Lula teme efeito de Flávio em decisão dos EUA contra PCC e CV
Planalto avalia que visita de Flávio Bolsonaro a Donald Trump acelerou classificação das facções como organizações terroristas e aumenta preocupação com impactos no sistema financeiro brasileiro
BRASÍLIA, 29 de maio de 2026 — Lula passou a tratar como crise diplomática a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Nos bastidores do Palácio do Planalto, integrantes do governo avaliam que a medida ganhou força após a aproximação entre Flávio Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump.
Segundo relatos de integrantes do governo, a visita recente de Flávio aos Estados Unidos e as conversas com aliados da Casa Branca ajudaram a impulsionar o avanço da medida dentro do governo americano. A avaliação é de que o tema passou a ser tratado diretamente como pauta política e estratégica da administração Trump.
A preocupação cresceu após investigadores americanos indicarem que o PCC construiu uma ampla estrutura de lavagem de dinheiro envolvendo fintechs, postos de combustíveis, empresas de fachada e operações financeiras espalhadas pelo sistema bancário brasileiro.
Dentro do governo Lula, existe receio de que bancos e instituições financeiras do país possam acabar atingidos indiretamente por futuras sanções americanas caso recursos ligados às facções tenham circulado pelo sistema financeiro nacional.
A apreensão aumentou após declarações do promotor Lincoln Gakiya, um dos principais investigadores do PCC no Brasil. Segundo ele, a nova classificação pode abrir espaço para punições internacionais até contra instituições que não tenham relação direta com integrantes das facções, mas que tenham participado da cadeia financeira utilizada para ocultação de recursos ilícitos.
O caso ganhou dimensão ainda maior porque o governo Trump passou a enquadrar o narcotráfico como questão de segurança nacional. Com isso, organizações antes tratadas como grupos criminosos passam agora a integrar a estrutura global de combate ao terrorismo conduzida pelos Estados Unidos.
Na prática, isso significa que o tema deixa de ficar apenas sob responsabilidade de agências policiais como FBI e DEA e passa também para estruturas militares e de inteligência, incluindo a CIA.
Nos bastidores do Planalto, auxiliares de Lula avaliam que a decisão americana pode criar um ambiente de forte pressão internacional sobre o Brasil, especialmente em áreas ligadas ao controle financeiro, movimentação bancária e fiscalização de operações suspeitas.
Há ainda preocupação com o impacto diplomático da medida. O governo brasileiro tentou evitar a classificação das facções como organizações terroristas justamente por enxergar risco de ampliação da influência americana sobre temas internos de segurança pública.
Outro ponto que gera desconforto no governo é o fato de o anúncio ocorrer poucos dias após Flávio Bolsonaro intensificar contatos com integrantes do governo Trump. Para aliados de Lula, a oposição tenta usar a crise da segurança pública para aproximar o Brasil da agenda internacional da Casa Branca.
O governo americano, por sua vez, afirma que a medida faz parte de uma estratégia global de combate ao chamado “narcoterrorismo”. Washington sustenta que PCC e Comando Vermelho já operam além das fronteiras brasileiras e representam ameaça internacional ligada ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e expansão do crime organizado na América Latina.
A decisão também reforça a nova política externa de Trump para o continente. Documentos divulgados pela Casa Branca nos últimos meses apontam intenção de ampliar a presença militar e estratégica dos Estados Unidos na América Latina, especialmente em operações ligadas ao combate a cartéis e facções criminosas.
Dentro do governo Lula, a avaliação é de que o Brasil entra agora em um cenário delicado, no qual o combate ao crime organizado passa a ter repercussões econômicas, diplomáticas e até geopolíticas.



