O dado viciado da República
Rolaram o dado até tirar o caso Lulinha de Mendonça. Na terceira tentativa, o sorteio entregou o inquérito a um ministro indicado pelo próprio Lula
PHILADELPHIA, 04 de agosto de 2026 — Ontem descrevemos aqui a jogada ensaiada que tentou tirar das mãos do ministro André Mendonça a investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Naquela rodada, o plano fracassou: o sorteio eletrônico, ironicamente, devolveu o caso ao próprio Mendonça. Pois bem. Insistiram. E desta vez o dado caiu do lado que interessava.
Nesta segunda-feira, o Supremo Tribunal Federal sorteou o relator do terceiro inquérito pedido pela Polícia Federal contra o filho do presidente. O escolhido foi Flávio Dino. Sim, ele: indicado ao STF pelo presidente Lula em 2024, depois de servir como ministro da Justiça do mesmo governo cujo filho do chefe agora terá de investigar. A defesa de Lulinha não poderia ter sonhado com desfecho melhor.
E aqui está o detalhe que transforma essa distribuição em escândalo, não em azar estatístico.
O terceiro inquérito apura suposto tráfico de influência envolvendo a 3Structure, empresa de tecnologia com contratos vigentes de R$ 55,7 milhões com o governo federal, cerca de R$ 49 milhões já recebidos segundo o Portal da Transparência, incluindo um contrato de mais de R$ 31 milhões com o Ministério do Desenvolvimento Social. Acontece que a 3Structure não é personagem nova nessa história. Ela está no centro do SEGUNDO inquérito, aquele que já tramita no gabinete de Mendonça, tendo como alvo seu sócio Cléber Ribas de Oliveira, que entrou no radar da PF justamente a partir das investigações sobre os desvios do INSS, por sua relação com o Careca.
Mesma empresa. Mesmos personagens. Mesma origem probatória. Qualquer estudante de primeiro período de Direito reconhece aí a figura da prevenção: casos conexos vão para o relator que já conhece o conjunto. O Correio Braziliense, veículo que ninguém acusará de bolsonarismo, escreveu com todas as letras que o provável seria a condução por Mendonça, por prevenção, já que ele relata os outros dois inquéritos.
Mas não foi por prevenção. Foi a sorteio livre. De novo.
Pela terceira vez em dez dias, escolheu-se o caminho que joga o caso na roleta em vez de entregá-lo ao juiz natural da matéria. Na primeira e na segunda rodada, a roleta devolveu Mendonça. Na terceira, finalmente, tirou. Existe um nome antigo para esse método: fatiar o caso em pedaços supostamente autônomos e rolar o dado a cada pedaço, quantas vezes for preciso, até o resultado agradar.
Não acredita em mim? Então acredite no advogado do próprio Lulinha. Marco Aurélio Carvalho, defensor do filho do presidente, ironizou a sequência de investigações dizendo que estão fazendo uma espécie de “melhor de 3”. Quando até a defesa do investigado descreve a distribuição de inquéritos no Supremo como uma disputa de melhor de três, o que sobra da liturgia da Corte?
Convém repetir o que este espaço já disse: o sorteio eletrônico, em si, parece ser realmente aleatório. Aparentemente, ninguém apertou um botão escrito Dino. A manobra não está no resultado. Está na escolha reiterada da rota, feita por quem pediu, por quem opinou e por quem despachou. E está no efeito prático: o desdobramento mais sensível do maior escândalo previdenciário da história recente, que já envolve o mesmo lobista, a mesma empresa e o mesmo sobrenome, agora repousa no gabinete de um ministro que deve sua cadeira ao pai do investigado.
O que precisa acontecer agora é simples, direto e sem rodeios: Mendonça deve suscitar a prevenção e a Procuradoria-Geral da República, se ainda guarda algum compromisso com a coerência, deve requerer a reunião dos três inquéritos sob um único relator. O presidente Edson Fachin, de volta ao comando da Corte após o recesso, terá a chance de mostrar se o STF é um tribunal ou um cassino.
Porque a pergunta que fica para o leitor é desconfortável de tão óbvia: se fosse o filho de qualquer adversário do governo, alguém acredita que o caso seria fatiado em três, sorteado três vezes e parado na mesa de um ministro indicado pelo pai?
A Justiça que depende de sorteio já é frágil. A Justiça que sorteia até acertar deixou de ser Justiça.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



