senador Flávio Bolsonaro teria feito um pedido direto e educado: que ela gravasse um vídeo de apoio a Carlos. E acrescentou que, caso não pudesse fazê-lo, compreenderia, mas que ela também deveria compreender se ele pedisse que ela não usasse mais a imagem dele, nem a de Jair Bolsonaro.
A resposta atribuída à deputada não citou o nome de Carlos nem confirmou o apoio solicitado. Falou em “mensagem de conciliação” e em “objetivos definidos pelo partido”.
Diplomacia? Talvez. Mas há quem enxergue ali algo mais simples: a tentativa de ficar com os bônus do Bolsonarismo como a imagem, o eleitorado e o engajamento, mas sem carregar o ônus que acompanha qualquer movimento político: apoiar as decisões da liderança que o construiu.
Coerência não é opcional
Ana Campagnolo tem todo o direito de possuir opinião própria. Nenhum parlamentar deve abrir mão de sua consciência. Mas política também se faz de coerência, lealdade e reconhecimento da própria história.
E seria impossível contar a trajetória política de Ana Campagnolo sem mencionar Jair Bolsonaro.
O fenômeno político que surgiu em torno do ex-presidente abriu espaço para uma geração inteira de parlamentares conservadores. Ana soube aproveitar esse momento, trabalhou sua base e conquistou mais de 196 mil votos de 2022, recorde estadual. Reconhecer a origem desse capital político não diminui sua trajetória. Mas também não apaga uma realidade evidente: Bolsonaro foi decisivo para criar o ambiente no qual essas lideranças cresceram.
Por isso causa tanto estranhamento assistir a uma aliada histórica transformar uma divergência eleitoral em enfrentamento justamente quando o argumento original deixou de existir. E não se trata de episódio isolado: os atritos públicos com Carlos, os embates com Eduardo Bolsonaro e as críticas duras ao senador Jorge Seif, que é um aliado direto de Jair, desenham um padrão que a base conservadora catarinense já percebeu.
Nos momentos fáceis, todos são aliados. É na divergência que se descobre o tamanho da lealdade.
O que Santa Catarina merece saber
O Brasil vive uma eleição decisiva. A direita enfrenta adversários extremamente organizados e não pode transformar disputas internas em guerras públicas movidas por ressentimento, vaidade ou questões pessoais. Santa Catarina é um dos estados mais importantes desse campo político e o eleitor conservador não quer assistir a uma guerra interna interminável. Quer unidade. Quer maturidade. Quer vencer nas urnas.
A coerência, portanto, exige uma escolha.
Se Ana reconhece Jair Bolsonaro como liderança, usa sua imagem e reivindica parte desse legado, precisa considerar seriamente uma decisão tomada diretamente por ele. Se entende que Bolsonaro já não possui essa autoridade sobre suas decisões, tem o direito de seguir seu próprio caminho, mas precisa assumir publicamente essa independência e aceitar as consequências políticas dela.
O que não parece razoável é querer as duas coisas ao mesmo tempo: usar Bolsonaro quando a imagem fortalece uma candidatura e ignorá-lo quando a decisão contraria uma preferência pessoal.
Isso não é independência. É conveniência.
Antes, a pergunta era: por que tirar Carol de Toni da disputa?
Hoje, Carol continua na disputa. Então resta apenas uma:
Ana Campagnolo está defendendo Carol de Toni ou simplesmente decidiu enfrentar Carlos Bolsonaro?
Santa Catarina e seus eleitores merecem essa resposta.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Essa frase já fez história: "todos eles tiveram 1 voto, o próprio voto, as outras centenas de milhares de votos foi do apoio do Jota Bolsonaro."
É sempre muito enriquecedor ler um artigo de Rogério. Realmente, percebo que há uma simbiose parasitária no entorno da família Bolsonaro. Declarações ambíguas, quando há alguma, em apoio ao nome ou feitos de Jair. Como se endossar os Bolsonaro fosse um remédio amargo necessário para curar a infestação de bactérias que se espalha no Brasil atual. A imprensa certamente é responsável por esse menosprezo. Os marketeiros precisam mudar isso. A percepção conta mais do que a realidade.