RIO DE JANEIRO, 25 de agosto de 2026 — Chama-se língua do P.
Foi assim, com o nome de uma brincadeira de criança, que a acusação mais grave em circulação na política brasileira entrou no ar de uma rádio nacional. Perspectiva de poder e proteção policial. No CBN Brasil, a jornalista Vera Magalhães atribuiu a formulação aos adversários do presidente e resumiu o teor: o que se diz é que Lula teria garantido que a Polícia Federal não entraria em certos assuntos, em certas investigações.
Os nomes de sempre
Vamos ao histórico dos caciques, como ela mesma propôs.
Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, foi alvo de mandado de busca e apreensão em 7 de maio deste ano, por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master no Supremo. Segundo as investigações, ele teria recebido pagamentos mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além de uso de imóveis, a compra de uma empresa muito abaixo do valor de mercado e viagens de luxo bancadas por Daniel Vorcaro. Em troca, teria atuado no Legislativo em favor do banco. A peça central é uma emenda que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, exatamente o chamariz que o Master usava para atrair investidores.
Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Segundo publicação da Veja, o banqueiro teria feito um pagamento de US$ 30 milhões, cerca de R$ 153,5 milhões, depositado em conta secreta e repassado ao senador em troca de apoio a assuntos de interesse do banco.
Hugo Motta, presidente da Câmara. Vínculos com Vorcaro vieram à tona quando o Supremo retirou o sigilo dos processos.
Três nomes. As duas presidências do Congresso e o comando de um dos maiores partidos do Centrão. Todos negam as acusações.
E todos, nos últimos meses, se aproximaram de Lula e do governo.
O detalhe que ninguém comenta
Quando Dias Toffoli ainda era o relator do caso, ele retirou o acesso aos dados da quebra de sigilo de Vorcaro dos parlamentares da CPMI do INSS e concentrou essas informações em uma única pessoa: Davi Alcolumbre.
Ou seja, os dados que poderiam alcançar políticos ficaram sob controle do presidente do Senado, que a Veja apontaria como beneficiário de pagamentos do mesmo banqueiro. Mendonça desfez isso ao assumir a relatoria.
E as CPIs do Master? Travadas. A tentativa de obrigar Hugo Motta a instalar a comissão na Câmara fracassou. Quem decide se haverá investigação parlamentar é justamente quem seria investigado.
E isso não é teoria da conspiração, apesar das aparências.
Por que o trocadilho incomoda
Em junho, a nona fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal atingiu Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado. Existe investigação em curso.
Mas a pergunta que a fala da CBN levanta continua de pé, e é ela que interessa: por que os investigados estão migrando para o lado do governo em ano eleitoral? O que se compra com apoio político quando se está sob inquérito no Supremo?
Alguém precisa responder isso. Deveria pelo menos.
Porque é aí que reside o problema. Uma acusação de obstrução de justiça envolvendo o presidente da República e as duas casas do Congresso não cabe em jogo de palavras. Quando vira trocadilho, deixa de ser denúncia e vira entretenimento de bastidor. E entretenimento não cobra resposta de ninguém.
Se o que se descreve tivesse um dia for provado, teria nome no Código. Obstrução de justiça está na Lei 12.850, artigo 2º, parágrafo 1º: impedir ou embaraçar investigação que envolva organização criminosa, pena de três a oito anos. Corrupção ativa e passiva estão nos artigos 333 e 317 do Código Penal.
Nada disso é brincadeira de criança
E o eleitor que vai às urnas em outubro merece mais do que uma sílaba engraçadinha para entender o que está sendo negociado em seu nome.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



