Eles inventaram índios para saquear o INSS. E o Governo carimbou tudo
Depois dos aposentados, o esquema chegou aos povos indígenas
RIO DE JANEIRO, 09 de julho de 2026 - O leitor achava que já tinha visto de tudo no escândalo do INSS. Descontos ilegais na conta de milhões de aposentados, associações fantasmas, irmão e filho de presidente da república envolvidos e dirigentes enriquecendo às custas de quem trabalhou a vida inteira. Pois o esquema encontrou uma nova fronteira. Agora, o alvo é a identidade indígena.
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram nesta quinta-feira a segunda fase da Operação Monã, no sul da Bahia. Foram 11 mandados de busca e apreensão em Eunápolis e Porto Seguro, e a Justiça Federal determinou o afastamento de dois servidores públicos suspeitos de participação nas falsificações.
O mecanismo é de uma simplicidade assustadora. Pessoas que nunca pisaram numa aldeia assinavam declarações falsas de pertencimento a comunidades indígenas. Esses documentos eram validados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai. Com o carimbo do Governo na mão, a porta do INSS se abria.
E o que saía por essa porta? Aposentadorias rurais, salários-maternidade e outros benefícios pagos pelo instituto. Dinheiro que existe para proteger o trabalhador rural de verdade, a mãe de verdade, o indígena de verdade.
O prejuízo estimado impressiona. Segundo os órgãos responsáveis pela operação, o esquema pode ter provocado um rombo superior a R$ 100 milhões aos cofres públicos, somando os benefícios já concedidos e os valores que ainda seriam pagos caso a fraude não fosse descoberta.
Mas a quadrilha não parava no benefício. Havia uma segunda camada de exploração, ainda mais cruel. Os beneficiários falsos eram obrigados a contratar empréstimos consignados, e os valores eram divididos entre os membros do esquema criminoso. Ou seja, a pessoa recrutada virava refém do próprio golpe. Recebia o benefício fraudado e ainda saía endividada para alimentar a organização.
Na região, o golpe ganhou até apelido: “Green Card Pataxó”. Um documento de entrada para o paraíso previdenciário, emitido nas costas de um povo que já carrega séculos de abandono.
Pense no que isso significa. A identidade indígena, que deveria ser protegida pelo Estado, virou mercadoria. E quem validou os papéis falsos? O próprio órgão criado para defender esses povos. Quantas outras declarações passaram pelo mesmo balcão?
A Justiça já começou a agir. Foi autorizado o bloqueio de mais de R$ 1,5 milhão em contas bancárias dos principais investigados, além do sequestro de um veículo, para garantir o ressarcimento aos cofres públicos.
R$ 1,5 milhão bloqueado. Contra um rombo potencial de R$ 100 milhões. Faça as contas.
E vale lembrar de onde tudo isso veio. O caso ganhou tração a partir da Operação Sem Desconto, aberta depois que a explosão de reclamações de aposentados levou a uma auditoria em 2024. A estimativa é que cerca de seis milhões de aposentados e pensionistas tenham sido afetados pelo escândalo dos descontos associativos.
O padrão se repete. Primeiro roubaram o aposentado da cidade. Depois, o pensionista. Agora, usam o nome dos povos indígenas. O sistema previdenciário brasileiro virou um balcão de saque, e cada operação da PF revela um andar novo do mesmo edifício podre.
A pergunta que fica é a mais incômoda de todas. Se dois servidores públicos foram afastados num único núcleo do esquema, no extremo sul de um único estado, o que mais existe espalhado pelo Brasil que ninguém auditou ainda?
O dinheiro da Previdência é o dinheiro de quem trabalhou. Cada real desviado sai do bolso de um aposentado real, de uma mãe real, de um indígena real. Até quando?
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



