WASHINGTON, 22 de setembro de 2026 — O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) entraram nesta terça-feira, 22, na mira de uma ação coordenada de governos do continente americano.
Os países integrantes do Escudo das Américas, coalizão liderada pelo governo de Donald Trump, assinaram uma declaração para tratar 24 organizações criminosas transnacionais como “ameaças compartilhadas” e adotar medidas conjuntas contra elas. PCC e CV estão expressamente incluídos entre os grupos alcançados pela iniciativa.
O anúncio ocorreu no mesmo dia em que Trump discursou na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. A reunião do Escudo das Américas contou também com a participação do secretário de Estado Marco Rubio. Registros oficiais americanos confirmam os encontros de Rubio e Trump com representantes da coalizão nesta terça-feira.
O que muda para PCC e CV
A declaração prevê três medidas especialmente relevantes: congelamento de ativos; restrições de imigração e vistos para integrantes, associados e apoiadores; e responsabilização criminal de pessoas que conscientemente forneçam apoio material ou logístico às organizações. Cada país deverá implementar as medidas de acordo com sua legislação e suas obrigações internacionais.
O documento afirma:
“Esta primeira ação conjunta concentrar-se-á nas 24 organizações listadas.”
O texto estabelece ainda que as medidas deverão atingir os grupos independentemente da denominação jurídica que recebam em cada país. Isso é particularmente importante no caso brasileiro, porque o governo Lula discorda da classificação de PCC e CV como organizações terroristas.
Segundo a declaração, será acionado também um mecanismo de reciprocidade da Organização dos Estados Americanos (OEA) para viabilizar a iniciativa.
Brasil está fora da coalizão
O governo brasileiro não aparece entre os signatários.
De acordo com o documento, participam como membros plenos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
A ausência brasileira cria uma situação incomum: duas das maiores organizações criminosas nascidas no Brasil passam a ser alvo de uma política coordenada de sanções de diversos países das Américas sem que o próprio Brasil participe da coalizão responsável pela iniciativa.
A Reuters informou nesta terça-feira que o Brasil, assim como o México, está entre os países ausentes do Escudo das Américas. A agência descreve a iniciativa como parte de uma política mais ampla de Trump para ampliar a coordenação regional contra cartéis e organizações criminosas transnacionais.
Trump compara cartéis ao Estado Islâmico
Horas antes, na ONU, Trump empregou uma das formulações mais contundentes de seu governo sobre o narcotráfico.
O presidente americano comparou os cartéis ao Estado Islâmico e afirmou que essas organizações utilizam assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror.
A Reuters confirmou que Trump defendeu perante a Assembleia Geral o emprego do poder militar americano contra organizações do narcotráfico e apresentou o combate aos cartéis como questão de segurança do Hemisfério Ocidental.
A posição americana, portanto, ultrapassa a cooperação policial convencional. Washington passou a enquadrar determinadas organizações criminosas dentro de sua estrutura jurídica e de segurança voltada ao terrorismo transnacional.
Governo Lula rejeita classificação
O governo brasileiro mantém posição diferente.
A administração Trump já classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas globais, enquanto Brasília contesta esse enquadramento. O argumento apresentado anteriormente pelo governo brasileiro é que a legislação nacional define terrorismo a partir de requisitos específicos e que PCC e CV são organizações voltadas à obtenção de lucro por meio de atividades criminosas, sem objetivo político, religioso ou ideológico.
Essa diferença jurídica não impediu, porém, que outros governos da região avançassem com a estratégia americana.
O Peru, por exemplo, aderiu recentemente ao Escudo das Américas. Durante visita de Marco Rubio ao país, o governo peruano afirmou que a participação permitirá acelerar o intercâmbio de inteligência e a atuação contra organizações transnacionais. Rubio declarou que esses grupos não respeitam fronteiras e, em alguns casos, possuem recursos e equipamento superiores aos de Estados.
Sanções podem alcançar quem presta apoio
Outro aspecto da declaração merece atenção: as medidas anunciadas não estão limitadas aos integrantes formais das organizações.
O documento menciona “membros, associados e apoiadores” para efeitos de restrições migratórias e prevê responsabilização de quem fornecer conscientemente “apoio material”, inclusive logístico.
Na prática, a implementação dependerá da legislação de cada país, e a declaração não significa automaticamente que qualquer pessoa apontada como relacionada ao PCC ou CV terá seus bens bloqueados em todos os países participantes. Cada governo precisará executar as medidas dentro de seu próprio ordenamento.
Ainda assim, a decisão cria uma estrutura multilateral para atingir não apenas os operadores das facções, mas também redes financeiras e logísticas identificadas como responsáveis por sustentá-las.
Pressão sobre o Brasil entra em nova fase
A decisão desta terça-feira amplia uma divergência já existente entre Brasília e Washington.
Em seu próprio discurso na ONU, Lula defendeu soberania, multilateralismo e não interferência e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Trump, por sua vez, colocou o combate aos cartéis entre as prioridades de segurança hemisférica de sua administração. A Reuters relata que o presidente prometeu reafirmar o peso americano no Hemisfério Ocidental e coordenar ações com governos aliados contra organizações narcotraficantes.
A diferença agora deixa de ser apenas terminológica. PCC e Comando Vermelho são organizações brasileiras. O Brasil rejeita enquadrá-las juridicamente como terroristas. Ao mesmo tempo, uma coalizão de 15 países do continente, liderada pelos Estados Unidos e sem participação brasileira, anuncia congelamento de ativos, restrições migratórias e medidas criminais contra as duas facções e suas redes de apoio.
A partir desta terça-feira, essa divergência passa a produzir consequências concretas na política de segurança regional.



