Quinto artigo da série “ESTRATÉGIA SENADO” com a missão Rio Grande do Sul.
RIO DE JANEIRO, 26 de agosto de 2026 — Existe uma diferença entre criticar a Polícia Federal de fora e reconhecer, de dentro, quando ela está sendo usada.
Ubiratan Sanderson passou a carreira como delegado da PF. Sabe como se abre um inquérito, como se pede uma busca e apreensão, quanto tempo leva para juntar prova. Por isso, quando as operações começaram a cair em série sobre parlamentares de oposição, ele foi um dos poucos que pôde dizer, com autoridade profissional, que aquele não era o padrão de trabalho da corporação onde serviu.
Eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul em 2018 e reeleito em 2022, virou vice-líder da oposição na Câmara. Em dezembro passado, protocolou no Conselho Nacional de Justiça um pedido de processo administrativo disciplinar e de afastamento imediato de Alexandre de Moraes, citando o contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia da mulher do ministro, firmado em pleno curso das investigações que atingiram a instituição.
Não foi post. Foi peça protocolada, com pedido, fundamento e assinatura.
Segurança pública não é slogan
O gaúcho está cansado de ouvir discurso sobre segurança feito por quem nunca chegou perto de uma cena de crime.
Sanderson relatou na Comissão de Segurança Pública da Câmara o projeto que criminaliza o domínio territorial exercido por facções, milícias e grupos terroristas. É a resposta legislativa ao que já acontece em bairros inteiros do Brasil: território tomado, morador taxado, Estado ausente. Quem passou vinte anos na Polícia Federal sabe que facção não se combate com seminário.
É a mesma linha que ele sustenta desde 2019: sem freio ao ativismo judicial, nenhuma política de segurança para em pé, porque a caneta de um ministro desfaz numa tarde o que o Congresso levou dois anos para aprovar.
O outro nome, a mesma trincheira
Marcel van Hattem chegou à Câmara em 2019 e foi reeleito em 2022. Hoje lidera o Novo na Casa e é, provavelmente, o parlamentar que mais incomoda o Planalto na tribuna.
Foi ele quem puxou a derrubada do decreto do IOF, o aumento de imposto que o governo tentou empurrar por caneta. E foi ele quem apontou o óbvio quando Moraes decidiu que a decisão do Congresso era inconstitucional: se o Legislativo não pode sustar decreto do Executivo, como manda a Constituição, então não sobra função para o Legislativo.
Van Hattem apresentou ao Senado pedidos de impeachment de Moraes com fatos anexados. Em outubro, incluiu os casos Filipe Martins e Flávia Magalhães, sustentando prisão decretada sem os requisitos legais e recusa em entregar à defesa dados de geolocalização que a própria Corte já tinha. Em dezembro, somou o episódio do Banco Master e o que classificou como pressão reiterada sobre uma autoridade administrativa autônoma. A frase dele resume a posição: ninguém está acima da lei.
Em maio deste ano, virou alvo de processo no Conselho de Ética por causa do que disse da tribuna. Um deputado responder no Conselho de Ética por discurso parlamentar deveria assustar qualquer democrata, mesmo quem discorda de cada palavra dita.
Por que essa dupla faz sentido
Um vem da lei e da rua. O outro vem da economia e do controle do gasto público.
Sanderson entende de crime organizado, investigação e fronteira. Van Hattem entende de imposto, orçamento e privatização. Os dois convergem exatamente no ponto que define esta eleição para o Senado: é a Casa que julga ministro do STF, aprova indicação para a Corte e vota as PECs que podem devolver ao Congresso o poder que foi sendo raspado ano após ano.
Rio Grande do Sul elege dois senadores em 4 de outubro. Dois votos, mesma trincheira.
Agora olhe o que a esquerda gaúcha oferece
Manuela d’Ávila passou 25 anos filiada ao PCdoB, partido integrante do Foro de São Paulo. Em outubro de 2024, anunciou a saída dizendo que se tornara uma mulher sem partido. Menos de um ano depois estava no PSOL, e é por lá que disputa o Senado.
Foi vice de Fernando Haddad na chapa derrotada em 2018. Disputou três vezes a prefeitura de Porto Alegre e perdeu as três, a última em 2020, para Sebastião Melo. Não vence uma eleição desde 2014.
