Mulher de desembargador sob suspeita
Investigação aponta pagamentos em dinheiro vivo em obra milionária ligada à família do desembargador que autorizou a soltura de um dos principais líderes do PCC
MATO GROSSO DO SUL, 26 de maio de 2026 — Novos desdobramentos das investigações envolvendo o desembargador Divoncir Schreiner Maran lançaram luz sobre uma obra milionária realizada pela família do magistrado em um condomínio de alto padrão de Campo Grande. Relatórios da Polícia Federal e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam indícios de pagamentos em dinheiro vivo durante a construção de uma mansão avaliada em mais de R$ 2 milhões.
Segundo os documentos analisados pelas autoridades, a esposa do magistrado, Viviane Alves Gomes de Paula, teria coordenado pagamentos diretamente a fornecedores e prestadores de serviços utilizando grandes quantias em espécie. As movimentações passaram a ser examinadas no contexto das investigações que apuram possíveis irregularidades relacionadas à decisão judicial que colocou em prisão domiciliar o traficante Gerson Palermo, apontado como uma das principais lideranças do PCC.
De acordo com os investigadores, o terreno onde a residência foi construída foi adquirido pelo casal em 2020. A obra teve início no ano seguinte, período que coincide com o momento posterior à decisão que permitiu a saída de Palermo do presídio federal de segurança máxima em Campo Grande.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal revelariam negociações em que Viviane demonstrava preferência por pagamentos em espécie, evitando métodos tradicionais de transferência financeira. Em algumas conversas, ela relata possuir valores em dinheiro para quitar compromissos diretamente com arquitetos, fornecedores e prestadores de serviços.
Os investigadores também destacam contratos relacionados à aquisição de móveis planejados e materiais de construção de alto valor. Em um dos episódios citados nos relatórios, a esposa do magistrado teria buscado descontos para pagamentos realizados exclusivamente em dinheiro. Em outro, fornecedores demonstraram surpresa diante da proposta de receber grandes quantias em espécie, observando que a prática não fazia parte dos procedimentos habituais das empresas.
Para a Polícia Federal, o principal ponto de preocupação é a origem dos recursos utilizados nos pagamentos. Segundo os relatórios, até o momento não foi possível identificar de forma conclusiva a procedência de parte do dinheiro movimentado durante a construção da residência.
O caso ganhou ainda mais repercussão após a prisão de Gerson Palermo na Bolívia nesta semana. O criminoso permaneceu foragido por cerca de seis anos após romper a tornozeleira eletrônica poucas horas depois de obter prisão domiciliar por decisão de Divoncir Maran. O episódio levou o Conselho Nacional de Justiça a abrir investigação disciplinar contra o desembargador, que acabou sendo punido com aposentadoria compulsória.
A defesa de Divoncir Maran e de sua esposa afirma que não houve qualquer irregularidade na construção do imóvel ou na origem dos recursos utilizados. Os advogados sustentam que todas as movimentações financeiras possuem justificativa legal e que o casal colaborará com as autoridades para esclarecer os fatos.
Enquanto as investigações avançam, o caso se transforma em mais um capítulo de uma apuração que mistura decisões judiciais controversas, suspeitas de movimentações financeiras atípicas e um dos maiores nomes do crime organizado brasileiro.



