Hoje é ele. Amanhã será você
Um pai doente escreveu à mão para o filho. O que veio depois barrou a família inteira, e um presidente estrangeiro, até outubro
RIO DE JANEIRO, 21 de julho de 2026 — Um presidente em exercício, de um país vizinho, anunciou que viria ver um amigo doente. A porta se fechou antes mesmo de ele chegar.
Javier Milei havia dito, em rádio, que faria uma parada em Brasília depois do ato do PL em São Paulo, no dia 25. Queria cumprimentar Jair Bolsonaro. No sábado 18 de julho, o ministro Alexandre de Moraes vetou a visita. Não é figura de linguagem: um chefe de Estado estrangeiro foi barrado na antessala de uma casa por decisão de um único juiz.
E não para em Milei.
O filho, senador Flávio Bolsonaro, está proibido de ver o pai por noventa dias. A conta é simples e cruel: ele não vai poder abraçá-lo antes do primeiro turno de outubro. A família inteira ficou de fora por trinta dias. Só cruzam aquela porta médico, fisioterapeuta e advogado. Neto, filha, ninguém mais. É o que diz a decisão de 17 de julho, que Moraes assinou sozinho.
Tudo isso por causa de uma carta.
O que dizia a carta
No dia 13, Flávio publicou um vídeo lendo um bilhete escrito à mão pelo pai. Não havia ali segredo de Estado. Não havia ordem de operação, não havia conspiração, não havia plano nenhum. Havia um pai reconhecendo o filho como candidato do seu campo à Presidência e pedindo que a família permanecesse unida. Confiança e união. Foi isso.
Para o ministro, aquilo violou a medida cautelar que impede o ex-presidente de se manifestar em redes sociais, inclusive por meio de terceiros. A leitura de uma carta virou descumprimento. O gesto de um pai virou infração. E a punição desceu sobre a casa toda.
Neste momento sombrio em que vivemos, o que qualquer pessoa de bom senso perguntaria: em que República escrever “confio em você, mantenham-se unidos” é motivo de castigo?
Um homem incomunicável
Bolsonaro carrega no corpo as marcas de uma facada que quase o matou em 2018. Cumpre prisão domiciliar por razões de saúde. E, agora, os próprios advogados usam uma palavra para descrever o que ele vive: incomunicabilidade. A palavra é deles, não minha.
Procure na história da nossa República uma decisão semelhante. Um ex-presidente da nação impedido de receber a própria família porque escreveu uma carta ao filho. Procure com calma. Eu espero.
Ele não está sozinho na engrenagem
Guarde na memória os presos do 8 de janeiro. Gente simples, sem antecedente criminal algum, condenada a penas de décadas.
O caso que virou símbolo tem nome: Débora Rodrigues dos Santos, cabeleireira, 39 anos, mãe de dois. Escreveu “perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça. A 1ª Turma do STF a condenou a catorze anos. O relator, o mesmo Moraes, enquadrou-a em cinco crimes com base na tese do “crime de multidão”, pela qual todos que estavam ali respondem pelo todo, sem precisar provar o que cada um fez.
Na mesma Turma, o ministro Luiz Fux divergiu e votou por um ano e seis meses. Um ano e seis meses contra catorze anos, dentro do mesmo colegiado, para o mesmo batom. Quando a distância entre dois votos é essa, o problema não está na ré. Está na balança.
Enquanto isso, pela porta giratória do sistema, criminosos violentos entram e saem.
Repare na data
Nenhuma visita de caráter político até o fim das eleições. A restrição vale, por escrito, até outubro. Justamente até outubro.
Por mais cético que uma pessoa possa ser, é extremamente difícil não enxergar coincidência aí. Calou-se, no meio do jogo, uma das vozes mais influentes de um dos lados. E o veto não atingiu só um preso: alcançou o filho, família e vetou até mesmo um presidente estrangeiro em visita anunciada. Se conseguem fazer isso com um ex-presidente da República, o que fazem com você, que não tem advogado de plantão, nem câmera na porta, nem ninguém olhando?
Essa é a pergunta que deveria tirar o sono de todo mundo, à esquerda e à direita.
Um homem de toga
As decisões que fecharam a porta são monocráticas. Saem da caneta de um só ministro. O recurso da defesa, protocolado na segunda 20, só chega ao restante da 1ª Turma se o próprio relator admitir. Ou seja: quem foi questionado decide se o questionamento sobe.
Na prática, um homem que afirma ser vítima, também acusa, investiga, julga e pune dentro do mesmo círculo. Isso não é a justiça funcionando. Isso é vontade. Vontade política de um homem vestida de sentença.
O Supremo Tribunal Federal jurou guardar a Constituição. Hoje, guarda a porta de uma casa para que um avô doente não abrace os netos.
A conta
E aí fica a pergunta que resume tudo. Que país é esse, onde o batom de uma mulher vale catorze anos de cadeia e a caneta de um ministro parece valer mais que a Constituição inteira?
Podem trancar a porta. Podem vetar as visitas. Podem até tentar calar um homem até outubro. Mas existe uma coisa que canetada nenhuma alcança: a consciência de um povo que está vendo tudo isso acontecer. E que não esquece.
Não vamos esquecer. A conta chega. E ela pode começar a chegar em outubro, na urna, do jeito mais civilizado e mais poderoso que existe numa democracia. Como em 2018. O povo, pelo povo, dentro das regras, decidindo o próprio destino.
Depende de você. Depende do seu voto e do seu esforço.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, D.H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



