ORLANDO, 21 de outubro de 2026 — Faltam quatro dias para o segundo turno, e há ministros do Supremo Tribunal Federal acompanhando a eleição de coração apertado. A coluna de Bela Megale, no O Globo, descreve a expectativa no tribunal de uma virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro. Ministro que conta votos de candidato não age como árbitro, age como interessado. Por que juízes que não disputam voto nenhum têm tanto a perder com o resultado de uma urna?
O eleitor já tem a resposta, e ela está no Datafolha: 43% dos brasileiros dizem não confiar na Corte, a pior marca da série, iniciada em 2012. Em dezembro de 2024 eram 38%. Os que confiam muito somam apenas 16%. A pesquisa, feita de 3 a 5 de março com 2.004 entrevistados, perguntou também o que o povo espera de um juiz. Para 79%, ministro não deve julgar causa de cliente de parente. Para 78%, não deve ser sócio de empresa. Para 76%, não deve receber para dar palestra em instituição privada. Não é pauta de partido. É o bom senso de um povo que sabe que juiz não pode ser parte.
Agora olhe o que o Brasil descobriu desde dezembro. A colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, revelou que o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, tinha contrato de R$ 129 milhões em três anos com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, com parcelas mensais de R$ 3,6 milhões a partir de 2024. A Polícia Federal achou uma cópia do contrato no celular do banqueiro. O contrato não se ligava a um processo específico. Que serviço vale R$ 129 milhões? Até hoje, nem o ministro nem a esposa detalharam o acordo ao público.
E não é só Moraes. O ex-senador Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar Mendes, aparece em mensagens extraídas pela PF do celular de Vorcaro com pagamento combinado de R$ 500 mil por mês, mais R$ 800 mil na primeira parcela, entre abril e novembro de 2024. As mesmas mensagens o mostram tratando com o banqueiro de processos que corriam no STF, um deles relatado por Gilmar, e uma reunião de advogados do Master no gabinete do ministro, em abril de 2024. Gilmar diz que nada sabia e que votou contra interesses do Master. Feitosa fala em consultoria curta e idônea. Os dois negam irregularidade. O eleitor, porém, tem o direito de perguntar como um tribunal chega a esse ponto.
E tem Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso Master em 12 de fevereiro, depois de reunião dos ministros com o presidente da Corte, Edson Fachin. Segundo a PF, a perícia no celular de Vorcaro encontrou mensagens com Toffoli e referências a supostos pagamentos ligados à venda do resort Tayayá, no Paraná. Uma empresa em nome dos irmãos do ministro teve pouco mais de 30% do empreendimento até 2025. Toffoli nega relação com Vorcaro e não foi denunciado por nada disso.
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, disse em 15 de setembro que o governo “decidiu governar ao lado de uma parte do STF que descumpriu a lei” e que o sistema está “apodrecido”. É crítica política legítima de quem disputa o voto, e descreve o que o eleitor enxerga: um governo que se escora num tribunal que age como ator político.
Repare também no que a rede Globo escolhe tratar como notícia. O mesmo grupo que publicou o contrato de R$ 129 milhões agora conta, como quem comenta um jogo, o nervosismo da ala de Moraes com o resultado. O tema não deveria ser o medo dos ministros, e sim a pergunta que o eleitor faz há meses: por que ainda não houve explicação? A cobertura que dá voz ao bastidor e pouca voz à cobrança ajuda a blindar quem deveria estar prestando contas.
E note o contraste. Os ministros da ala de Moraes dão entrevista sobre urna, sobre democracia, sobre respeito ao resultado, como Toffoli fez a jornalistas no dia do primeiro turno. Sobre o contrato de R$ 129 milhões, sobre o ex-cunhado pago por Vorcaro, sobre o resort Tayayá, o silêncio é de igreja. Falam de eleição porque podem. Não explicam porque não querem.
Cada episódio soma-se ao outro, e os envolvidos, por mais incrível que pareça, negam irregularidade. Juntos, formam o retrato que o Datafolha registrou: a Corte que quer ser árbitro tem ministro que deixa relatoria sob suspeita, nota coletiva no lugar de explicação e o eleitor sem resposta. Confiança não se decreta com nota de imprensa. Constrói-se com regra.
E regra é o que a direita propõe. Defender um Supremo forte não é defender um Supremo sem limites. É defender um tribunal que cumpra a Constituição, com regras claras de impedimento e suspeição, sem brecha para o ministro decidir sozinho se pode julgar caso que toca a família ou os negócios dele, e com transparência sobre contratos de parentes, palestras e sociedades.
Pense no que isso muda na sua vida. O Supremo decide sobre liberdade de expressão, propriedade e quem pode disputar uma eleição. Se quem decide está sob suspeita de interesse próprio, o seu direito deixa de ser garantia e vira favor.
Faltam quatro dias. Há pesquisa, há contrato de R$ 129 milhões, há perícia da PF. Falta o que o brasileiro pede há anos: que o Supremo preste contas como qualquer instituição pública. Até lá, a desconfiança de 43% não é opinião, é diagnóstico. Quantos pontos mais a Corte pretende perder até entender?
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Enquanto não atacarmos o mal pela raiz, não resolveremos este e outros problemas.
É preciso, primeiro separar Estado de Governo, definir mecanismos de saída, não apenas de entrada para servidores públicos. Pouco importa se vai ficar 5, 10 ou 20 anos. O servidor precisa saber que, se ele não cumprir com sua função de forma honesta, vai para a rua. E este poder deve estar nas mãos do povo, nos moldes de como já acontece nos EUA.
E não é só isso, também precisamos de voto distrital puro, vouchers ao invés de escolas e hospitais públicos etc. O Estado deveria ser proibido, pela Constituição de investir em propaganda nas mídias se as quisermos independentes.
Como podemos achar normal as pessoas julgarem a si mesmas e aos seus? E pior: dizer, publicamente que devem seguir os princípios da Omertà?
O escândalo da vez faz com que o anterior entre na espiral de silêncio e isso acontece desde que eu me entendo por gente. Tudo isso por causa de um motivo: IMPUNIDADE.
É preciso uma faxina enorme para que possamos começar as verdadeiras reformas que o país precisa.
O STF