EXCLUSIVO TIMELINE: Urânio e os riscos radioativos
Denúncia pública: Preocupações com riscos radioativos no Brasil e comunicação ao Tribunal Penal Internacional
Por Isabel de Fátima Alvim Braga, MD PhD
Rio de Janeiro, 19 de maio de 2026 — Tudo começa com uma questão aparentemente simples, mas que revela um aspecto pouco discutido do uso de materiais radioativos no Brasil: a facilidade de aquisição de compostos de urânio em pó ou forma solúvel por pesquisadores e laboratórios e a negligência estatal com esses compostos .
O acetato de uranila, um sal de urânio natural ou empobrecido frequentemente comercializado como reagente analítico (em pó ou solução), pode ser adquirido por instituições científicas com relativa simplicidade para uso como corante em microscopia eletrônica, sem as mesmas restrições aplicadas a urânio enriquecido e figuram em licitações diversas de várias instituições de pesquisa. O uso é legal em laboratórios com licenças CNEN, mas gera debates recentes sobre segurança.
Ex. Pregão Fiocruz Farmanguinhos (2024) – aquisição de acetato de uranila.54c38b
Termo de Referência UFVJM (2024) – pregão para acetato de uranila anidro.ab36c2
Pregão IFMA Campus Caxias (recentes) – itens incluindo acetato de uranila.c13a0e
Edital Fiocruz Bahia (2025) – aquisição de reagentes com acetato de uranila.7579b5
Licitações via PNCP e Compras.gov.br (vários entre 2022-2025) por instituições federais.2d0ca4
Esse composto é vendido abertamente por lojas especializadas em suprimentos laboratoriais destinadas a universidades e centros de pesquisa e muitas vezes é comprado sem licitação ou autorização legal para tal.
Um caso concreto em uma pesquisa pública em uma instituição federal ilustra esse ponto. Em 2019, o pesquisador Kayo Cesar Bianco Fernandes defendeu, no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), a tese de doutorado intitulada Poluentes químicos e biológicos em ambientes aquáticos e seus impactos na estrutura e no resistoma móvel de comunidades microbianas, orientada pela professora Maysa Beatriz Mandetta Clementino.
O trabalho envolveu o uso de urânio em procedimentos laboratoriais para análise de amostras de água. A tese recebeu o Prêmio CAPES de Tese 2020 e Menção Honrosa no Prêmio Oswaldo Cruz de Teses 2019, reconhecimentos que destacam sua relevância científica.
Imagem: print da tese supracitada evidenciando a semadura de urânio. O documento está integralmente disponível no repositório institucional da Fiocruz: https://arca.fiocruz.br/items/b2a84662-08e6-480f-8274-97db9a329b9d.
A Fiocruz esclareceu, em nota oficial, que o uso do acetato de uranila integra procedimentos laboratoriais de rotina em contextos científicos específicos, realizados com os protocolos de segurança exigidos. No entanto, não justificou como faz uso do produto sem que tenha laboratórios com contenção radiológica ou como supostamente um doutorando comprou urânio que não era na forma desse sal.
Ainda assim, o episódio levanta uma reflexão importante: de onde exatamente veio o pó ou o composto utilizado? A aquisição ocorreu por meio de fornecedores comerciais autorizados, o que é legal e comum na pesquisa acadêmica, mas reforça a necessidade de transparência total sobre o rastreamento, o estoque, o manuseio e o descarte desses materiais. Por que tal.material não constava na lista de licitações da instituição em questão? Como foi feita tal compra?
A prática de compra de radioisótopos laboratoriais sem qualquer contenção é prática comum no país e qualquer pesquisa no Google mostra centenas de artigos utilizando esses compostos sem contenção em laboratórios e universidades de todo o país.
O maior problema da ciência brasileira é a falta de ética em pesquisa.
A partir desse ponto, o cenário do problema envolvendo compra de urânio se amplia para o panorama geral do urânio no Brasil – um elemento presente em diversas etapas do ciclo nuclear nacional. O país possui reservas significativas de urânio natural, exploradas principalmente pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB) na mina de Caetité, na Bahia. A INB afirma em seu Instagram ser responsável por todo o urânio do país.
A INB gerencia todo o ciclo do combustível nuclear: mineração, concentração, conversão, enriquecimento (até 5% de U-235) e fabricação de elementos combustíveis na unidade de Resende (RJ). Esse material é transportado por rodovia até as usinas de Angra, em contêineres especiais Tipo B.
