Duas bombas em seis horas. O sonho e o boleto
Frase sobre a Suíça, uma ordem para emitir nota fiscal e R$ 85,7 milhões em contratos federais no meio do caminho
RIO DE JANEIRO, 17 de agosto de 2026 — Eu tinha acabado de gravar um vídeo.
Estava ali, com o roteiro fechado, o texto na cabeça, tudo pronto para publicar. O assunto era uma frase de quatro palavras que a Polícia Federal encontrou em uma conversa apreendida. Terminei a gravação, respirei, abri o celular.
Poucas horas depois, veio a segunda bomba. Tive que regravar tudo.
Essa é a sensação de quem tenta acompanhar o noticiário de corrupção no Brasil de 2026. Você não consegue terminar uma frase antes que apareça outra. O escândalo envelhece mais rápido do que o vídeo que fala sobre ele.
Então vamos com calma. São dois casos, e eles se conectam.
Primeiro caso: quatro palavras
“Nosso futuro é Suíça.”
Parece slogan de agência de viagem. Não é.
A frase foi escrita em 22 de março de 2024, em uma conversa entre a lobista Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente da República. As mensagens estavam no celular dela, apreendido pela PF, e foram reveladas nesta segunda-feira pela coluna de Tácio Lorran, no Metrópoles.
Aqui vale uma correção que a maior parte das redes sociais está errando: quem escreveu a frase foi Roberta, não Lulinha. É ela quem diz ao filho do presidente que os dois trabalham em nível diferenciado e que o futuro dos dois seria a Suíça.
Detalhe pequeno. Diferença enorme. E vou insistir nesse rigor até o fim do texto, porque é exatamente por falta dele que boas denúncias morrem no meio do caminho.
O que importa é o contexto. Na mesma conversa, segundo a reportagem, Lulinha relata reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, e com Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. O número dois da pasta.
Roberta Luchsinger é investigada por suspeita de tráfico de influência. Ela é amiga de Lulinha. Ela é também a pessoa que recebeu R$ 1,5 milhão em repasses de Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como o principal operador do esquema de descontos em aposentadorias.
Em uma dessas transferências, segundo a PF, o lobista informa a um interlocutor que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”.
Segundo caso: cinco palavras
A segunda bomba chegou com o texto mais prosaico do mundo.
Documentos em posse da Polícia Federal mostram Lulinha orientando Roberta a emitir uma nota fiscal para cobrar o empresário Cleber Ribas, dono da 3Structure IT. As comunicações são de julho de 2023.
Cleber Ribas é investigado pela PF no mesmo inquérito que apura corrupção e tráfico de influência envolvendo o filho do presidente. A empresa dele fechou seis contratos com o governo federal que somam R$ 85,7 milhões. Com os governos do Rio de Janeiro, do Paraná e de Minas Gerais, outros R$ 182 milhões, segundo o Poder360.
Os investigadores suspeitam que Ribas buscava contratos na Dataprev e em outros órgãos federais, e que teria bancado ao menos uma viagem de Lulinha em troca de portas abertas.
A empresa dele pagou R$ 150 mil à RL Consultoria, firma que tem Roberta e o pai dela como sócios. A mesma empresa que recebeu o R$ 1,5 milhão do Careca do INSS.
Não é um fio solto. É um nó.
O contraditório, que precisa estar aqui
A defesa de Lulinha afirma que ele mora na Espanha, atua exclusivamente na iniciativa privada e não tem relação direta nem indireta com o governo brasileiro. Sustenta ainda que as quebras de sigilo bancário e fiscal não produziram prova ou indício de irregularidade, e classifica a atuação de setores da PF como “pesca probatória”.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho anunciou que vai pedir ao STF, ao Ministério da Justiça e à direção-geral da PF a apuração de vazamentos seletivos.
Cleber Ribas afirma que os contratos da 3Structure com o governo federal foram firmados com transparência, após os procedimentos legais e sem favorecimento de ninguém. Diz que contratou a lobista para prospecção de clientes no setor de tecnologia.
O advogado de Roberta Luchsinger não comentou, alegando sigilo do inquérito.
Registrado. Agora siga comigo.
O problema não é uma pessoa
O ponto central da história não é Lulinha. É o mapa.
Marcola foi chefe de gabinete do presidente durante todo o mandato. Saiu do posto em 21 de julho. Admitiu ter recebido R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, que classifica como empréstimo pessoal de natureza estritamente privada. Deixou a campanha de reeleição em 5 de agosto. A PF apura se o dinheiro era pagamento por tráfico de influência, e investiga também se a lobista teria presenteado o ex-assessor com joias e pago despesas pessoais dele.
Berger, o Swedenberger Barbosa, era o número dois da Saúde. Hoje despacha no Palácio do Planalto, no Gabinete Pessoal do presidente. Segundo apuração da imprensa, teria atuado para liberar recursos do Ministério da Saúde a pedido de Roberta. O Planalto decidiu mantê-lo no cargo.
E há o Sindnapi, sindicato que aparece entre os que mais descontaram de aposentados no escândalo do INSS. R$ 599,5 milhões em dez anos, segundo o relatório final da CPMI. O vice-presidente da entidade é José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Lula. Ele não foi indiciado, não é alvo formal da investigação da PF, nega qualquer irregularidade e obteve decisão judicial para remover publicações que o associam ao esquema.
Mas ele é vice-presidente da entidade.
Onde isso dói
Tem uma imagem que eu não consigo tirar da cabeça.
Uma senhora de setenta e poucos anos, na fila do banco, conferindo o extrato com o dedo porque a letra é pequena. Ela viu R$ 30, R$ 40 sumirem do benefício todo mês, durante anos, para um sindicato que ela nunca procurou.
Ela não sabia. Mais de 76% dos aposentados que tiveram valores repassados ao Sindnapi não autorizaram o desconto, segundo relatório da CGU.
Esses R$ 30 eram o remédio. Eram o gás. Eram o presente do netinho.
E enquanto isso, em outro andar do país, duas pessoas trocavam mensagens sobre o futuro delas na Suíça.
A pergunta
Nada disso é condenação. Inquérito não é sentença, e presunção de inocência vale para todo mundo, inclusive para quem a gente não gosta.
Mas a política tem um teste mais antigo que o Código Penal, e ele é simples: quantas coincidências uma pessoa razoável aceita antes de começar a chamar de padrão?
Um filho. Um irmão. Um chefe de gabinete. Um número dois da Saúde. Uma lobista. Um operador do INSS. Um empresário com R$ 85,7 milhões em contratos federais.
Todos no mesmo círculo. Todos com a mesma explicação: coincidência.
É muita coincidência para pouco governo.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



