Quarto artigo da série “ESTRATÉGIA SENADO” com a missão Minas Gerais.
RIO DE JANEIRO, 22 de agosto de 2026 — Aos 12 anos, ele já trabalhava. A família tinha saído de São Tiago, no Campo das Vertentes, e ido tentar a vida em Belo Horizonte quando o menino tinha dez. Escola pública durante todo o percurso, sem exceção e sem atalho.
Desse começo saiu um veterinário formado pela UFMG, líder estudantil, que fez as malas outra vez e foi para Divinópolis exercer a profissão e criar os filhos.
O nome dele é Domingos Sávio. Antes de qualquer palanque veio trabalho de base: presidência da Cooperativa Agropecuária de Divinópolis, da Cooperativa de Crédito Rural e do Sindicato Rural da cidade. Cooperativismo é escola política dura, porque ali ninguém aplaude discurso. Ou a prestação de contas fecha, ou o produtor vai embora.
A escada, degrau por degrau
Em 1992, os divinopolitanos o elegeram vereador. Os colegas o escolheram presidente da Câmara Municipal.
Em 1996, prefeito de Divinópolis. Cumpriu o mandato inteiro.
Em 2002, deputado estadual. Reeleito. Oito anos na Assembleia de Minas, onde chegou a liderar a maioria. Cumpriu os dois mandatos inteiros.
Desde 2011, deputado federal por Minas Gerais, reeleito sucessivamente, com passagem pela liderança da Minoria na Câmara. Quinze anos de Brasília.
A base dele está no Centro-Oeste mineiro, no Campo das Vertentes e na região Central: Divinópolis, Bom Despacho, Nova Serrana, Oliveira, Pitangui, São João del-Rei. É o Brasil que produz, emprega e paga imposto, e que raramente tem alguém sentado à mesa quando as decisões são tomadas.
Hoje ele é o nome único apontado por Flávio Bolsonaro para o Senado em Minas. Único, e a palavra importa: a direita mineira já perdeu vaga demais dispersando voto entre candidaturas que se anulavam. Um nome só, com quinze anos de Câmara e trânsito no agronegócio, no cooperativismo e nas prefeituras do interior, é a diferença entre reclamar do Senado e ocupar o Senado.
Agora olhe quem está do outro lado
A petista Marília Campos foi reeleita prefeita de Contagem em 2024 e tomou posse em janeiro de 2025 para um mandato de quatro anos. Em 26 de março de 2026, renunciou. Menos de quinze meses depois de receber a faixa, entregou a cidade ao vice e foi disputar o Senado.
O que ficou para trás em Contagem
Contagem é a terceira maior cidade de Minas. Quem votou lá em 2024 escolheu quatro anos de gestão e recebeu quinze meses, com o resto entregue a um vice que ninguém elegeu prefeito. E o que ficou para trás não é vitrine.
No bolso do contribuinte, o corte na isenção do IPTU fez com que mais 45 mil contagenses passassem a pagar o imposto. É o clássico do modelo: discurso social na tribuna, conta na caixa postal.
Na fiscalização, o Ministério Público de Minas Gerais recomendou em fevereiro deste ano a suspensão imediata de um contrato firmado pela prefeitura com uma organização da sociedade civil que leva o nome da avó de um vereador, líder do governo dela na própria Câmara. Reportagens do período apontaram ainda a cessão de um imóvel municipal de 360 metros quadrados a uma associação ligada ao vice-prefeito.
Em outubro de 2024, uma operação do MPMG mirou empresa contratada pela prefeitura a partir de uma ata de registro de preços de R$ 20 milhões para compra de telas eletrônicas com tecnologia educacional. Segundo o Ministério Público, a empresa não tinha estoque, apresentava irregularidades contábeis e teve atestados de capacidade técnica com incorreções que a favoreceram no certame. A prefeitura alegou não ter havido prejuízo e informou ter suspendido os contratos.
Some a isso o que qualquer morador conhece: fila na saúde, transporte coletivo precário e mobilidade travada.
Esse é o currículo administrativo que agora se apresenta como solução para Minas Gerais. E há um detalhe que não é secundário: Marília é a candidata prioritária de Lula no estado. Ninguém precisa adivinhar como esse voto será usado no plenário. Ele já vem carimbado de Brasília.
Minas não é ingênua
O eleitor mineiro tem fama merecida de desconfiado. Desconfiança, aqui, é virtude cívica.
De um lado da cédula, há uma candidata que abandonou a prefeitura no primeiro terço do mandato, admitiu que a candidatura nasceu como jogada interna de partido, aumentou a conta de IPTU de 45 mil famílias e deixou para trás recomendações do Ministério Público sobre contratos da própria gestão.
Do outro lado, há um homem que começou trabalhando aos 12 anos, estudou em escola pública, presidiu cooperativa, foi vereador, presidiu a Câmara da própria cidade, foi prefeito, foi deputado estadual por oito anos, é deputado federal há quinze e nunca largou nenhum desses mandatos pela metade.
Minas elege dois senadores em 4 de outubro, para oito anos de mandato. Saber em quem votar e em quem não votar é fundamental.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



