RIO DE JANEIRO, 01 de setembro de 2026 — Se você tentou abrir o perfil de Renan Santos no Instagram nesta segunda-feira, encontrou uma frase burocrática: “esta conta não está disponível no Brasil”. No TikTok, “conta não disponível”. No YouTube, o canal fora do ar.
Agora faça o teste que interessa. Alguém em Lisboa, em Miami ou em Buenos Aires digita o mesmo endereço e vê tudo. Os vídeos estão lá. As postagens estão lá. O candidato está lá, inteiro.
O que deixou de existir foi o eleitor brasileiro do outro lado da tela. A fronteira do apagamento é exatamente a fronteira do país que vai votar em 4 de outubro.
E agora vem a parte que me custou escrever.
Ele ajudou a afiar a lâmina
Não gosto do histórico de Renan Santos. Não é reserva educada, é registro.
O MBL, que ele lidera, apoiou em diferentes momentos as ações de Alexandre de Moraes contra Bolsonaro e aliados. Defendeu publicamente o inquérito das chamadas milícias digitais, aquele mesmo procedimento sem denúncia, sem prazo, sem acusação formal e sem defesa, em que o Supremo investiga, acusa e julga ao mesmo tempo. Defendeu medidas judiciais contra parlamentares e apoiadores do ex-presidente. Ele próprio admitiu, em entrevista à Gazeta do Povo em maio, que fez piadas sobre Moraes na internet na época da prisão de Roberto Jefferson.
Quando a máquina pegava opositor, a máquina era instrumento de higiene. Contas derrubadas, deputado preso, canal encerrado, tudo dentro de uma engrenagem que ele chamava de justiça.
Procurado pela mesma reportagem, Renan alegou que critica Moraes há anos e lembrou a capa da revista Valete, de 2023, sobre os superpoderes do ministro. Pode ser. Mas a linha do tempo é teimosa: o incômodo com o método virou prioridade quando o método mudou de endereço.
Hoje ele diz que o STF precisa voltar para a casinha. Hoje ele quer Moraes afastado. Hoje ele descobre a palavra censura no dicionário.
Descobriu tarde. Descobriu quando chegou nele.
O que a caneta fez
O ministro Dias Toffoli, relator do registro da candidatura no TSE, assinou no domingo (30) e divulgou na segunda (31) uma decisão que suspende a propaganda eleitoral da chapa na internet, proíbe o uso de novos perfis ou contas de terceiros, corta novos repasses do Fundo Eleitoral, bloqueia o gasto do que já foi repassado e veda a participação do candidato em debates de rádio, televisão, podcasts e qualquer outro meio de comunicação. As plataformas tiveram seis horas para derrubar os perfis, sob multa de R$ 10 mil por hora e por perfil. Renan paga R$ 50 mil por cada veiculação e outros R$ 50 mil por cada debate. Teve 24 horas para se explicar, sob pena de indeferimento do registro.
O motivo: o pedido de registro, protocolado em 7 de agosto, informava apenas uma conta no X e um site. A lista completa, com 16 perfis, chegou em 19 de agosto. Doze dias de atraso.
O atraso é real. A obrigação existe e está no artigo 57-B da Lei das Eleições.
E é o mesmo artigo que diz o que se faz com quem descumpre. Parágrafo 5º: multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil. Não é teoria. Em 2023, o TRE de São Paulo aplicou exatamente R$ 5 mil a um candidato a prefeito de Ribeirão Pires que só informou o perfil do Facebook depois de notificado. Regularizar depois não apaga a infração, disse o tribunal. Por isso a multa. A multa.
Entre uma multa de R$ 5 mil e uma campanha presidencial sem redes, sem dinheiro e sem debates existe um abismo. Esse abismo não está escrito em lugar nenhum da lei. Foi aberto por um ministro sozinho, sem plenário.
E ninguém tinha pedido. Não houve representação de partido adversário nem do Ministério Público Eleitoral. Nove dias antes, o vice-procurador-geral eleitoral já havia opinado pelo deferimento da candidatura. O ministro agiu de ofício, dentro de um processo que serve para conferir requisitos formais, não para julgar propaganda.
A lição que ninguém quer aprender
Aqui está o ponto, e ele não é sobre Renan Santos.
Se eu só defendo a liberdade de quem pensa como eu, não tenho princípio. Tenho time. E quem tem time troca de regra conforme o placar.
Renan errou feio quando aplaudiu a máquina, e é justo que ouça isso agora, alto, de quem não aplaudiu nenhuma vez. Mas o preço do erro dele é a crítica, o voto, a derrota nas urnas. Não é o silenciamento. No dia em que a punição por ter defendido a censura passar a ser a censura, não sobrou princípio nenhum de pé, sobrou vingança com toga.
Em conversas e debates, sempre explicamos que a diferença entre Estado de direito e capricho é a previsibilidade: você precisa saber, antes de agir, o que vai acontecer com você. Um atraso de doze dias num formulário não deveria poder desligar uma candidatura inteira. A régua deixou de ser a lei e passou a ser o humor de quem segura a caneta.
O plenário do TSE ainda pode derrubar a liminar. Torço para que derrube, e não pelo candidato.
Pela regra. Porque a mesma lâmina que ele ajudou a afiar não vai parar nele.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Exatamente.
Não duvido que tenha sido combinado para perseguir todos opositores