RIO DE JANEIRO, 12 de outubro de 2026 — Imagine abrir a janela de casa e não conseguir enxergar direito o outro lado da rua. O céu perdeu a cor, o cheiro de queimado tomou conta dos ambientes e respirar deixou de ser algo tão simples.
Para milhares de moradores de Manaus, esse cenário não é uma imagem de filme. É a realidade destes últimos dias.
A fumaça das queimadas tomou a capital amazonense. Escolas suspenderam aulas, atividades ao ar livre foram canceladas e a Defesa Civil recomendou cuidados para reduzir a exposição ao ar contaminado.
Enquanto famílias tentam proteger crianças e idosos, uma discussão cresce longe das áreas atingidas: o poder público reagiu com a rapidez necessária?
Os números ajudam a entender a dimensão do problema.
Com base no Painel do Fogo do Censipam, os focos de incêndio no Amazonas aumentaram 271% nos dez primeiros dias de outubro. Foram 1.380 registros, contra 372 no mesmo período de 2025.
Outro levantamento, divulgado pela Agência Brasil com base no Painel do Clima do governo amazonense, apontou 6.901 focos entre 1º e 11 de outubro, crescimento de 91,38% em relação ao período equivalente do ano anterior.
São medições diferentes, com recortes e critérios que precisam ser considerados separadamente. Mas ambas revelam uma situação preocupante.
E o problema não termina quando as chamas se apagam.
A fumaça viaja, entra nas casas, alcança escolas e hospitais. Em Manaus, a concentração média de partículas finas MP2,5 chegou a 196,4 microgramas por metro cúbico às 6h de sábado, 10 de outubro. O índice foi classificado como péssimo.
Essas partículas são pequenas o suficiente para penetrar profundamente no sistema respiratório. Crianças, idosos e pessoas com doenças pulmonares estão entre os grupos mais vulneráveis.
Para quem mora longe, o incêndio pode parecer apenas mais uma notícia acompanhada pelo celular. Para quem está no Amazonas, a preocupação começa com algo elementar: o ar que entra nos pulmões.
O fogo avançou. E a ajuda?
A gravidade da situação levou o governo do Amazonas a decretar emergência em 36 municípios no sábado, 10 de outubro. O governo federal reconheceu a medida no mesmo dia.
O ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, explicou que a formalização estadual era necessária para permitir a mobilização de determinados recursos federais de emergência.
A União anunciou uma força-tarefa com brigadistas, equipes de saúde, apoio logístico e 11 aeronaves, incluindo dois KC-390 da Força Aérea Brasileira. A Força Nacional do SUS também foi deslocada para reforçar o atendimento à população.
O governo federal afirma que já havia desenvolvido atividades preparatórias com autoridades locais e que equipes federais atuavam anteriormente no combate aos incêndios.
Mas a explicação administrativa não encerrou a controvérsia.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o deputado federal Nikolas Ferreira criticaram publicamente a atuação federal diante da crise.
As manifestações reacenderam uma pergunta que precisa ser respondida com documentos, datas e resultados: o que poderia ter sido feito antes, por cada esfera de governo, para evitar que a situação chegasse a esse ponto?
O decreto foi reconhecido no mesmo dia. Isso está documentado. Mas a rapidez desse reconhecimento, isoladamente, não demonstra que todas as medidas preventivas e operacionais tenham sido suficientes.
Da mesma forma, a gravidade dos incêndios não comprova, por si só, uma omissão específica.
É preciso examinar alertas, solicitações de apoio, recursos disponíveis, ações preventivas e a cronologia das decisões estaduais e federais.
Quando a saúde de uma população inteira está ameaçada, essa prestação de contas não deveria depender de quem ocupa o governo.
E as vozes que defendem a Amazônia?
Existe outra discussão que merece atenção.
Ao longo dos últimos anos, a defesa da Amazônia ganhou espaço em campanhas publicitárias, manifestações de celebridades, apresentações musicais e mobilizações nas redes sociais.
Artistas brasileiros e internacionais utilizaram sua popularidade para chamar a atenção para o desmatamento e as queimadas. Muitas dessas iniciativas tiveram repercussão mundial.
Agora, diante de uma nova emergência ambiental, cabe perguntar qual tem sido a participação dessas mesmas figuras públicas.
Quem está mobilizando seus seguidores? Quem está divulgando informações sobre as necessidades das comunidades atingidas? Quem está ajudando a ampliar a visibilidade da crise?
A cobrança é legítima, mas precisa ser feita com responsabilidade. Não é possível afirmar que todos estejam em silêncio sem examinar suas manifestações recentes.
Diante da gravíssima crise atual, é razoável que se pense em atribuir a omissão e ausência de pronunciamentos ao recebimento de recursos da Lei Rouanet.
O financiamento público da cultura, por sua vez, merece transparência e fiscalização permanentes. Projetos incentivados, valores autorizados, recursos efetivamente captados e prestações de contas devem estar disponíveis ao escrutínio da sociedade.
A questão mais importante é outra: a preocupação ambiental deve continuar existindo independentemente do presidente da República ou do partido que esteja no poder.
Uma floresta não deixa de ser importante quando muda o governo. E uma família que respira fumaça não sofre menos por concordar politicamente com quem ocupa Brasília.
A tragédia não pode desaparecer quando a fumaça baixar
Há um risco adicional em crises como essa.
Durante alguns dias, imagens impressionantes circulam nas redes sociais. Políticos discutem responsabilidades, autoridades anunciam providências e a população acompanha os números.
Depois, o assunto perde espaço.
Mas quem vive nas regiões atingidas continua enfrentando as consequências.
A recuperação das áreas queimadas não acontece na velocidade das publicações nas redes sociais. Os impactos ambientais, econômicos e sanitários podem permanecer muito depois do fim da emergência.
Por isso, não basta anunciar aeronaves ou divulgar fotografias de operações.
É necessário acompanhar quantos incêndios foram efetivamente controlados, quais municípios continuam em risco, como evolui a qualidade do ar e quais medidas serão adotadas para prevenir novas ocorrências.
Também é fundamental esclarecer as causas dos incêndios, identificar eventuais responsáveis e verificar se os órgãos ambientais dispõem dos recursos necessários para atuar.
A pergunta que deveria unir todos
A Amazônia já foi tema de campanhas internacionais, discursos emocionados e disputas políticas intensas.
Agora, mais uma vez, está no centro de uma emergência real.
O governo federal tem explicações a apresentar e ações a demonstrar. O governo estadual também precisa prestar contas de suas decisões. Políticos que criticam a resposta oficial devem sustentar suas cobranças com fatos. E figuras públicas que fizeram da proteção ambiental uma bandeira podem contribuir dando visibilidade às necessidades da população.
A sociedade tem o direito de cobrar coerência de todos eles.
Porque, enquanto Brasília discute quem demorou, existe uma realidade muito mais urgente.
Em Manaus, há famílias que não podem simplesmente fechar a notícia e seguir o dia como se nada estivesse acontecendo.
Elas precisam respirar e nenhuma disputa política deveria ser mais importante do que isso.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