Mas o capítulo que o eleitor gaúcho menos ouve falar é outro, e vem das próprias planilhas da Odebrecht.
Em 2016, a Polícia Federal apreendeu com Benedicto Barbosa Silva Júnior, o BJ, presidente da Odebrecht Infraestrutura e um dos operadores de Marcelo Odebrecht na distribuição de dinheiro a campanhas, a contabilidade paralela da empreiteira. Mais de duzentos políticos listados, vários com codinome. Sérgio Cabral era Proximus. Eduardo Paes, Nervosinho. Manuela d’Ávila era Avião.
Em 2017, o ex-executivo Alexandrino Alencar afirmou em depoimento de colaboração que ela recebeu R$ 360 mil por fora para campanhas eleitorais. Ela nega, sustenta que todas as doações foram legais e declaradas, e não houve denúncia nem condenação.
Some tudo: um quarto de século num partido que ela abandonou por incompatibilidade ideológica, uma nova legenda de conveniência, doze anos sem vencer eleição e um codinome na contabilidade da maior empreiteira do escândalo.
O ministro que denuncia o próprio governo
Paulo Pimenta é deputado federal desde 2003. Vinte e três anos em Brasília, sexto mandato.
Foi ministro da Secom de Lula, ou seja, chefe da propaganda do governo. Em maio de 2024, com o Estado debaixo d’água, foi nomeado ministro extraordinário da Reconstrução do Rio Grande do Sul. Durou quatro meses. Em setembro, a medida provisória que criou a pasta caducou, a reconstrução virou uma secretaria dentro da Casa Civil e Pimenta voltou para onde estava: o marketing do governo.
O gaúcho ainda tirava lama de dentro de casa quando o ministro encarregado de reconstruir o estado foi realocado para cuidar da comunicação do Planalto.
E o fecho é quase inacreditável. Agora, em campanha, o mesmo Pimenta vai ao rádio cobrar ritmo nas obras de contenção e alertar que há cerca de R$ 6 bilhões parados, destinados ao Rio Grande do Sul e não aplicados.
Parados por quem? Ele foi ministro do governo que anunciou esse dinheiro. Foi o coordenador federal da reconstrução. E é candidato pelo mesmo partido do presidente que segue no cargo. Cobrar hoje a execução que não aconteceu sob a própria gestão não é fiscalização. É teatro eleitoral com plateia enlutada.
Quem passou por 2024 no Vale do Taquari, em Canoas, em Eldorado do Sul, não precisa de aula sobre isso. Precisa de obra pronta.
Há ainda um trecho da biografia dele que costuma sumir dos perfis simpáticos. Em 2009, foi aberto inquérito para apurar suposta falsificação de documentos de uma certificadora de grãos em São Borja, com desdobramento para suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo Pimenta e outras três pessoas. Em 2012 o caso subiu ao Supremo, porque ele era deputado federal. Em 2018 o STF afastou o foro privilegiado e o processo desceu para a primeira instância.
O desfecho veio em outubro de 2020: a 8ª Turma do TRF4 concedeu habeas corpus e trancou o inquérito. O fundamento merece leitura atenta. Os desembargadores apontaram ausência de provas e, sobretudo, excesso de prazo, mais de dez anos de investigação sem que o Ministério Público apresentasse denúncia.
Pimenta diz que nunca foi condenado em processo criminal, e é verdade. Mas onze anos de inquérito encerrados por prescrição do bom senso não é o mesmo que absolvição, e o eleitor tem o direito de saber que essa página existe.
Duas vagas, oito anos
Em 4 de outubro o gaúcho marca dois nomes para o Senado, e o mandato vai até 2035.
De um lado, um delegado de carreira que enfrenta facção e cobra responsabilização de ministro do Supremo, e um parlamentar liberal que derrubou aumento de imposto e protocolou, com documento na mão, pedidos de impeachment. Do outro, uma candidata que trocou de partido depois de 25 anos e não vence eleição desde 2014, e um ex-ministro que trocou a reconstrução do estado pela propaganda do governo e hoje reclama do dinheiro que ele mesmo deveria ter feito chegar.
O Rio Grande do Sul já sabe quanto custa depender da boa vontade do Planalto. A urna de outubro é a única chance de não depender dela por mais oito anos.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


