RIO DE JANEIRO, 7 de outubro de 2026 — Domingo, 4 de outubro, noite. A última urna do Rio é apurada e o painel do TSE mostra um número que quase nenhuma pesquisa tinha previsto. Douglas Ruas (PL) teve 4.271.199 votos, 49,27% dos válidos. Eduardo Paes (PSD), favorito de quase todos os institutos, ficou com 42,76%. Faltou menos de um ponto. E é nesse menos de um ponto que mora a história.
Entre os dois aparece um terceiro nome que, a rigor, nem deveria estar na tela. Anthony Garotinho teve 274.411 votos. Só que Garotinho estava barrado. O TRE-RJ negou o registro dele por unanimidade em setembro, com base numa condenação definitiva por improbidade que suspendeu seus direitos políticos por oito anos. Ele recorreu ao TSE. Dois dias antes da votação, o tribunal derrubou a liminar que o mantinha no páreo, e os votos dele foram parar na urna marcados como anulados sub judice.
Mesmo assim, por decisão do presidente do TSE, ministro Nunes Marques, esses votos entraram no cálculo dos percentuais até que o plenário julgasse o caso. O sistema, então, anunciou segundo turno.
Na segunda-feira, Garotinho desistiu do recurso.
Agora faça a conta comigo. Sem os votos dele na base, os mesmos 4,27 milhões de Ruas passam a valer cerca de 50,9% dos válidos. Maioria absoluta. Governador eleito no primeiro turno. Sem 25 de outubro.
O Ministério Público Eleitoral concordou com a desistência. A coligação de Paes pediu ao TSE que não aceite. O PSOL fez o mesmo. Paes chamou o episódio de armação. Ruas disse confiar que será declarado eleito.
Nesta quinta-feira, às 10 da manhã, o plenário do TSE decide.
A memória curta
Agora volto um pouco no tempo, porque é aqui que a história fica interessante.
Em agosto, a coligação de Eduardo Paes foi ao TRE-RJ pedir uma liminar contra a candidatura de Garotinho. Durante toda a reta final, o entorno do ex-prefeito pressionou a Justiça Eleitoral para julgar o caso o quanto antes.
Fazia sentido para eles. Na véspera da eleição, a Quaest simulou o cenário sem Garotinho e colocou Paes com 51% dos válidos, eleito no primeiro turno. Tirar Garotinho da conta era, naquele momento, o atalho de Paes para o Palácio Guanabara. Segundo relato publicado pelo O Globo, o próprio Ruas lembrou nesta semana que Paes chegou a pedir ao TSE que os votos de Garotinho fossem considerados nulos.
Então vamos colocar lado a lado. Quando tirar Garotinho da conta favorecia Paes, Garotinho tinha que sair. Agora que tirar Garotinho da conta favorece Ruas, Garotinho tem que ficar.
O candidato é o mesmo. A condenação é a mesma. A decisão do TRE é a mesma. A única coisa que mudou foi quem se beneficia.
Sobre a tal armação
Paes fala em armação. É uma acusação pesada. Se alguém tiver prova de acordo ilícito, que apresente, e que seja investigado com rigor. Eu seria o primeiro a cobrar.
Mas desistir de um recurso é direito de qualquer parte. E a desistência não cria inelegibilidade nenhuma. Ela apenas deixa de pé o que a Justiça Eleitoral já tinha decidido, por unanimidade, antes de um único voto ser digitado.
Pense no eleitor que foi à seção no domingo, digitou o número de Garotinho e apertou confirma. Ele já votava num candidato com registro negado. Aquele voto nasceu pendurado numa decisão judicial. Ninguém está cassando a vontade dele agora. A Justiça é que avisou antes, e quem insistiu na candidatura foi o próprio Garotinho.
Do outro lado, há quase 4,3 milhões de fluminenses que votaram em Ruas e hoje não sabem se elegeram um governador ou se terão de voltar às urnas daqui a duas semanas. Um estado inteiro está em suspenso, esperando uma sessão de tribunal.
A pergunta que fica
Eu não tenho problema nenhum com segundo turno. Democracia é isso. O que me incomoda é ver a régua mudar de tamanho conforme o resultado.
Então deixo a pergunta direta, sem rodeio: se a regra vale para todo mundo, por que o candidato que ficou em segundo lugar quer manter na conta os votos de um candidato barrado?
Quinta-feira, às 10 da manhã, a gente descobre se a regra vale mesmo para todo mundo.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