Ao longo dos anos, surgiram registros de desafios operacionais. Em julho de 2023, duas ampolas de UF6 enriquecido a 4,25% desapareceram na Fábrica de Combustível Nuclear em Resende, fato investigado pela Polícia Federal e pela CNEN, mas ainda sem a devida conclusão.
Na Bahia, em 16 de janeiro de 2026, a Vara do Trabalho de Guanambi condenou a INB ao pagamento de R$ 15 milhões em indenização por danos morais coletivos, em razão de falhas na proteção radiológica na Unidade de Concentrado de Urânio (URA). A decisão considerou exposição de trabalhadores diretos e terceirizados, ausência de dosímetros individuais adequados e diferenças no treinamento de segurança. Foram encontrados vazamentos de material radiológico radioativo para o solo em tonéis enferrujados. As roupas dos trabalhadores com pó de urânio eram lavadas em suas próprias casas.
A mesma empresa INB é responsavel pela nuclemon, em SãoPaulo.
A Nuclemon (ex-Orquima, atual INB), em parceria com a Epal e outras empresas, operou a primeira instalação nuclear industrial do Brasil no Brooklin e em Santo Amaro (SP) desde os anos 1940, expondo dezenas de trabalhadores e moradores a radiação sem proteção adequada, resultando em contaminações graves, mortes prematuras, abortos e doenças graves que o governo e as empresas ocultaram por décadas.
No livro investigativo “Cobaias da Radiação”, a jornalista Tania Malheiros denuncia esse crime corporativo e estatal com base em quatro anos de pesquisa, depoimentos de vítimas e documentos, revelando a marcha nuclear brasileira que tratou brasileiros como cobaias descartáveis. O site da ANTPEN (antpen.com.br), associação das vítimas e familiares, amplifica essa denúncia, cobra indenizações, tratamentos de saúde e justiça contra a INB, mantendo viva a luta por reparação e contra o silêncio oficial sobre esse legado de contaminação e impunidade.
A avenida Miguel Yunes, local altamente povoado na zona sul de São Paulo (esquina com Av. Interlagos), abriga um depósito da INB (ex-Nuclemon) com cerca de 1.000 a 1.150 toneladas de rejeitos radioativos, incluindo 590 toneladas de Torta-II (concentrado de urânio e tório), provenientes do processamento de areia monazítica no Brooklin. Essa área contaminada, com solo e bolsão de água subterrânea poluídos por radiação, fica ao lado do Templo do padre Marcelo Rossi — que atrai milhares de fiéis — e de condomínios residenciais em região densamente povoada, gerando riscos de exposição a trabalhadores, moradores e visitantes.
De acordo com o site da ANTPEN, a INB admite contaminação de um bolsão de água sob o galpão (de baixa concentração, segundo a empresa, mas com radiação significante na área, agravada por chuvas que fazem a água bater nas paredes do galpão e escoar para o Rio Pinheiros via brejo e calha), com placas de alerta precárias, cerca deficiente e solo contaminado que exige remediação de cerca de 80 m³; a CPI da Câmara Municipal confirmou contaminação radioativa no local, destacando a responsabilidade da Nuclemon e CNEN.
A INB (Indústrias Nucleares do Brasil) ainda promoveu chamamento público para leilão de cerca de 15.424 toneladas de “Torta II” (resíduo radioativo contendo urânio, tório e terras raras, subproduto do processamento da monazita na antiga Nuclemon), material estocado em Itu/SP (3.500 t no Sítio São Bento/Botuxim), Caldas/MG (11.334 t) e Interlagos/SP (590 t). O leilão, prorrogado por falta de propostas até 18 de dezembro de 2025, visa exportação para uso pacífico (com declaração de uso final proibindo armas ou fins militares), sendo o risco nuclear responsabilidade da INB até saída das águas brasileiras, enquanto embalagem e custos de adequação ficam a cargo do comprador.
Em 2013, houve tentativa de venda para uma empresa chinesa por R$ 65 milhões, mas não avançou por falta de licenças ambientais. Referências principais: reportagem G1 (https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2025/09/22/leilao-milionario-de-lixo-atomico-e-prorrogado-por-falta-de-compradores-entenda-processo.ghtml) e Jornal Periscópio (https://jornalperiscopio.com.br/site/inb-prorroga-leilao-do-lixo-atomico-de-itu/), que também mencionam análises de água em Itu com urânio abaixo dos limites legais (CONAMA e Ministério da Saúde). O site da ANTPEN (https://antpen.com.br/) denuncia o passivo histórico sem tratar diretamente do leilão atual.
