RIO DE JANEIRO, 2 de outubro de 2026 — Às 21h30 de quinta-feira, horário em que os candidatos à Presidência deveriam estar frente a frente, a TV Globo exibiu um filme. Aves de Rapina. Pela primeira vez desde 2002, a emissora cancelou o último debate presidencial do primeiro turno, a três dias da eleição.
Não fui eu quem escolheu o título do filme. Mas confesso que ele não saiu da minha cabeça a noite inteira.
Para entender como chegamos até aqui, é preciso voltar algumas horas.
A cadeira que ninguém podia ver
Na quarta-feira, Lula avisou que não iria ao debate. Direito dele. Só que havia uma regra no regulamento, o item 7 da ata do debate, assinado previamente por todas as campanhas, inclusive a dele: quem faltasse teria o púlpito vazio identificado, e os adversários poderiam dizer o que perguntariam ao ausente.
Isso não é novidade nenhuma. Em 2006, Lula, então presidente e candidato à reeleição, faltou ao debate da Globo três dias antes do primeiro turno. A cadeira dele ficou vazia diante do país. Ninguém correu à Justiça. O eleitor viu e tirou as próprias conclusões.
Vinte anos depois, a coligação de Lula foi ao TSE para que o eleitor não visse. E conseguiu. A ministra Estela Aranha concedeu liminar suspendendo o item 7: nada de púlpito identificado, nada de perguntas dirigidas ao candidato do PT. Na avaliação dela, a exposição poderia criar uma situação de desequilíbrio.
Desequilíbrio. Guarde essa palavra.
Quem é a ministra
Aqui a história ganha outra camada.
Em 2004, Estela Aranha doou R$ 800 para Nabil Bonduki, candidato a vereador pelo PT em São Paulo. Em 2018, R$ 1 mil para Jean Wyllys, do PSOL. Em 2022, R$ 750 para Erika Hilton, também do PSOL. Os registros estão no sistema de prestação de contas da própria Justiça Eleitoral, como mostrou o Portal Claudio Dantas.
Ela também atuou como advogada de Lindbergh Farias, do PT, em processo no Tribunal de Justiça do Rio. Foi secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça na gestão de Flávio Dino. Depois, assessora especial da Presidência da República no governo Lula. E, em julho de 2025, foi o próprio Lula quem a escolheu, a partir de uma lista tríplice do STF, para uma das vagas de jurista no TSE.
Nada disso é ilegal. A lei não impede um advogado de doar a campanhas antes de virar juiz. Mas a confiança num árbitro não se mede apenas pelo que a lei permite. Mede-se também pelo que o torcedor enxerga quando o apito soa sempre na mesma direção.
Faço um exercício simples. Imagine um ministro que doou ao PL, advogou para um deputado bolsonarista, trabalhou no Planalto de Bolsonaro e foi escolhido por ele para o TSE. Agora imagine esse ministro atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro horas antes do debate. Qual seria a manchete de sexta-feira?
Duas portas fechadas. E uma terceira
A história não para aí.
Renan Santos, do Missão, também queria estar no debate. Primeiro, foi ao TSE. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, negou na quarta-feira: o partido não tem os cinco representantes no Congresso exigidos por lei, e a Globo não era obrigada a convidá-lo.
Renan recorreu ao STF. O caso caiu com Cármen Lúcia, que também negou. Para ela, o instrumento escolhido não era o adequado, e a matéria era de competência da Justiça Eleitoral.
Duas portas fechadas. Parecia o fim.
Só que apareceu um terceiro caminho. O Solidariedade levou um pedido ao STF, mas não numa ação nova, distribuída para decidir o debate. O pedido entrou numa reclamação que já estava nas mãos de Gilmar Mendes e que tratava originalmente da candidatura de Deltan Dallagnol ao Senado, no Paraná. Um processo que não tinha nada a ver com debate na televisão.
Gilmar decidiu. Considerou que Renan, com 3% na Quaest contra 1% de Romeu Zema, cumpria o critério do próprio regulamento e mandou incluí-lo. Na prática, contrariou o que Nunes Marques e Cármen Lúcia tinham acabado de decidir.
O dia em que a regra mudou duas vezes
Faça as contas comigo. Em questão de horas, duas decisões judiciais alteraram regras que a Globo e as campanhas tinham combinado antes. Uma atendeu ao pedido da coligação de Lula. A outra obrigou a inclusão de um candidato que o presidente do TSE tinha acabado de recusar.
A Globo falou em insegurança jurídica e em interferência indevida na liberdade de organizar debates. Associações de imprensa criticaram a intervenção judicial. Flávio Bolsonaro, que diz estar a caminho da emissora, acusou censura. E o debate morreu.
Quem perdeu? Não foi a Globo. Não foi nenhum candidato. Foi você, que tinha o direito de ver quem se apresenta para governar o país responder, ou deixar de responder, às perguntas mais duras da reta final.
Em 2006, o eleitor viu uma cadeira vazia. Em 2026, viu um estúdio vazio. E eu não sei dizer qual das duas imagens fala mais sobre o momento que vivemos.
Então deixo as perguntas. Diante desse histórico, a decisão da ministra foi realmente imparcial? É normal que um ministro do STF, por meio de um processo do Paraná, derrube na prática o que o presidente do TSE e uma colega do próprio Supremo tinham acabado de decidir?
Os fatos estão documentados. A conclusão é sua. Confira as fontes, compartilhe e faça essas perguntas chegarem a mais gente antes de domingo.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Impressionante a desfaçatez deste Sr. Ministro Gilmar Mendes. Tudo pela δημοκρατία (demokratia). Como pode isto acontecer... atropelou o Ministro chefe de TSE e as coisas vão ficar assim??? O dito pelo não dito?
O que está acontecendo é motivação suficiente para que as pessoas pesquisem os fundamentos do Gramscismo?
Leitura sugerida
"Os intelectuais e a organização da Cultura", Antônio Gramsci