O "Caminho Livre": A manobra de JHC que entrega Alagoas de bandeja aos Calheiros
Entre reuniões secretas na praia e pressões do Palácio do Planalto, a estratégia de coerência duvidosa do ex-prefeito ameaça implodir a verdadeira oposição e sepultar o palanque conservador em Alagoas
ALAGOAS, 14 de agosto de 2026 — O cenário em Alagoas não é de confusão eleitoral. É de um teatro muito bem ensaiado. Enquanto o eleitor de direita, aquele que acreditou na promessa de uma oposição firme aos Calheiros, aguarda uma definição, o ex-prefeito JHC (PSDB) joga um jogo perigoso: o tempo.
A tática é velha conhecida de quem vive da política de gabinete: quanto mais tempo você segura a definição, mais você asfixia qualquer outro nome que possa surgir como alternativa real. JHC não compareceu à própria convenção que o lançaria candidato ao governo. A cadeira ficou vazia. A ata, sem assinatura. Mas, para os bastidores, a explicação é sempre a mesma: “estratégia”.
Mas estratégia para quem?
Não é segredo para ninguém que JHC transita com a desenvoltura de quem possui canais abertos com o Palácio do Planalto — aproximação essa que serviu para pavimentar, em julho de 2025, a indicação de sua tia, a procuradora Marluce Caldas, a uma cobiçada vaga no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
No entanto, favores políticos no alto escalão exigem contrapartidas. E a fatura começou a ser cobrada longe dos holofotes da capital federal. Em janeiro de 2026, em uma reunião discreta e cercada de sigilo, em uma casa de praia no condomínio Arquipélago do Sol, na Barra de São Miguel (AL), o dirigente petista José Dirceu encontrou-se com JHC e com Rodrigo Cunha, então vice-prefeito. Na mesa, o recado direto do núcleo petista: cobrar coerência e fidelidade estrita aos entendimentos costurados com o governo federal.
E qual seria o cumprimento desse pacto? A entrega da cabeça de chapa?
A confirmação desse roteiro de bastidores veio à tona nesta quinta-feira (13 de agosto de 2026). Embora não tenha feito um anúncio público direto aos eleitores, JHC sinalizou que será candidato ao Senado, segundo Lauro Jardim, do jornal O Globo, após desembarcar em Brasília para um novo encontro, fora da agenda oficial, com Lula. Na reunião, o ex-prefeito comunicou formalmente que deixará a disputa pelo Governo de Alagoas para concorrer a uma vaga na Câmara Alta.
Ao manter a candidatura ao governo no campo da mais absoluta incerteza até o limite do prazo legal da Justiça Eleitoral, JHC paralisou e asfixiou a verdadeira oposição. Ele impediu deliberadamente que novos nomes ganhassem musculatura, fragmentou as bases e, operando nos bastidores, pavimentou o cenário para se retirar da disputa majoritária ao Executivo estadual. É a execução perfeita da velha política do “se eu não ganho, ninguém da oposição ganha”, deixando o caminho inteiramente desimpedido para o candidato de Lula, Renan Filho.
O xeque-mate duplo: como culpar o PL e entregar o governo
Mais do que simplesmente abandonar a corrida ao Palácio República dos Palmares, o desenho arquitetado nos gabinetes previu uma armadilha perfeita para o campo conservador.
A possibilidade real que rondava os bastidores era a de que, diante do cenário de terra arrasada às vésperas do encerramento dos prazos e com o PL tendo que tomar a decisão de colocar um nome próprio na disputa, JHC ensaiasse manter sua candidatura nominalmente apenas para estilhaçar e minar os votos da direita no estado. Ao fragmentar o eleitorado conservador, ele garantiria matematicamente a vitória de Renan Filho.
O golpe-mestre dessa narrativa seria transferir a culpa do fracasso para o próprio PL: os aliados de JHC poderiam acusar o partido de ter “dividido os votos” e rachado a oposição. Com isso, ele lavaria as mãos, eximiria a si próprio de qualquer responsabilidade e, de quebra, entregaria o cumprimento integral do acordo político que fez em troca da vaga do STJ à sua tia, garantindo a sobrevivência do seu grupo à custa da esperança de mudança dos alagoanos.
Uma sinuca de bico e o futuro da direita em Alagoas
O PL e as lideranças conservadoras do estado encontram-se, agora, diante de uma clássica sinuca de bico. O partido precisa se organizar imediatamente e definir com firmeza qual caminho tomar antes que o relógio expire de vez.
Se nada for feito para romper essa dinâmica de subordinação disfarçada de hesitação, Alagoas não perderá apenas o governo do estado para o velho esquema político que domina a região há décadas. Mas dará de bandeja o palanque do estado para Lula e perderá o palanque e a base de sustentação para a direita e para Flávio Bolsonaro em Alagoas.



