BOSTON, 26 de agosto de 2026 — O FBI prendeu nesta quarta-feira, 26, o deputado estadual de Massachusetts Francisco Paulino, de 61 anos, sob acusação de participar de um esquema que teria desviado mais de US$ 700 mil de programas públicos criados durante a pandemia de Covid-19.
Paulino, que representa o 16º Distrito de Essex — incluindo áreas de Lawrence e Methuen — foi denunciado por um grande júri federal em Boston por oito acusações de fraude eletrônica e três de lavagem de dinheiro.
Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, os crimes teriam ocorrido antes de Paulino assumir seu mandato eletivo e envolveriam tanto benefícios emergenciais de desemprego quanto empréstimos destinados a pequenas empresas afetadas pela pandemia.
Benefício em nome de parente de 77 anos
Uma das acusações envolve o programa Pandemic Unemployment Assistance (PUA), criado para auxiliar trabalhadores que não tinham acesso ao seguro-desemprego convencional.
De acordo com a denúncia, Paulino teria solicitado, em 2020, benefícios em nome de um parente de 77 anos sem o conhecimento dele. Na solicitação, teria declarado falsamente que o familiar havia trabalhado para uma de suas empresas, a Madison Tax LLC.
Os investigadores afirmam que documentos falsos foram apresentados para sustentar o pedido e que as parcelas foram direcionadas para uma conta bancária mantida exclusivamente por Paulino.
Entre abril de 2020 e setembro de 2021, mais de US$ 44 mil teriam sido pagos.
Parte desse dinheiro, segundo os promotores, foi usada para despesas imobiliárias, pagamento de empréstimos e transferências para a conta da campanha política de Paulino.
Empréstimos públicos e negócios imobiliários
Outra parte relevante do caso envolve os chamados Economic Injury Disaster Loans (EIDL), empréstimos concedidos pela Small Business Administration (SBA) a empresas prejudicadas pela pandemia.
Os recursos tinham juros de 3,75% e deveriam ser empregados como capital de giro para compensar prejuízos econômicos provocados pela Covid-19.
A acusação sustenta, porém, que Paulino teria obtido recursos por meio de informações falsas e posteriormente utilizado parte do dinheiro em operações imobiliárias e empréstimos privados.
Em um dos episódios, sua empresa Madison Tax recebeu inicialmente US$ 109,2 mil e posteriormente teve o financiamento ampliado em US$ 292,6 mil, chegando a US$ 401,8 mil.
Após receber a ampliação, Paulino teria transferido US$ 100 mil para outra empresa sob seu controle, a Madison Mortgage, utilizando o dinheiro para ajudar a financiar uma hipoteca de US$ 600 mil destinada à compra de uma residência em Methuen.
Meses depois, outros US$ 120 mil provenientes do programa federal teriam sido usados para financiar uma operação imobiliária em Lawrence.
Dinheiro do contribuinte emprestado a juros maiores
A denúncia chama a atenção ainda para a diferença entre os juros pagos por Paulino ao governo e aqueles cobrados nas operações realizadas com o dinheiro.
Enquanto os empréstimos emergenciais federais tinham taxa de 3,75%, Paulino teria utilizado os recursos para conceder financiamentos privados cobrando juros de 5,5% e 7,94%, além de uma taxa de originação de US$ 25 mil.
Em outro episódio descrito pelos promotores, Paulino teria conseguido, sem o conhecimento de um cliente, uma ampliação de US$ 243,2 mil em um empréstimo federal. Posteriormente, teria convencido o cliente a lhe emprestar US$ 200 mil.
O dinheiro acabou sendo utilizado para ajudar a financiar uma hipoteca de US$ 680 mil para a aquisição de outro imóvel em Lawrence. Nessa operação, teriam sido cobrados juros de 6,25% e uma taxa adicional de US$ 17 mil.
Prefeito da mesma cidade também é alvo
A prisão de Paulino ocorre em meio a outra investigação envolvendo um político de Lawrence.
O prefeito da cidade, Brian DePena, também foi formalmente denunciado por um grande júri federal nesta quarta-feira. Ele havia sido preso em 14 de agosto e é acusado de obter fraudulentamente mais de US$ 1,5 milhão em empréstimos para pequenas empresas durante a pandemia.
Segundo o Departamento de Justiça, parte dos recursos teria sido destinada à campanha eleitoral, ao pagamento de impostos pessoais e a mais de US$ 880 mil em hipotecas de juros elevados relacionadas a imóveis pertencentes ao prefeito.
DePena responde a quatro acusações de fraude eletrônica e sete de lavagem de dinheiro.
Os dois casos fazem parte de uma ofensiva mais ampla das autoridades federais contra fraudes envolvendo benefícios públicos em Massachusetts. Em março, a Procuradoria Federal do estado criou uma equipe específica para investigar fraudes em benefícios e eleições. Em abril, o Departamento de Justiça criou a National Fraud Enforcement Division, estrutura voltada ao combate a esquemas contra programas federais.
O diretor do FBI, Kash Patel, afirmou nesta quarta-feira que a investigação permanece em andamento e escreveu que “ninguém está acima da lei”.
Cada acusação de fraude eletrônica pode resultar em pena de até 20 anos de prisão. As acusações de lavagem de dinheiro preveem até 10 anos de prisão cada, além de multas.
Paulino ainda não foi condenado. As acusações constam de uma denúncia federal e, segundo a legislação americana, ele é considerado inocente até que sua culpa seja comprovada em tribunal.



