EUA sancionam rede terrorista brasileira que lavava dinheiro do PCC na Flórida
O Tesouro afirma que o PCC é atualmente a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental
WASHINGTON, 1º de julho de 2026 — O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, sancionou nesta quarta-feira (1º) dois cidadãos brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa por seus vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O PCC representa uma ameaça significativa à segurança nacional dos Estados Unidos, pois seus operadores, especialmente na Flórida, utilizam o sistema financeiro americano para lavar recursos provenientes do tráfico de drogas, alimentando um ciclo contínuo de atividades criminosas.
O Tesouro afirma que o PCC é atualmente a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental. Nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, estabelecendo presença relevante em países como Reino Unido, Turquia e Japão.
Nos Estados Unidos, a facção representa uma ameaça criminosa crescente. Redes como a atingida pelas sanções anunciadas hoje atuam no tráfico de drogas, no transporte ilegal de grandes quantias em dinheiro para cartéis e em outras atividades ilícitas destinadas a gerar receitas para o PCC.
O comunicado destaca ainda que investigações recentes conduzidas pelas autoridades brasileiras revelaram uma operação de lavagem de dinheiro baseada em comércio internacional, controlada pelo PCC, que utilizava uma rede chinesa de distribuição de eletrônicos e uma plataforma chinesa de comércio eletrônico para lavar mais de US$ 190 milhões em apenas sete meses.
“Esta designação representa mais um passo do governo dos Estados Unidos para enfrentar e reconhecer a crescente presença da geração ilícita de receitas do Primeiro Comando da Capital dentro de nossas fronteiras”, afirmou Gene Lange, que exerce interinamente as funções de subsecretário do Tesouro para Terrorismo e Inteligência Financeira.
“O crime organizado no Hemisfério Ocidental não pode estabelecer operações em solo americano que contribuam para a criminalidade e a desordem.”
A medida é resultado de uma investigação coordenada pela Homeland Security Task Force (HSTF), com participação do escritório do FBI em Miami e da Divisão de Lavagem de Dinheiro, Narcóticos e Confisco de Bens do Departamento de Justiça (DOJ).
As sanções foram impostas com base na Ordem Executiva 14059, voltada ao combate ao narcotráfico internacional, e também na Ordem Executiva 13224, alterada posteriormente, utilizada para atingir terroristas e seus apoiadores.
DOJ e Tesouro desarticulam rede de lavagem ligada ao PCC
Segundo o comunicado, a organização de lavagem de dinheiro operava principalmente em dois polos: Flórida (Estados Unidos) e São Paulo (Brasil).
Em janeiro de 2026, o FBI prendeu seis integrantes da célula sediada na Flórida, que foram formalmente denunciados por lavagem de dinheiro perante a Corte Distrital do Sul da Flórida.
As sanções anunciadas nesta quarta-feira concentram-se no braço paulista da organização, liderado por:
Victor Henrique de Oliveira Shimada
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira
Segundo o Tesouro, Shimada era um elo fundamental entre operadores do PCC estabelecidos na Flórida e traficantes internacionais.
De acordo com as autoridades americanas, sua organização lavou mais de US$ 30 milhões provenientes de atividades criminosas realizadas em diversas cidades dos Estados Unidos, utilizando criptomoedas para enviar os recursos ao Brasil em benefício do PCC.
O governo americano afirma ainda que Shimada esteve envolvido em outros crimes financeiros. Em janeiro de 2025, ele chegou a cumprir prisão domiciliar no Brasil porque uma de suas empresas, Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda, teria sido utilizada para lavar dinheiro desviado de um clube brasileiro de futebol em um esquema de fraude publicitária.
Já Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é descrita como parente próxima e associada de Shimada. Segundo o Tesouro, ela atuava como secretária do grupo e coordenava a logística para recolhimento de grandes quantias em dinheiro vivo, prestando apoio essencial às operações de lavagem.
Sanções individuais
O Tesouro informou que Victor Henrique de Oliveira Shimada foi sancionado por:
fornecer ou tentar fornecer apoio financeiro, material ou tecnológico ao PCC;
prestar bens ou serviços em benefício da organização;
oferecer assistência material à facção.
As sanções foram impostas tanto pela Ordem Executiva 14059 quanto pela Ordem Executiva 13224.
Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira foi sancionada por atuar em nome de Shimada ou sob sua direção, direta ou indiretamente.
Empresas sancionadas
Segundo o OFAC, Shimada utilizava diversas empresas para ocultar recursos ilícitos enviados dos Estados Unidos ao Brasil.
Foram sancionadas:
Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda
Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda
Wave Construções Inteligentes Ltda
Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (Portugal)
O Tesouro afirma que:
Victory Trading e Wave atuam no setor de serviços financeiros;
Pixwave é apresentada como empresa de construção;
Avenidas Flutuantes é uma empresa portuguesa de transporte e armazenagem localizada nas proximidades de Lisboa.
Todas foram sancionadas por serem controladas por Shimada ou por atuarem em seu benefício.
Histórico das sanções contra o PCC
Esta é a terceira ação do OFAC contra o PCC.
As anteriores foram:
15 de dezembro de 2021 — designação oficial do PCC como organização envolvida na proliferação internacional do narcotráfico.
14 de março de 2024 — sanção contra Diego Macedo Gonçalves do Carmo, acusado de lavar grandes volumes de dinheiro para a facção.
Efeitos das sanções
Como consequência imediata:
todos os bens e interesses patrimoniais das pessoas e empresas sancionadas localizados nos Estados Unidos ou sob controle de cidadãos americanos ficam bloqueados;
qualquer empresa pertencente em pelo menos 50% a pessoas sancionadas também passa automaticamente a ser bloqueada;
cidadãos e empresas americanas ficam proibidos, salvo autorização específica do OFAC, de realizar qualquer transação envolvendo os sancionados.
O Tesouro alerta que instituições financeiras estrangeiras que realizarem operações relevantes com os sancionados também poderão ser alvo de sanções secundárias, inclusive com restrições ao acesso ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
O comunicado acrescenta que violações às sanções podem resultar em penalidades civis e criminais tanto para cidadãos americanos quanto estrangeiros.
Por fim, o Tesouro ressalta que o objetivo das sanções não é apenas punir, mas induzir mudanças de comportamento.



