RIO DE JANEIRO, 17 de setembro de 2026 — Você desliza o dedo pela tela e a manchete passa de relance: “Flávio Dino proíbe a Polícia Federal de investigar André Mendonça.” Meio segundo de leitura, talvez menos. E, sem perceber, você já escolheu um dos dois caminhos.
O primeiro é o caminho gentil. Que colega solidário. Dino protegeu Mendonça de um constrangimento.
O segundo é o caminho que interessa. Espera aí: por que a Polícia Federal estaria investigando um ministro do Supremo?Pronto. Ninguém acusou ninguém de nada. E a suspeita já está de pé, andando sozinha pela sua cabeça.
Vamos aos fatos, que são poucos e simples. Dino determinou nesta quinta-feira que a Polícia Federal e a CVM investiguem a suposta relação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com as concessionárias que administram o serviço funerário de São Paulo, depois que reportagens revelaram um encontro entre Vorcaro e André Mendonça em março de 2025. Na mesma decisão, ele escreveu que “é vedado qualquer ato investigativo que possa atingir o ministro André Mendonça”, porque isso compete ao presidente do STF.
Tecnicamente, está correto. Juridicamente, está correto. E é exatamente por isso que o detalhe importa.
Em 1917, Lênin escreveu um artigo curto chamado “Political Blackmail” (Chantagem política). A definição dele é cirúrgica: expor, ou ameaçar expor, histórias verdadeiras e mais frequentemente inventadas, com o objetivo de causar dano político ao adversário.
Cento e nove anos depois, o mecanismo continua intacto, e ele nunca precisou de uma acusação para funcionar. Precisa de três coisas apenas: um nome, uma palavra pesada ao lado desse nome, e um jornal para carregar os dois juntos até a mesa do café da manhã do país inteiro.
Agora preste atenção no que me chamou a atenção.
Dino não precisava fazer aquele alerta. A Polícia Federal sabe perfeitamente que não pode investigar um ministro do Supremo por conta própria, ignorando as regras de competência. Isso é o abecedário do processo penal brasileiro. Não é notícia, não é novidade, não é risco iminente.
Mas o nome foi escrito. Por extenso. André Mendonça.
Não houve acusação. Não houve denúncia. Não houve condenação. Houve apenas a proximidade tipográfica entre um nome e um conjunto de palavras: Polícia Federal, investigação, banqueiro preso, cemitérios, dinheiro. E quando a imprensa embrulha tudo isso numa manchete de seis palavras, o serviço está completo, e ninguém precisou sujar as mãos.
Eu já vi esse filme antes. Vimos esse mecanismo de associação rodar durante anos contra Bolsonaro, e contra tanta gente que nunca se sentou no banco dos réus, mas que passou a carregar uma dúvida permanente colada ao sobrenome. A dúvida é mais barata que a prova e dura muito mais tempo.
O ponto não é decidir aqui se Mendonça errou ou acertou ao receber quem recebeu. Isso será apurado, e deve ser apurado, e eu quero ver apurado. O ponto é entender como a sua opinião sobre ele foi formada antes de qualquer apuração existir.
Porque existe uma forma muito eficiente de destruir a reputação de um homem público, e ela não exige provas. Não é preciso dizer que ele é culpado.
Basta fazer o público se perguntar se ele é.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



