RIO DE JANEIRO, 19 de setembro de 2026 — Era sábado, e Lula estava em Florianópolis, na praça Tancredo Neves, em pleno comício quando bufou:
“Eu quero ganhar para manter Bolsonaro na cadeia.”
A plateia respondeu gritando “sem anistia”.
Não foi um militante exaltado. Não foi um perfil anônimo perdido numa rede social. Foi o presidente da República, candidato à reeleição, em voz alta, como promessa de campanha. E num estado onde Bolsonaro teve quase 70% dos votos válidos no segundo turno de 2022.
Li a frase uma vez. Depois outra. E fiquei com uma pergunta que não sai da minha cabeça.
Desde quando o presidente da República ganha uma eleição para decidir quem continua preso?
Todos deveriam inferir que, numa democracia, quem julga é o Judiciário. O presidente governa, o Congresso legisla, o juiz decide. Cada um no seu quadrado. Bolsonaro foi condenado por esse STF politizado e envolvido por toda sorte de escândalos, a 27 anos e três meses e hoje cumpre prisão domiciliar. Se essa pena foi decidida por juízes, com base em provas e na lei, deveria ser absolutamente indiferente quem vai sentar na cadeira do Planalto em janeiro.
Então por que Lula acha que a vitória dele muda alguma coisa?
O próprio presidente admite que a liberdade de Bolsonaro virou uma questão de urna, não de processo. Que o destino de um ex-presidente depende de quem vence em outubro. Quando a prisão de um homem passa a depender de quem está no poder, eu não tenho outro nome para isso: é preso político.
Será que quem decide é mesmo a Justiça?
Na terça-feira, dia 15, Flávio disse no horário eleitoral que Lula dividiu o poder com Alexandre de Moraes e que, no fim, o Brasil ficou sem comando. Muita gente tratou a frase como exagero de campanha. Depois de sábado, ficou difícil sustentar essa leitura.
E tem mais. Em julho de 2025, quando o Congresso derrubou o aumento do IOF, Lula foi à TV Bahia explicar por que tinha corrido ao Supremo. A frase dele foi esta: “Se eu não for à Suprema Corte, eu não governo mais o país.”
Quando o Congresso diz não, o governo recorre ao STF. Quando o STF condena o principal adversário, o presidente promete, em palanque, mantê-lo atrás das grades.
Isso não é harmonia entre os Poderes. É promiscuidade entre eles.
E tudo isso acontece na mesma semana em que o próprio Supremo discutiu abrir investigação contra Moraes por suas relações com Daniel Vorcaro, numa sessão que terminou em bate-boca e sem decisão. O timing diz muito.
Estamos diante de um elemento político grave, que precisa ser apurado com seriedade. Não por mim, não pela oposição, mas pelas instituições que dizem defender a democracia.
Por isso, peço uma coisa simples: compartilhe este texto. E faça o presidente responder a uma única pergunta, sem rodeios:
Se quem decide quem fica preso é a Justiça, o que a sua reeleição tem a ver com Bolsonaro continuar na cadeia?
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



