RIO DE JANEIRO, 10 de setembro de 2026 — 27 de agosto, 11h22. Karina Gama anotou a hora. Anotou o dia. Descreveu quem ligou e o que foi dito, levou ao cartório e jurou que era verdade.
Catorze dias depois, a Polícia Federal encontrou esse papel na busca feita na casa dela.
É uma declaração juramentada, registrada em cartório de São Paulo no dia 4 de setembro. Nela, a produtora de Dark Horse relata três abordagens com o mesmo roteiro: feche uma delação premiada e nada te acontece. Primeiro Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney e dirigente da CBF, em 22 de maio às 9h07, oferecendo apoio jurídico e afirmando ter “grande proximidade com o Ministro Flávio Dino”. Depois um pastor evangélico, amigo de longa data, na ligação de 27 de agosto. Disse ter trânsito no governo federal e entre ministros do STF, e que pessoas ligadas a essas autoridades pediram que ele a procurasse. Se ela delatasse, “nada ocorreria comigo e eu não seria alvo de nenhuma operação policial”. Por fim, em 3 de setembro, o jornalista Breno Pires, da revista piauí, dizendo que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”.
E aqui está o dado que muda tudo, e que a maior parte da imprensa tratou como detalhe: o nome que queriam na delação era o de Flávio Bolsonaro.
Ela recusou em maio. Recusou em agosto. Recusou em setembro. Foi alvo no dia 10.
O que chama atenção é a convergência: a mesma sugestão, o mesmo alvo, chegando por três portas diferentes em quatro meses. Um empresário, um pastor, um jornalista. Convergência não prova conluio. Mas convergência dessa precisão, a 24 dias da eleição, é um fato que alguém precisa explicar.
Fernando Sarney nega. Disse à CNN que não conhece Karina Gama e que jamais tratou de suposta delação envolvendo Dark Horse com ela ou com quem quer que seja. Muito bem. Só que do outro lado não há uma versão vaga: há data, há hora, há cartório, há uma tentativa anterior no dia 20 de maio que ela não atendeu. Um dos dois está mentindo, e apenas um dos dois se deu ao trabalho de registrar o que dizia antes de virar manchete. Sobre esse ponto o silêncio não é opção, nem para Sarney, nem para o Ministério Público.
Vale olhar o terreno onde Sarney atua, porque ele explica muita coisa sobre a naturalidade com que se fala em proximidade com ministros. A CBF tem sido gerida, na prática, ao ritmo de decisões do gabinete de Gilmar Mendes. Foi Gilmar quem reconduziu Ednaldo Rodrigues à presidência em janeiro de 2024, depois de o TJ do Rio tê-lo afastado. Foi Gilmar quem homologou o acordo que validou a eleição de Ednaldo. Foi Gilmar quem, em 7 de maio de 2025, negou o pedido de afastamento formulado justamente por Fernando Sarney e remeteu o caso ao TJ-RJ, tribunal que oito dias depois afastou Ednaldo e nomeou Sarney interventor. E há um detalhe que ninguém no futebol brasileiro finge desconhecer: o IDP, instituto do qual Gilmar Mendes é sócio-fundador, mantém contrato com a CBF para gerir a CBF Academy. Nada disso é ilegal. Mas é o retrato de um país onde intimidade com ministro virou ativo de mercado, e é nesse ambiente que uma frase como “possuo grande proximidade com o Ministro” deixa de soar absurda para soar plausível.
Quanto a Flávio Dino, seja dito com todas as letras: a própria Karina fez questão de registrar que a menção ao ministro partiu exclusivamente de Sarney, que ela não presenciou conversa nenhuma entre os dois e que não tem elementos para afirmar que Dino soubesse de qualquer coisa. Ela teve mais cuidado do que muito jurista tem tido.
Mas há um problema que nenhuma ressalva resolve, e ele é do ministro. O nome de Flávio Dino foi usado como moeda numa oferta de bastidor em maio. Em setembro, foi Flávio Dino quem autorizou a operação contra a mulher que recusou a oferta. Não estou dizendo que ele sabia. Estou dizendo que essa sequência, num país sério, exigiria do próprio ministro a primeira providência: mandar apurar quem anda vendendo intimidade com o seu gabinete. Se isso não acontecer, o silêncio vira resposta. E é uma resposta ruim.
Então o desenho que sobra é feio demais para ser ignorado. Recusada a delação por vias transversas, veio a busca: 49 mandados, nenhuma prisão. Ninguém preso significa que não havia urgência nenhuma. Havia necessidade de apreender. De vasculhar celular, computador, gaveta. Isso tem nome no jargão forense e não é elogioso: pescaria probatória. Você não sabe o que quer encontrar, então leva tudo e procura depois.
E leva tudo exatamente agora, a 24 dias do primeiro turno, com Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula em praticamente todas as pesquisas eleitorais. Não existe coincidência dessa qualidade. Quando o favoritismo escorre pelos dedos, o sistema não revê o projeto, ele liga o modo desespero e vai tentar de tudo.
Delação premiada não é confissão encomendada. Nasceu para quem cometeu crime e decide contar, não para quem é escolhido a dedo como caminho até um adversário eleitoral. O que se compra sob medo não é verdade. É narrativa. E esse filme já passou: Mauro Cid, nos áudios revelados pela Veja, dizia que a investigação tinha “narrativa pronta” antes de ouvi-lo, e meses depois foi advertido no STF de que poderia ser preso e de que a família poderia ser alvo. Com Filipe Martins tentaram o mesmo, e ele respondeu da cadeia, por carta: “Não delatei. Não delatarei. Porque não há o que delatar.”
Um caso é caso. Dois pode até ser coincidência. Três é método.
Que se investigue emenda parlamentar, sempre. O que não se pode aceitar é que o aparato do Estado vire ferramenta de campanha e que o nome de instituições respeitáveis circule como senha em ligação de bastidor. Hoje o alvo está de um lado. Amanhã estará do outro, e não haverá a quem recorrer, porque teremos aceitado a regra quando ela nos era conveniente.
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Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



