Intercept queria se vingar de Bolsonaro
Disputa por contrato de WiFi em São Paulo vira pano de fundo de guerra política envolvendo Intercept, ONG e filme sobre Bolsonaro
SÃO PAULO, 17 de maio de 2026 — Uma disputa empresarial envolvendo o programa WiFi Livre SP, da Prefeitura de São Paulo, tornou-se o pano de fundo de uma crise política e midiática que agora alcança o Ministério Público, o Supremo Tribunal Federal (STF), o site Intercept Brasil e o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A controvérsia gira em torno do Instituto Conhecer Brasil, presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama, que venceu um edital municipal em 2024 para expandir pontos de internet gratuita em comunidades vulneráveis da capital paulista.
O programa WiFi Livre SP previa inicialmente a instalação de 5 mil pontos de conectividade em regiões periféricas, com orçamento estimado em R$ 108 milhões. Posteriormente, devido a restrições orçamentárias da prefeitura, a meta foi reduzida para 3,2 mil pontos e o valor do contrato caiu para R$ 69,2 milhões.
Antes da entrada da ONG no projeto, o ecossistema do programa era dominado por empresas privadas de telecomunicações, entre elas a Surf Telecom. A operadora, segundo a reportagem, acabou rejeitada no edital após apontamentos do Tribunal de Contas do Município (TCM).
Com a abertura do edital para entidades do terceiro setor, o Instituto Conhecer Brasil venceu a concorrência e terceirizou parte da execução técnica para empresas especializadas, incluindo a Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda., responsável por instalação e suporte de links de internet em comunidades atendidas pelo programa.
A disputa ganhou contornos criminais após a ONG registrar acusações contra a Ultra IP em investigação conduzida pelo 78º Distrito Policial dos Jardins, em São Paulo. De acordo com documentos citados pela Oeste, o instituto afirmou que a empresa interrompeu cerca de 800 links de internet em áreas vulneráveis e apresentou “reiterados descumprimentos” contratuais.
Karina Ferreira da Gama também relatou à Polícia Civil uma suposta tentativa de extorsão envolvendo cobrança de aproximadamente R$ 2,5 milhões. Segundo o inquérito citado pela reportagem, ela alegou ter sofrido “pressões indiretas”, ameaças de exposição midiática e divulgação de informações internas do instituto caso o valor não fosse pago.
O caso ganhou dimensão política depois que o Intercept Brasil publicou reportagens relacionando o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse. Um dos autores das reportagens é o jornalista Paulo Motoryn, editor do Intercept Brasil e parente de Mauro Motoryn, atual diretor de desenvolvimento da Surf Telecom.
A reportagem afirma que Mauro Motoryn possui longa trajetória nos setores de publicidade institucional, telecomunicações e comunicação política em Brasília, tendo atuado em ambientes ligados ao escândalo do Mensalão e posteriormente em estruturas dos governos petistas.
Nos últimos anos, Mauro passou a atuar diretamente no setor de telecomunicações e hoje ocupa posição estratégica na Surf Telecom, empresa ligada a projetos de conectividade social e expansão de internet em regiões periféricas.
Até o momento, não há decisão judicial que comprove ilegalidades por parte do Intercept Brasil, da Surf Telecom ou dos envolvidos citados na reportagem. As alegações mencionadas fazem parte de uma disputa empresarial, política e contratual ainda em apuração pelas autoridades competentes.



