Moraes acelera projeto de controle das redes às vésperas da eleição
Enquanto o governo fala em regulação, todos sabem que os brasileiros estão perdendo cada vez mais liberdade para se expressar nas redes
LISBOA, 1• de junho de 2026 — A poucos meses da eleição presidencial, Moraes voltou a defender a regulamentação das redes sociais. Oficialmente, o discurso é o mesmo de sempre: combater a desinformação, proteger a democracia e limitar o poder das Big Techs.
Mas a essa altura dos acontecimentos, poucos brasileiros ainda acreditam que essa discussão seja apenas sobre tecnologia.
O que está em jogo é poder.
Poder para definir quem pode falar. Poder para determinar quais narrativas são aceitáveis. Poder para decidir quais opiniões permanecerão visíveis e quais serão empurradas para a invisibilidade digital.
Durante anos, o establishment político brasileiro tratou as redes sociais como um problema a ser resolvido. Não porque elas ameaçam a democracia, mas porque romperam o monopólio da informação que durante décadas esteve concentrado nas mãos de governos, grandes veículos de comunicação e grupos políticos tradicionais.
Foi justamente nesse ambiente sem intermediários que surgiram movimentos políticos capazes de desafiar as estruturas de poder consolidadas em Brasília.
Não é coincidência que a pressão por controle tenha aumentado exatamente depois disso.
No XIV Fórum de Lisboa (01 a 03 de junho), Moraes repetiu a tese de que algoritmos manipulam opiniões e que as plataformas acumulam poder excessivo. O argumento pode até ter fundamento em alguns aspectos. O problema é que a solução apresentada sempre aponta na mesma direção: mais intervenção estatal, mais fiscalização, mais controle e menos liberdade para plataformas e usuários.
O histórico recente ajuda a entender por que tanta gente olha para esse discurso com desconfiança.
Nos últimos anos, o país assistiu a bloqueios de perfis, remoções de conteúdos, ordens sigilosas e investigações que frequentemente atingiram setores da oposição, jornalistas independentes, influenciadores conservadores e críticos do sistema político. Ainda que cada caso tenha suas justificativas específicas, o resultado acumulado foi a percepção de que os limites do debate público passaram a ser definidos por um número cada vez menor de autoridades.
É nesse contexto que surge a pergunta inevitável: quem fiscalizará os fiscalizadores?
A Constituição entregou ao Congresso a responsabilidade de legislar. Ainda assim, temas centrais da vida nacional vêm sendo progressivamente deslocados para dentro dos tribunais. O Supremo deixou de ser apenas intérprete das leis e passou a ocupar um espaço cada vez maior na definição de regras que afetam diretamente o debate político.
A situação se torna ainda mais delicada quando essa expansão de poder coincide com um período eleitoral.
Nenhuma democracia madura deveria encarar com naturalidade a concentração simultânea de influência nas mãos do governo, de órgãos reguladores e de setores do Judiciário sobre os mecanismos que controlam a circulação de informação.
A defesa da regulação costuma ser apresentada como uma luta contra abusos das Big Techs. Mas para milhões de brasileiros a preocupação é outra: que, em nome do combate à desinformação, seja criado um sistema capaz de controlar o que pode ser dito, compartilhado e debatido justamente no momento em que a população precisa ter acesso ao máximo de informação possível para escolher seus governantes.
A questão central não é tecnológica, é política.
E a pergunta que paira sobre 2026 continua sem resposta: quem decide o que é informação legítima? Os cidadãos ou as “autoridades” que pretendem regulá-los?



