ORLANDO, 20 de outubro de 2026 — No domingo, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancário e telefônico. Na segunda, em Porto Alegre, subiu o tom: escreveu num cartaz “abre o sigilo Flávio” e anunciou que entregaria hoje ao presidente do TSE a autorização para quebrar os seus e os dos cinco filhos. Alguns chamam de desespero. Eu concordo, mais acho que além disso, é mais uma cortina de fumaça.
Por quê? Porque o que se discute hoje não está na conta pessoal de Lula. O que corre o país é o relato atribuído a Daniel Vorcaro, publicado pela Veja: R$ 30 milhões em dinheiro vivo, por fora, ao Instituto Lula, para o documentário de Oliver Stone, em troca de acesso a fundos de pensão. Mensagens atribuídas a Vorcaro falam ainda numa operação de R$ 10 bilhões, com R$ 1 bilhão para o PT. A campanha de Lula nega tudo e chama o caso de peça eleitoral. Enquanto todos sabem que, se existiu esse repasse ilícito, jamais passaria pelo CPF do presidente. Não existe recibo para corrupção!
Dinheiro vivo pago a um instituto aparece no extrato do instituto, das produtoras do filme, de quem intermediou. Não aparece no extrato da pessoa física. Abrir o próprio sigilo e o dos filhos é um gesto de palco: responde a uma pergunta que ninguém fez e silencia sobre a que está na mesa. Lembremos que o triplex e o sítio de Atibaia também nunca estiveram no nome dele.
Se a vontade de transparência é sincera, o caminho é outro. A quebra que esclareceria o caso é a das contas do Instituto Lula, presidido por Paulo Okamotto, e das empresas ligadas ao documentário. Isso Lula não oferece. Oferece o que não custa nada.
E há transparência que está ao alcance da caneta dele, sem pedir licença a ninguém. Em 2022, Lula prometeu um decreto para acabar com o sigilo de 100 anos já no primeiro dia de governo. A prerrogativa continua em vigor e os órgãos seguem usando. Em 2023, foram 1.339 pedidos de informação negados sob esse selo, um século de silêncio. Em julho do ano passado, Lula disse ser “radicalmente contra” o sigilo de 100 anos, mas que a decisão é dos órgãos e “nem chega na Presidência”. Então quem manda no governo?
O cartão corporativo da Presidência conta a mesma história. Auditoria do TCU aprovada em julho de 2025 mostra que, de janeiro de 2023 a abril de 2025, R$ 55,2 milhões dos R$ 55,5 milhões gastos estavam sob sigilo. São 99%, o maior percentual desde que o monitoramento começou. Quem quer provar que não tem nada a esconder tem aqui uma oportunidade de ouro: abra a fatura.
Há também o que ainda é pergunta e deve continuar sendo cobrado. Lula recebeu Vorcaro em dezembro de 2024, fora da agenda oficial, e pediu que ele procurasse o Banco Central. Quem entrou e saiu da cela de Vorcaro, quem voou no jato dele? Não tenho a lista, e é justamente isso que incomoda: por que ela não é pública?
O contraste é gritante. Temos um presidente que cobra do adversário extratos que ele mesmo já anunciou não ter o que temer, pois Flávio disse que não tem “absolutamente nada a esconder”. E temos um governo que tranca a sete chaves cartão, agenda e pedidos de informação. Quem esconde o quê?
Meu desafio ao presidente é simples e cabe num ofício. Revogue o sigilo de 100 anos, abra as faturas do cartão corporativo, abra as contas do Instituto Lula para a investigação. Se não há nada, a transparência só fortalece. Se Lula preferir manter os cadeados e entregar ao TSE o que ninguém pediu, o eleitor tira a própria conclusão.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



