"Lula colocou seu ego à frente", diz Marco Rubio acerca das novas tarifas
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpa Lula pelo novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros anunciada ontem de noite pelo Escritório do Representante do Comércio dos EUA
WASHINGTON, 16 de julho de 2026 — A nota do Planalto tem razão em um ponto: o dia 15 de julho de 2026 é mesmo um marco. Só errou o assunto. O tarifaço de 25% não é o capítulo final de uma disputa comercial entre Brasília e Washington — é a primeira fatura de uma escolha geopolítica que o Brasil fez há anos, executou com entusiasmo e agora finge não ter feito. O governo brasileiro passou a década se mudando, cômodo por cômodo, para a órbita de Pequim. E se espanta, com indignação de duas casas decimais, quando o antigo senhorio manda a conta.
Releia a nota oficial com essa lente e ela vira outra coisa. “Não reconhecemos a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio” — diz o país que negocia em yuan, que transformou os BRICS em plataforma de contestação à ordem que agora invoca, e cujo presidente pergunta em público por que o mundo precisa comerciar em dólar. O multilateralismo do Itamaraty é um santo de conveniência: reza-se para ele quando a tarifa vem do Ocidente; guarda-se na gaveta quando o assunto é o parceiro que compra um terço das nossas exportações e não assina relatório de direitos humanos.
Porque é disso que se trata. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, graças ao PT, e o que o Brasil vende a ela é o retrato de uma rendição: soja, minério, petróleo. Commodities. O país que sonhou ser potência industrial aceitou, sem plebiscito e sem nota à imprensa, o papel de fazenda e mina de uma potência industrial comunista. Chama-se a isso reprimarização, e nenhum governo teve a coragem de tratá-la como o projeto de dependência que é, exceto Bolsonaro. Quando os Estados Unidos eram o centro da nossa pauta, essa dependência tinha nome feio nos manuais da esquerda: imperialismo, troca desigual, deterioração dos termos. Com a China, a mesma aritmética virou “parceria estratégica”. A teoria mudou de endereço junto com os navios.
E a seletividade da indignação é obscena. A nota presidencial promete proteger “nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas” — os americanos, entenda-se. Dos outros, nem uma vírgula. A Huawei segue soldada à infraestrutura de telecomunicações nacional sem que a palavra “soberania” seja pronunciada. A chinesa State Grid opera fatias generosas da transmissão elétrica brasileira — o sistema nervoso do país — em silêncio monástico. E quando fiscais do próprio governo brasileiro resgataram operários em condições análogas à escravidão nas obras da montadora chinesa na Bahia, o episódio foi administrado com a discrição que se reserva aos sócios majoritários. Tecno-oligarca, aprende-se, é conceito com passaporte: existe em inglês, não em mandarim.
O mesmo vale para o comércio. Quando a indústria chinesa despejou aço e manufaturados subsidiados no mercado brasileiro, asfixiando o que restava do parque fabril nacional, a reação de Brasília foi um pedido de desculpas com alíquota: medidas tímidas, negociadas em sussurro, para não melindrar Pequim. Contra Washington, megafone, nota histórica, Lei de Reciprocidade e OMC no mesmo parágrafo. A assimetria não é diplomacia, mas hierarquia. O Brasil já sabe quem não pode contrariar — e não é o país com quem tem a briga pública.
Cada uma das seis acusações do USTR aponta para o mesmo incômodo: um Brasil que constrói campeões estatais no padrão chinês, que fecha mercados por decisão unilateral (o etanol, sobre o qual a nota brasileira mantém um silêncio de cemitério, porque não há defesa), que dá a México e Índia o que nega aos americanos, e que trata propriedade intelectual com o desdém de quem está na mesma lista de observação há 15 anos — Lula, Dilma, Temer, uma pausa de 4 anos com Bolsonaro, Lula de novo, todos reincidentes e nenhum constrangido. Washington não inventou o alvo.
Até o dossiê ambiental, que a nota despacha como “absurdo”, merece leitura menos preguiçosa. O dado americano — 91% do desmatamento amazônico recente foi ilegal — não foi respondido com outro dado; foi respondido com um adjetivo. E a pergunta que ninguém em Brasília quer fazer é: ilegal a serviço de qual demanda? A soja e a carne que avançam sobre a floresta não embarcam para Miami. O maior comprador do agro chinês que pressiona a Amazônia é o mesmo parceiro estratégico que o Brasil protege de qualquer crítica. O governo que se diz guardião da floresta financia a guarda vendendo, ao principal vetor econômico do desmatamento, tudo o que ele pede — e ainda cobra aplauso pela contradição.
No fim, a nota do Planalto acusa a família Bolsonaro de conspirar contra o país “por objetivos eleitoreiros”, numa nota oficial que é, ela própria, uma peça eleitoral com timbre da República. Lula transformou a sanção em palanque no mesmo dia, enquanto entrega a economia nacional, porteira fechada, ao rival estratégico de quem o sanciona.
O tarifaço americano é bruto. É a primeira vez em uma década que alguém apresenta ao Brasil o preço da sua própria política externa. O país pode responder com reciprocidade, com OMC, com notas históricas. O que não pode é responder com surpresa. Proxy que se preza sabe que, mais cedo ou mais tarde, a guerra dos outros chega em casa.
Trump ganha a manchete de punir a censura internacional; Lula ganha o palanque da soberania ultrajada e ainda encaixa, na nota oficial da Presidência da República, um parágrafo inteiro de campanha contra a “família Bolsonaro” — provando que a acusação de “objetivos eleitoreiros” é daquelas que se faz olhando no espelho.





