Justiça censura TV Record e proíbe exibir entrevista de Cabrini e ex-marido de Maria da Penha é preso
Marco Antônio Heredia Viveros concedeu entrevista ao Domingo Espetacular, mas reportagem foi proibida de ir ao ar por decisão judicial; prisão preventiva foi cumprida neste domingo
SÃO PAULO, 10 de agosto de 2026 — A Justiça brasileira impediu a Record de exibir uma entrevista de Roberto Cabrini com Marco Antônio Heredia Viveros, ex-marido de Maria da Penha, prevista para o Domingo Espetacular deste domingo (9). Horas depois da repercussão em torno da reportagem, Heredia foi preso preventivamente em Natal, no Rio Grande do Norte.
A decisão judicial determinou que a emissora não exibisse a entrevista em suas plataformas e estabeleceu multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento. A ordem também alcançou conteúdos relacionados à reportagem.
Na prática, a decisão impediu que uma reportagem já produzida por um dos principais programas jornalísticos da televisão brasileira chegasse ao público — uma censura prévia, isto é, a intervenção do Estado antes da publicação de determinado conteúdo.
A Constituição de 1988 estabelece, em seu artigo 220, que “é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” e determina que nenhuma lei pode constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística.
Heredia concedeu a Cabrini sua versão sobre o caso que deu origem à Lei Maria da Penha e contestado pontos da narrativa consolidada sobre os crimes pelos quais foi condenado. O conteúdo integral da entrevista, porém, não pôde ser conhecido pelo público justamente porque sua transmissão foi proibida.
Segundo o Ministério Público do Ceará, a prisão não foi decretada simplesmente pela concessão de uma entrevista. Heredia estaria submetido desde 2024 a medidas judiciais que o proibiam de divulgar informações sobre o processo e de expor Maria da Penha e suas filhas. Para o MP, a entrevista e sua divulgação constituíram descumprimento dessas determinações.
A prisão preventiva foi decretada no sábado (8) e cumprida no último domingo no Rio Grande do Norte.
O caso, portanto, envolve duas questões distintas: a eventual violação, por Heredia, de uma ordem judicial que já estava em vigor e a decisão de impedir antecipadamente que a Record, uma empresa jornalística que não é parte dos fatos ocorridos décadas atrás, leve ao público uma reportagem produzida por Cabrini.
Independentemente das acusações contra Heredia ou da controvérsia histórica envolvendo o caso Maria da Penha, a proibição de uma reportagem antes de sua publicação levanta o questionamento: até onde uma decisão judicial pode avançar sobre o conteúdo produzido pela imprensa antes mesmo que o cidadão tenha a possibilidade de conhecê-lo?
A entrevista permanece fora do ar. Também está fora do ar o artigo 220 da Constituição do Brasil.



