RIO DE JANEIRO, 17 de setembro de 2026 — No dia 31 de agosto, o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, foi direto com os jornalistas. Perguntado sobre o Bolsa Família em 2027, respondeu sem rodeio: “Não tem previsão de reajuste.”
O governo tinha acabado de mandar ao Congresso o Orçamento do ano que vem. Piso congelado em R$ 600. R$ 157,1 bilhões reservados para o programa, menos do que em 2026 e menos do que em 2025.
Dezessete dias depois, nesta quinta-feira, o mesmo ministro voltou aos microfones para anunciar exatamente o contrário. Reajuste de 15,04%. O piso sobe para R$ 691. O benefício médio vai de R$ 675 para R$ 777. Lula esteve presente, não discursou e depois foi ao X comemorar.
Faltam dezessete dias para o primeiro turno.
Quero deixar uma coisa clara antes de seguir. Não me incomoda que uma família pobre receba mais. Quem empurrou um carrinho de supermercado nos últimos três anos sabe que os R$ 600 de 2023 já não enchem o mesmo carrinho. O arroz subiu, o óleo subiu, a carne virou luxo. Os 15% são apenas a inflação acumulada desde março de 2023. É reposição. Chega a ser pouco.
O que me revolta é o calendário.
O dinheiro novo começa a cair na conta no dia 19 de outubro. Se houver segundo turno, ele será no dia 25. Seis dias depois.
Seis dias.
Agora eu faço as perguntas que o governo não respondeu.
Se o reajuste era necessário, e era, por que ele não estava no Orçamento enviado em 31 de agosto? A inflação de três anos não brotou em duas semanas. O INPC de agosto já era conhecido. Nada na conta do supermercado mudou entre uma segunda-feira de agosto e uma quinta-feira de setembro.
Mudou outra coisa. Mudaram as pesquisas. Os levantamentos mais recentes, por mais que ainda ache que são tendenciosos, mostram vantagem numérica de Flávio Bolsonaro já no primeiro turno e se dilata ainda mais num eventual segundo turno.
E tem um detalhe que diz muito sobre planejamento. O ministro afirmou que tudo cabe nas regras fiscais e que o relatório de avaliação das despesas sai no dia 24. Ou seja, a decisão de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22 bilhões em 2027 foi anunciada uma semana antes do documento que deveria sustentá-la. Primeiro o palanque, depois a planilha.
O mercado entendeu o recado na hora. A Bolsa abriu em alta e perdeu quase 3 mil pontos logo depois do anúncio. E quem acha que isso é problema de engravatado da Faria Lima esquece como a história termina. Desconfiança fiscal vira dólar alto. Dólar alto vira comida cara. E comida cara volta para o mesmo carrinho de supermercado que o reajuste prometia proteger.
O Bolsa Família atende mais de 19 milhões de famílias. É necessário. Justamente por isso não pode ser tratado como ferramenta de campanha, por governo nenhum.
Pobreza não é moeda eleitoral. Dinheiro público não pertence ao presidente. Política social séria se faz com planejamento, com transparência e com o reajuste escrito no Orçamento, não com uma decisão bilionária anunciada na porta da eleição e paga seis dias antes de um possível segundo turno.
Um governo confiante não precisa correr contra o relógio. Esse gesto tem cheiro de desespero.
No dia 4 de outubro, a resposta cabe na urna. Vamos varrer o PT já no primeiro turno. O povo brasileiro merece dignidade o ano inteiro, e não migalha com data marcada.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Rogerio minha diarista apoia Lula justamente por isso❗️😪 Esmola estatal❗️🤢🤮