RIO DE JANEIRO, 15 de setembro de 2026 — Eu passei o dia inteiro diante da TV Justiça. Mais de 40 mil pessoas faziam o mesmo no YouTube da Revista Timeline. Apesar de tudo que imaginávamos que pudesse acontecer, era esperado um julgamento. Recebemos um circo.
A pauta era simples de explicar. Pela primeira vez na história, o plenário do STF decidiria se abre investigação contra um ministro em exercício. O relatório da Polícia Federal reúne mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a Alexandre de Moraes entre 4 e 17 de novembro de 2025. Nelas, o banqueiro pede que o ministro interceda junto ao diretor-geral da PF e ao procurador-geral da República. Chega a perguntar se deveria fugir do país.
Enquanto os ministros discutiam lá dentro, a Polícia Judicial abatia um drone não identificado do lado de fora. Nada poderia resumir melhor o dia: tudo fora de controle.
O investigado que vota
Moraes não se afastou. Pelo contrário. Fez apartes, acusou, levantou a voz e, no fim, votou. Votou a favor da questão de ordem que suspendia o julgamento e juntava o caso dele ao de André Mendonça. Em qualquer tribunal de primeira instância deste país, um juiz que opina sobre o rito do próprio processo seria afastado antes do almoço. No Supremo, ele foi contado no placar.
E não parou por aí. Disse que Mendonça estaria “a serviço de um grupo político que quis dar um golpe”. Chamou o relatório da PF de imprestável e sugeriu que ele teria sido feito com ajuda de um órgão estrangeiro. Na véspera, já havia entregado 44 páginas classificando a apuração como vingança pelas condenações do 8 de janeiro.
Eu pergunto: quem precisa desqualificar a polícia, o colega e até potências estrangeiras para explicar mensagens no próprio celular do banqueiro?
O decano fora de si
Se Moraes foi o protagonista, Gilmar Mendes foi o mestre de cerimônias ou o bobo da corte. O decano, que deveria ser o fiador da serenidade, chamou a apuração de “pixuleco, boneco eleitoral”. Disse que “até a máfia tem ética”. Classificou a conduta de Mendonça como covarde.
Quando Mendonça pediu a palavra depois da manifestação do PGR, Gilmar o interrompeu aos gritos: “É impressionante a desfaçatez desse sujeito”. Sujeito. Assim um ministro se referiu a outro, diante do país. Mendonça precisou exigir que não lhe apontassem o dedo e que não colocassem palavras na boca dele.
Entre um ataque e outro, Gilmar ainda achou tempo para brincar que o Ibope da Globo ia cair. Eu não achei graça nenhuma.
Dino, Zanin e o roteiro
Flávio Dino chegou ao plenário depois de pedir, naquela mesma manhã, investigação sobre o Instituto Iter, fundado por Mendonça. Leu um voto de 45 minutos. Citou um vídeo do humorista Fábio Porchat e contou que chegou atrasado porque estava “decretando prisão de gente”. Acusou o presidente Edson Fachin de abrir uma “avenida de autoritarismo”. Quando o clima azedou de vez, disparou contra Fachin que não ia assistir àquilo e pediu vista.
Cristiano Zanin acompanhou o decano sem alarde, como quem cumpre a sua parte.
Somem as peças. Gilmar levanta a questão de ordem. Dino, Zanin e Moraes acompanham. O tumulto se instala. A vista trava tudo. Na minha leitura, não houve improviso ali. Houve jogo combinado para que nada fosse decidido, e a crise empurrada para depois das urnas.
Conseguiram em parte. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram por manter os casos separados, e o caso de Mendonça segue marcado para o dia 23. Mas a decisão sobre Moraes ficou pendurada no pedido de vista.
A saída conveniente de Nunes Marques
Logo na abertura, Kassio Nunes Marques se declarou impedido. O motivo alegado: presidir o TSE e não querer impactar o cenário eleitoral. Horas antes, reportagens revelaram que mensagens no celular de Vorcaro associam o nome do advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro, a um pagamento mensal de R$ 500 mil. Ele negou que o filho tenha prestado serviço ao banco e deixou o plenário.
A constitucionalista Vera Chemim chamou o impedimento de “no mínimo intrigante”. Eu chamo pelo nome que o brasileiro comum usaria: fuga. Presidir o TSE nunca impediu ninguém de votar no STF. O que mudou naquela manhã foi outra coisa.
A vergonha tardia de Cármen Lúcia
No fim, Cármen Lúcia pediu a palavra com voz embargada. Disse falar com profunda tristeza, que o Supremo provocou um “mal-estar cívico” nos brasileiros e que estava envergonhada com a espetacularização.
Envergonhada, ministra? Eu lembro de 20 de outubro de 2022. No TSE, então presidido por Moraes, a senhora disse que medidas daquele tipo eram veneno, que não se podia permitir a volta da censura sob qualquer argumento. E, na frase seguinte, acompanhou o relator e votou pela suspensão prévia de conteúdo.
Foi ali que a porta se abriu. Tudo o que vimos hoje passou por aquela porta. O pedido de desculpas que a ministra ofereceu ao país não apaga o voto que ela deu. A história vai registrar Cármen Lúcia como a ministra que viu a censura prévia chegar, reconheceu o veneno e, mesmo assim, entregou o copo.
O que fica
Lá fora, a Polícia Judicial derrubou um drone por um motivo simples: ninguém sabia quem estava no comando. Havia antenas, sensores e protocolos para isso. Em poucos minutos, o objeto estranho foi neutralizado e a Praça dos Três Poderes voltou ao normal.
Dentro do plenário, não existe equipamento parecido. Não há antena que detecte quando um ministro vota no próprio caso. Não há sensor que acenda quando o decano ofende um colega diante do país. Não há protocolo que derrube uma manobra ensaiada para empurrar a verdade para depois da eleição.
O Supremo julga presidentes, senadores, empresários e cidadãos comuns. Manda prender, manda soltar, manda calar. Mas quando a suspeita recai sobre um dos seus, o que vimos foi um tribunal sem piloto, girando no ar, sem ninguém disposto a assumir os controles.
Eu não escrevo isso com prazer. Escrevo como brasileiro que esperava ver ministros à altura da toga que vestem. Vi homens poderosos brigando para não prestar contas, enquanto o país assistia sem ter a quem recorrer.
A pergunta que eu deixo não é retórica. É a mais urgente do Brasil neste momento. Se ninguém controla o Supremo Tribunal Federal, quem vai nos proteger quando ele decidir que o próximo alvo somos nós?
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Realmente 😳 muito estranha a FUGA COVARDE🏃🏿♂️➡️ de Nunes Marques❗️😪
Alguém em sã consciência acredita que os processos do Master irão voltar para as mãos de Mendonça? Vazar para a Imprensa que o filho de Nunes recebeu 500 mil de Vorcaro é nos chamar de idiotas. O filho de Nunes tem escritório de advocacia, os de Moraes não e a mesada era de 300 mil sem prestar serviço algum. Seria uma elucubração da parte do leitor, de que o próprio Moraes possa ter sugerido a Vorcaro procurar por serviços advocatícios até do filho de FUX, este cujo contrato felizmente não foi assinado? E alguma vez, durante o circo de mais de 5 horas, o nome de Alexandre de Moraes foi citado pelas mesadas aos filhos e contrato de 131 milhões? É urgente trazer à luz, as últimas ameaças a Mendonça que, timidamente, aceitou ser acusado pelo resto da gang. Estando nas mãos de Facchin, nada mais será vazado. A não ser o que Zanini escolher.