WASHINGTON DC, 15 de outubro de 2026 — Na noite de quarta-feira, em Washington, Eduardo Bolsonaro resumiu numa frase o dilema de quem foi condenado por ter conversado com autoridades americanas: “Não vou puxar cadeia sendo inocente”. Na mesma noite, o presidente argentino Javier Milei, a poucos metros dele, declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno. Duas cenas, uma só pergunta: o que a eleição de domingo vai decidir sobre o poder de um ministro do Supremo?
Vamos aos fatos. Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Foi condenado a 4 anos e 2 meses por coação no curso do processo, e a condenação transitou em julgado no início de outubro. Na semana passada, Alexandre de Moraes mandou expedir o mandado de prisão e cancelar os passaportes brasileiros dele. Eduardo disse que só volta se a pena for extinta.
Pare um instante no motivo da condenação. Um parlamentar, no exercício do mandato, falou com autoridades de outro país sobre sanções a ministros do STF. Pode-se discordar da estratégia, mas é opinião e atuação política. Quando conversar vira crime, a pergunta deixa de ser sobre Eduardo e passa a ser sobre o que qualquer deputado ainda pode dizer sem medo.
Pense num condomínio em que o síndico abre a apuração da reclamação, conduz o caso, aplica a multa e ainda decide se o morador pode recorrer. Ninguém discute que o síndico tenha poderes, mas todo condômino entende o problema de juntar tudo na mesma mão. É essa a sensação que milhões de brasileiros têm quando veem o mesmo ministro conduzir investigação, decretar medidas e mandar prender. Eduardo foi claro: a questão com Moraes, disse ele, passou a ser pessoal. E o eleitor tem o direito de querer saber se um poder assim cabe numa democracia.
No condomínio, quem fiscaliza o síndico não é o próprio síndico: é a assembleia. Com o Supremo, a lógica é parecida, e foi nela que Eduardo mexeu ao afirmar que Moraes não ficará no tribunal se Flávio vencer. Dito assim, parece promessa de campanha. Na prática, existe um caminho institucional, e vale explicá-lo sem pressa. Ministro do STF não é demitido pelo presidente da República. O afastamento depende do Senado, que julga pedidos por crime de responsabilidade, e a condenação exige dois terços dos senadores. Isso significa que a eleição que importa não é só a do Planalto: é a que renova o Senado, a assembleia que define quem vai sentar para decidir.
Por isso o tema entrou de vez na campanha, e entrou com legitimidade. O eleitor não vota apenas em um presidente. Vota na ideia de que nenhuma autoridade, de toga ou de farda, está acima do limite que a Constituição desenhou. Querer discutir esse limite não é ataque à instituição. É o que se espera de uma democracia adulta.
Há ainda o recado de fora. Milei chamou Lula de ditador comunista e disse que Flávio se imporá diante dele nos próximos dias. Pode-se gostar ou não do tom, mas o fato é político: a direita das Américas acompanha a eleição brasileira e se enxerga nela. A Argentina de Milei saiu do ciclo que a empobreceu, e o presidente argentino sabe o que está em jogo quando um país escolhe entre o aparelhamento e a liberdade.
Outro ponto que a imprensa tradicional prefere tratar como rumor: Eduardo disse que o PL recusou uma proposta de acordo atribuída a Moraes, e o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, também descartou publicamente qualquer entendimento. Se o ministro buscou um acordo com quem diz perseguir, isso diz muito sobre quem está com a bola nas mãos a poucos dias do voto.
Aliados de Flávio discutem ainda uma anistia a condenados ligados ao bolsonarismo se ele for eleito, e o nome de Eduardo circula para o Itamaraty, sem confirmação. São conversas, e como tal devem ser tratadas. O que está confirmado é o essencial: um deputado foi condenado por sua atuação política, está fora do país, e a campanha agora gira em torno de quanto poder um ministro pode acumular.
A pergunta que fica para domingo é simples. Quem decide o limite do Supremo: o próprio Supremo ou o voto de quem paga a conta da democracia? Eu sei em que lado da resposta quero estar.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Parabéns!
Excelente observação! Juntos por um Brasil justo que respeita sua Constituição Federal.