Caso Master: irmã de “Sicário” ameaçou expor arquivos que poderiam comprometer família Vorcaro, diz PF
Investigação aponta tentativas de silenciar familiares de operador ligado a Daniel Vorcaro; mensagens revelam ameaças, negociações e suspeitas de lavagem de dinheiro
BRASÍLIA, 16 de junho de 2026 — Novos documentos da Polícia Federal tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal revelam mais um capítulo das investigações da Operação Compliance Zero. Segundo os investigadores, Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário” e apontado como braço direito de Daniel Vorcaro, ameaçou divulgar documentos que, em suas palavras, seriam capazes de “acabar com a família” do ex-banqueiro.
O relatório encaminhado ao ministro André Mendonça descreve uma série de conversas interceptadas que indicariam esforços de integrantes da organização criminosa investigada para impedir que familiares de Sicário divulgassem informações consideradas sensíveis para o grupo.
De acordo com a Polícia Federal, após a prisão e a morte de Luiz Phillipi Mourão, sua família passou a enfrentar dificuldades financeiras. Nesse contexto, pessoas ligadas ao núcleo de confiança da família Vorcaro teriam iniciado tratativas para prestar auxílio financeiro à mãe e à irmã do operador, ao mesmo tempo em que buscavam conter possíveis revelações.
As investigações apontam como figura central nessas negociações Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como “Manolo”, descrito pela PF como um dos principais articuladores do grupo responsável por ações de intimidação, coerção e pressão contra adversários. Segundo os investigadores, sua reputação no meio da contravenção seria utilizada para conferir credibilidade às ameaças e garantir o cumprimento das determinações da organização.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram Joana cobrando ajuda financeira e relatando dificuldades para arcar com financiamentos e despesas pessoais. Em conversas posteriores, porém, ela passa a adotar um tom mais agressivo, ameaçando divulgar informações comprometedoras caso suas demandas não fossem atendidas.
Um dos trechos destacados pela investigação mostra Joana afirmando que pretendia levar informações sobre a família Vorcaro à imprensa nacional. Em outra mensagem, ela declara que, após problemas envolvendo outros integrantes da família, seu próximo alvo seria Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.
Para os investigadores, as mensagens demonstram que a família de Sicário possuía informações consideradas sensíveis e que havia preocupação entre integrantes da organização quanto ao potencial impacto de eventual divulgação desse material.
A Polícia Federal também chama atenção para uma reunião realizada em abril deste ano entre “Manolo”, Joana Mourão e sua mãe, Denise. Conversas interceptadas indicam que, durante o encontro, foram discutidas alternativas para resolver pendências financeiras e transferir ativos para familiares de Sicário.
Em uma das mensagens analisadas, “Manolo” informa a Henrique Vorcaro que estava reunido com a mãe do operador e que seriam providenciados contratos relacionados a determinados ativos. Para a PF, o episódio demonstra a existência de uma negociação direta envolvendo pessoas próximas ao núcleo investigado.
Outro ponto que despertou atenção dos investigadores envolve a entrada de Joana Mourão no quadro societário de uma empresa com capital social declarado de R$ 1 milhão. Dias após cobrar a formalização de um contrato, ela passou a figurar oficialmente como sócia-administradora da companhia.
Embora a Polícia Federal não tenha concluído se o acordo foi efetivamente concretizado como planejado, os investigadores trabalham com a hipótese de que parte dos recursos movimentados possa estar relacionada a pagamentos feitos em favor de Sicário durante sua atuação junto ao grupo investigado. A linha de apuração considera a possibilidade de utilização de estruturas empresariais para ocultar ou dissimular valores oriundos de atividades criminosas.
As revelações ampliam o alcance da Operação Compliance Zero, que inicialmente investigava espionagem ilegal, obtenção clandestina de informações sigilosas e ações de intimidação. Com o avanço das apurações, a Polícia Federal passou a identificar uma estrutura mais ampla, envolvendo monitoramento de alvos, uso indevido de bases de dados públicas, pressão sobre adversários e movimentações financeiras consideradas suspeitas.
O caso ganhou ainda mais repercussão após a morte de Luiz Phillipi Mourão. Apontado como um dos principais operadores da organização, ele foi preso em março deste ano e morreu dias depois, após tentar tirar a própria vida enquanto estava sob custódia da Polícia Federal. Os laudos periciais concluíram que a morte foi resultado de suicídio.
As investigações continuam em andamento e já alcançaram integrantes do círculo familiar de Daniel Vorcaro, além de agentes públicos suspeitos de colaborar com o grupo. A Polícia Federal afirma que também apura possíveis tentativas de destruição de provas e obstrução das investigações após o avanço das operações.



