RIO DE JANEIRO, 11 de setembro de 2026 — Alguém comprou malas pela internet e guardou os recibos.
Pense nisso por um segundo. Não é o detalhe de um filme. É um homem de carne e osso, sentado em frente a uma tela, escolhendo o tamanho da bagagem pelo volume de cédulas que ela precisava aguentar. Depois guardou o comprovante da compra. E, anos mais tarde, entregou esse papel à Procuradoria-Geral da República.
O homem se chama Antônio Carlos Freixo Júnior. No mercado, todo mundo o conhece como Mineiro. Ele é dono da Entre Investimentos e, segundo a própria delação, foi o responsável por gerar dinheiro vivo para a estrutura de Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master.
O número que ele apresentou é de tirar o fôlego: cerca de R$ 1,3 bilhão movimentados entre 2020 e 2025 a pedido do banqueiro.
Um bilhão e trezentos milhões de reais. Para efeito de comparação, é mais do que o orçamento anual de saúde de dezenas de cidades brasileiras somadas. Enquanto uma mãe esperava três meses por um exame de imagem na fila do SUS, havia malas de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão circulando de mão em mão.
Como a máquina girava
O relato descreve uma rotina quase administrativa. Os pedidos chegavam pelo WhatsApp, partindo de Vorcaro, do sócio Augusto Lima e, depois, do cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Mineiro então acionava três operadores capazes de entregar espécie e fazia transferências bancárias para empresas indicadas por eles. Os intermediários cobravam 4% pelo serviço.
O dinheiro voltava em papel. E o papel ia para as malas, entregues a Zettel e a motoristas.
Aos procuradores, Mineiro disse entender que aqueles valores se destinavam ao pagamento de comissões e vantagens indevidas. E disse mais: afirmou ter vídeos das entregas.
Repare no ponto exato onde a história trava. Ele descreve o que fazia, quanto movimentou, com quem falava e como embalava. E afirma não saber qual era o destino final do dinheiro.
O carteiro está identificado. O endereço, não.
O que a homologação significa
Na terça-feira, 8 de setembro, Mineiro passou cerca de três horas no Supremo diante de um juiz auxiliar do gabinete de André Mendonça, respondendo à pergunta de sempre: assinou por vontade própria? Disse que sim. No dia seguinte, 9 de setembro, Mendonça homologou o acordo firmado com a PGR em 8 de agosto. Como parte da colaboração, o empresário se comprometeu a pagar cerca de R$ 2 bilhões em multa.
Homologar não é acreditar. O ministro atesta que a colaboração foi voluntária e legal, não que cada frase dela seja verdadeira. O conteúdo ainda precisa ser confrontado com extratos, documentos e as tais gravações. A defesa de Vorcaro já anunciou que vai contestar esta delação e também a de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, a primeira fechada no caso.
Isso não diminui o tamanho do que foi aberto. Só define onde estamos: no começo.
As 14h42 de uma terça-feira
Agora o detalhe mais intrigante.
Registros de portaria obtidos pelo Metrópoles via Lei de Acesso à Informação mostram que Antônio Carlos Freixo Júnior entrou no Palácio do Planalto no dia 23 de janeiro de 2024, uma terça-feira, às 14h42. Foi a única entrada dele no período consultado, de janeiro de 2022 a março de 2025.
O nome não consta na agenda oficial de nenhuma autoridade que trabalha no prédio. A Secretaria de Comunicação da Presidência foi procurada e não respondeu.
Um registro de entrada não prova reunião, nem assunto, nem crime. Prova uma coisa só, e essa coisa basta para exigir explicação: o homem das malas atravessou a porta da sede do governo federal em plena tarde de expediente, e o Estado brasileiro não sabe dizer com quem ele falou.
Quem assinou a autorização? Que sala ele procurou? Por que o nome sumiu da agenda?
O Banco Master foi liquidado em novembro de 2025 e deixou o maior rombo da história do Fundo Garantidor de Créditos. A Operação Compliance Zero apura fraudes estimadas em R$ 60 bilhões. Esse dinheiro não evaporou. Ele saiu do bolso de poupadores, de fundos de pensão, de brasileiros que confiaram em um selo de solidez.
Conhecer o operador é só o começo. O que o Brasil ainda precisa descobrir é quem estava do outro lado da porta, esperando a entrega.
E quem, até hoje, prefere que essa pergunta não seja respondida.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




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🎼«Quando o carteiro chegou e meu nome gritou, com uma mala na mão...🎼»
Causou estranheza ler que a defesa de Vorcaro iria contestar as delações de Mineiro e Mansur. Não é Vorcaro quem quer contar tudo?
No 8/01, prenderam todo mundo, porque «saberiam» quem estava no entorno. Mas, ninguém sabe, ninguém viu, quando Mineiro entrou e circulou tranquilamente dentro dos gabinetes.