Calado até as eleições de outubro
Um tirano que trancou um ex-presidente para a própria família
RIO DE JANEIRO, 19 de julho de 2026 — Comece por uma imagem simples: uma porta.
Do lado de dentro, um homem de 71 anos que carrega no corpo as marcas de uma facada que quase o matou em 2018. Do lado de fora, os filhos, os netos, os amigos. E, a partir da semana que vem, também o presidente de um país vizinho, que atravessaria a fronteira para um aperto de mão.
Nenhum deles pode entrar.
A decisão saiu na sexta-feira, assinada pelo ministro Alexandre de Moraes. Ficam suspensas por 30 dias todas as visitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar em Brasília. As exceções cabem numa linha: médicos, fisioterapeutas e advogados. Antes disso, o senador Flávio Bolsonaro, filho mais velho e pré-candidato à Presidência, já havia sido proibido de visitar o pai por 90 dias.
E há um terceiro prazo, o mais revelador de todos. Visitas de caráter político ou eleitoral estão vedadas até o fim das eleições de outubro. Foi com base nessa regra que o ministro negou, no sábado, o pedido para que Javier Milei, presidente da Argentina, visitasse Bolsonaro no dia 25, quando estará no Brasil para a convenção que deve oficializar a candidatura de Flávio.
O estopim de tudo isso? Uma carta. Escrita à mão. Um pai dizendo ao filho que confia nele e pedindo união à família. Flávio publicou a carta nas redes. Para o ministro, isso violou a cautelar que proíbe Bolsonaro de se manifestar em redes sociais, inclusive por meio de terceiros. A defesa alegou que o ex-presidente não sabia que o texto seria divulgado. O argumento foi integralmente rejeitado.
Mas a forma jurídica não esgota a pergunta política. E a pergunta política é uma só: qual o tamanho proporcional da resposta a uma carta de pai para filho?
A própria defesa cravou a palavra: incomunicabilidade. Não é retórica de militante. É o termo que os advogados levaram ao processo. Um ex-presidente da República, o nome mais influente de um dos campos da disputa, ficará sem receber visitas sociais em plena campanha, e sem qualquer visita política justamente até o encerramento do pleito.
Repare na data. Outubro. Justamente até lá.
Quando a voz mais forte de um lado é retirada do jogo no meio do jogo, passa longe a democracia.
E há a camada humana, que nenhum despacho alcança. Noventa dias sem abraçar um filho. Trinta dias sem receber a família à mesa. Um corpo marcado por três lesões no intestino delgado e uma perfuração grave no intestino grosso, convivendo há oito anos com crises que ninguém vê, agora entre quatro paredes com visitas contadas nos dedos de uma mão.
Se o Estado pode fechar essa porta na cara de um ex-presidente, com advogados de plantão, câmeras do mundo inteiro apontadas e um chefe de Estado estrangeiro batendo do lado de fora, faça a si mesmo a pergunta incômoda.
O que ele pode fazer com você, que não tem nada disso?
A resposta de cada leitor a essa pergunta vale mais do que qualquer opinião deste articulista.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, D.H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




E ai se começa o verdadeiro golpe de Estado, dado por um único ministro
Ninguém nesse país está a salvo