O curso que Comando Vermelho e CPX não precisaram pedir
Lula financia formação de pilotos de drone nas favelas do Rio
RIO DE JANEIRO, 20 de julho de 2026 — Em outubro do ano passado, policiais do Bope e da Core viveram uma cena que até então pertencia aos noticiários do Oriente Médio: granadas caindo do céu, lançadas por drones operados pelo Comando Vermelho, durante a Operação Contenção nos Complexos do Alemão e da Penha. O nome disso em português claro é: narcoterrorismo.
Quem apostou que era episódio isolado recebeu a resposta na última segunda-feira, dia 13. Em Curicica, na Zona Oeste, um drone lançou um artefato explosivo contra a sede da Associação de Moradores do Parque Dois Irmãos. A explosão abriu um buraco no telhado e feriu um integrante da entidade. O vídeo, gravado e comemorado pelos próprios criminosos do Comando Vermelho, circula nas redes. Antes do lançamento, ouve-se a ordem para explodir o carro dos rivais. Não bastasse, a Polícia Civil investiga informação de inteligência ainda mais alarmante: facções estariam enviando integrantes à Ucrânia para aprender técnicas de guerra com drones, segundo o delegado Marcos Motta, da Coordenadoria de Operações Aéreas Não Tripuladas.
Nove meses depois, o Diário Oficial da União trouxe uma novidade. No dia 13 de julho de 2026, foi publicado o extrato do Termo de Fomento identificado pelo código 7AABQM, firmado entre o Ministério do Trabalho e Emprego e o Instituto Brasileiro de Administração Pública e Apoio Universitário do Rio de Janeiro, o IBAP-RJ. Valor: R$ 200 mil, repassados integralmente pelo governo federal, sem contrapartida financeira da entidade. Objeto: formar moradores de comunidades do Rio de Janeiro como pilotos de drones de até 250 gramas.
Não é boato. Não é corrente de WhatsApp. É o processo administrativo 19968200056202618, com vigência de 3 de julho de 2026 a 3 de julho de 2027, assinado e publicado. Qualquer cidadão pode conferir.
A justificativa oficial
No papel, a intenção é nobre. O curso promete capacitar jovens de áreas vulneráveis para o mercado de audiovisual, cobertura de eventos, inspeções de obras e mapeamento urbano, com módulo de empreendedorismo incluído. A escolha dos drones de até 250 gramas tem lógica burocrática: nessa faixa de peso, as regras da Anac são simplificadas, o que facilita a entrada no mercado.
Falando por mim, professor da rede pública há mais de duas décadas, seria o último a torcer contra qualificação profissional para jovens de comunidade. Passei minha vida defendendo exatamente isso. E é justamente por isso que a pergunta precisa ser feita sem rodeios: quem pensou no contexto?
O contexto que o governo “ignorou”
Drones comerciais do tipo FPV são vendidos livremente na internet por valores entre R$ 3 mil e R$ 10 mil. As facções cariocas já os adaptaram para carregar granadas de mão. Um drone de 250 gramas não carrega granada, dirão os defensores do programa. Verdade. Mas quem entende minimamente de tecnologia sabe que a pilotagem é a mesma habilidade. Quem aprende a voar um equipamento de 249 gramas domina os fundamentos para operar um de 2 quilos. E drone pequeno, mesmo desarmado, já serve para o que o tráfico mais precisa: vigilância de acesso, reconhecimento de terreno e monitoramento da movimentação policial. Os próprios criminosos usaram drones para acompanhar equipes em fuga durante a operação de outubro, como mostraram imagens obtidas pela imprensa.
A questão, portanto, não é se o morador de comunidade merece formação tecnológica. Merece, e muito. A questão é outra: em territórios onde o Estado não consegue garantir sequer a entrada da polícia sem blindado, quem garante que o tráfico, que manda em tudo por lá, não vai cooptar, coagir ou simplesmente recrutar os novos pilotos formados com dinheiro público?
Ninguém no Ministério do Trabalho respondeu a essa pergunta porque, ao que tudo indica, ninguém a fez.
Inclusão de verdade exige segurança primeiro
Este programa inverte a ordem das prioridades. Formação profissional em tecnologia é bandeira que defendo em sala de aula e na gestão pública. Mas política pública séria avalia risco. Nenhum gestor responsável instalaria um curso de armeiro esportivo dentro de um território em disputa entre facções, por mais legal que seja a atividade. O mesmo raciocínio vale aqui.
Se o governo federal quer qualificar jovens de comunidade para o mercado de drones, que o faça. Em escolas técnicas, em campi de institutos federais, em espaços onde o Estado, e não a facção, dita as regras. Com triagem, acompanhamento e articulação com as forças de segurança. Do jeito que está, o Termo de Fomento 7AABQM entrega uma competência estratégica exatamente no endereço onde ela já foi convertida em arma de guerra urbana.
O Rio de Janeiro não precisa de mais risco embrulhado em papel de oportunidade. Precisa de segurança de verdade, para que a oportunidade possa, enfim, existir.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, D.H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Por que permitimos?
Precisamos fazer as pessoas voltarem a ter vergonha de fazer ou apoiar o que é errado!
https://ogritocensurado.wordpress.com/2025/10/13/por-que-permitimos-2/
PQP! É PHODA, meu!