No âmbito da Eletronuclear, o IBAMA aplicou multa milionaria pelo vazamento de aproximadamente 90 litros de água contaminada com radiação na baia de Angra dos Reis, levando em conta o descarte em desacordo com normas da CNEN e o atraso na comunicação às autoridades. A usina de Angra sabidamente tem falhas de construcao e segurança conhecidas desde 1983. Segundo a gazeta do povo, um relatório confidencial da Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério das Minas e Energia apresenta um relatório narrando incidentes operacionais ocorridos em Angra 1, em 8 de outubro de 1983.
A questao da área de construcao de Angra com um projeto ultrapassado em uma área de grande povoamento é um outro problema a parte, pois tal faz com.que nao se atenda totalmente aos requisitos de segurança específicados em seu reator de referência original alemao Grafenrheinfeld.
Nas chuvas, diversas áreas da cidade são propensas a deslizamentos e o solo e a proximidade da agua levam ao.questionamentk se a tecnologia arcaica de resfriamento de reator com agua do mar que gerou o geande acidente de Fujushima não levará o Rio de Janeiro a um desfecho similar se mantivermos a tecnologia já obsoleta de reator nuclear nessa construção.
A soberania nacional sobre a segurança nuclear envolvendo a empresa supracitada parece estar sendo suostamentw ameaçada.
Em outubro de 2025, a J&F Investimentos, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista (controladora da JBS, maior processadora de proteínas do mundo), por meio de sua subsidiária Âmbar Energia, assinou acordo para adquirir a totalidade da participação da Eletrobras na Eletronuclear por R$ 535 milhões em dinheiro.
A transação inclui a assunção de compromissos como garantias e a integralização de debêntures no valor de R$ 2,4 bilhões relativas ao termo de conciliação com a União, permitindo que a Eletrobras se desfaça de riscos associados ao ativo nuclear.
Com isso, a Âmbar passará a deter 68% do capital total e 35,3% do capital votante da Eletronuclear (operadora das usinas Angra 1 — 640 MW —, Angra 2 — 1.350 MW — e responsável pelo projeto Angra 3), enquanto o controle acionário permanece com o governo federal via ENBPar (cerca de 32% do capital total e 64,7% do votante).
A operação marca a estreia da família Batista no setor nuclear, diversificando o portfólio da J&F (que já atua em energia via Âmbar com termelétricas e outras fontes), e foi anunciada em 15 de outubro de 2025. Link principal da notícia oficial:
G1 - Eletrobras vende participação na Eletronuclear por R$ 535 milhões à J&F.2e12a1
Vazamentos em Angra 2 e aspectos do Programa Nuclear Brasileiro
Desde 2023, registro vazamentos na Usina Nuclear Angra 2, incluindo aproximadamente 90 litros em 2023, incidentes adicionais em 2024 e vazamento na tampa do reator em fevereiro de 2025 ( Denunciada pelo portal R7, mas desmentida em nota técnica que afirma que é apenas um mero problema em selo), com reparos postergados pela gestão da Eletronuclear por supostas questões financeiras ( Ainda que a empresa supostamente forneça blindados aos seus executivos).
Assim, a empresa reconheceu os eventos em nota oficial. Angra 2 opera desde 2000, mas o programa nuclear brasileiro apresenta histórico de desafios, como a fundação de Angra 1 em solo instável e os atrasos acumulados em Angra 3, que envolvem questões contratuais e interrupções. Esses fatores reforçam a importância de monitoramento contínuo e manutenção rigorosa.
Uma preocupação adicional refere-se à qualidade das águas subterrâneas em um estado composto por uma bacia hidrográfica altamente comunicante, ond3 a Análise de Risco de Contaminação da Água em Resende e Serra Fluminense mostrou dados preocupantes.
Estudo da PUC-Rio identificou concentrações de até 930 µg/L de urânio em poços profundos (“artesianos”) da Serra Fluminense – valor que supera o limite brasileiro de 30 µg/L (Portaria MS nº 888/2021).
Cálculos orientativos de exposição (baseados em dados públicos e coeficientes regulatórios):
Toxicidade química (renal): Ingestão diária de 2 litros de água a 930 µg/L equivale a cerca de 1,86 mg/dia de urânio solúvel. O patamar de referência da OMS/EPA para risco renal crônico situa-se em torno de 0,06 mg/kg/dia para adulto de 70 kg, o que indica necessidade de monitoramento rigoroso ( Cálculos imprecisos apenas para ilustrar) pode tirwr se achar q peguei pesado nessa parte dos calculos ou q ficou info demais
Transporte de material nuclear e Plano de Emergência:
A INB realiza o transporte de combustível nuclear de Resende para Angra por rodovia (BR-101), em contêineres Tipo B e comboios escoltados, com recargas periódicas a cada 12–18 meses. Em 2019, um comboio sofreu ataque criminoso na BR-101, embora os contêineres tenham resistido. O trajeto atravessa regiões densamente povoadas, o que justifica atenção permanente à segurança. Em outras palavras, anualmente um grupo de caminhoes contendo radiação atravessa o Rio de Janeiro.
O Plano de Emergência Externo da Eletronuclear prevê evacuação em zona de até 5 km. A Rodovia Rio-Santos, principal via de acesso, apresenta características sinuosas e sujeitas a deslizamentos, o que torna a operação complexa em cenários de alta densidade populacional, turismo ou condições adversas, conforme lições observadas em outros eventos internacionais. Um vazamento em Angra poderia, assim, se tornar uma grande catastrofe.
Reitero que fiz um pedido para que as autoridades competentes – Ministério da Saúde, Fiocruz, CNEN, MPF e PF – avaliassem as informações apresentadas, promovendo a transparência e a proteção à saúde pública (art. 196 da CF/88). O caso segue em análise no TPI e na IAEA (Ainda sem número de protocolo)
A transparência e o diálogo técnico são fundamentais para a confiança da sociedade no setor nuclear brasileiro. Ou para que este seja dissolvido, caso se conclua que os riscos para a população superam os riscos. Ausência de evidência jamajs será evidência de ausência. Mas acho que o presente artigo já mostrou evidências suficientes de que possa haver algo errado com o setor nuclear brasileiro.
Isabel de Fátima Alvim Braga, MD PhD
Obs. Não represento a Fiocruz nesse artigo. E a Fiocruz não me representa
Citações e Referências
Decreto nº 9.967, de 8 de agosto de 2019: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Decreto/D9967.htm
Tese de Kayo Cesar Bianco Fernandes (2019) – Poluentes químicos e biológicos em ambientes aquáticos e seus impactos na estrutura e no resistoma móvel de comunidades microbianas: https://arca.fiocruz.br/items/b2a84662-08e6-480f-8274-97db9a329b9d
Nota da Fiocruz sobre acetato de uranila: https://agencia.fiocruz.br/fiocruz-esclarece-desinformacao-sobre-uso-de-acetato-de-uranila-em-procedimentos-laboratoriais
Prêmio CAPES de Tese 2020 e Menção Honrosa Prêmio Oswaldo Cruz de Teses 2019 – Kayo Cesar Bianco Fernandes: https://www.incqs.fiocruz.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2295:egresso-da-ppgvs-recebera-premio-capes-de-tese-2020&catid=42&Itemid=132
Nota oficial da Eletronuclear: https://www.eletronuclear.gov.br/Imprensa-e-Midias/Paginas/Nota-de-esclarecimento-%C3%A0-mat%C3%A9ria-publicada-pelo-R7.aspx
Reportagem R7 sobre Angra 2: https://noticias.r7.com/prisma/natalia-martins/usina-nuclear-angra-2-tem-vazamento-no-nucleo-do-reator-e-nova-gestao-adia-reparo-21022025/
G1 sobre vazamento em Angra: https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2023/03/23/justica-cobra-eletronuclear-por-deixar-de-informar-vazamento-de-material-radioativo-em-angra-dos-reis.ghtml
Valor Econômico sobre vazamento na tampa (2025): https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/02/21/angra-2-tem-vazamento-de-agua-na-tampa-de-reator-mas-nao-houve-necessidade-de-desligamento-da-central.ghtml
G1 sobre ampolas na INB: https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/2023/08/16/inb-investiga-sumico-de-ampolas-de-amostra-de-uranio-enriquecido-em-resende.ghtml
Estudo PUC-Rio: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-12/puc-rio-faz-analises-gratuitas-de-agua-para-detectar-uranio-em-excesso
Condenação INB Caetité: https://www.conjur.com.br/2026-jan-16/juiza-condena-estatal-nuclear-por-expor-trabalhadores-a-contaminacao/
Multa IBAMA Eletronuclear: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2023/03/23/ibama-multa-eletronuclear-em-mais-de-r-2-milhoes-por-ter-demorado-21-dias-para-comunicar-vazamento-de-material-radioativo.ghtml
Relatos Nuclemon/Interlagos (ANTPEN): https://www.antpen.com.br/noticias/materias/item/226-nuclemon-um-legado-de-contaminacao-e-morte.html
Todos os documentos e protocolos estão disponíveis para as autoridades competentes. Agradeço a atenção dedicada à proteção da saúde pública.
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