O homem de Lula caiu na malha da PF e a meretriz estampa o nome de Flávio
PF achou pilhas de dinheiro vivo no caso que cerca o vice-líder de Lula no Senado. Adivinhe quem a imprensa colocou na manchete
RIO DE JANEIRO, 06 de agosto de 2026 — Na terça-feira, 4 de agosto, a Polícia Federal deflagrou mais uma fase da Operação Sem Desconto, a investigação da Farra do INSS, o esquema que sangrou o contracheque de aposentados e pensionistas num rombo estimado em mais de R$ 6,3 bilhões. Foram 18 mandados de busca e apreensão, autorizados pelo STF, cumpridos no Distrito Federal e no Maranhão.
E o que os agentes encontraram? Pilhas de dinheiro vivo. E, no escritório do advogado Willer Tomaz, em Brasília, uma máquina profissional de contar cédulas. Isso mesmo: máquina de contar dinheiro em escritório de advocacia. A imprensa maranhense noticiou cerca de R$ 500 mil em espécie apreendidos; a PF não divulgou o valor total. O objeto desta fase, segundo a própria corporação, é lavagem de dinheiro: laranjas, empresas de fachada, contas de terceiros e transações em espécie para apagar o rastro do dinheiro desviado dos aposentados.
Agora a pergunta de um milhão: no colo de quem esse escândalo desabou?
No colo do senador Weverton Rocha, do PDT do Maranhão. Sabe quem é Weverton? É o vice-líder do governo Lula no Senado. É o líder do bloco parlamentar formado por PDT e PT, o bloco do Planalto. É o relator da indicação de Jorge Messias, o advogado-geral de Lula, para uma vaga no Supremo. Quando o Planalto precisa de alguém de confiança para carregar uma pauta sensível no Senado, chama Weverton. Ele já figura como investigado no inquérito desde a fase de dezembro de 2025. Agora a PF foi buscar a esposa, a filha e as irmãs dele.
Traduzindo: a operação que achou pilhas de dinheiro e máquina de contar cédulas atingiu o núcleo familiar de um dos homens mais importantes de Lula no Congresso.
Com esse material nas mãos, leia a manchete que o Metrópoles escolheu, na coluna de Igor Gadelha: “Farra do INSS: advogado alvo da PF é ‘amigo’ de Flávio Bolsonaro”.
Leu de novo? Pois é.
Lula não aparece. “Governo” não aparece. “Vice-líder” não aparece. O próprio Weverton vira um “senador” genérico, sem nome, escondido no corpo do texto. Quem ganha a vitrine é Flávio Bolsonaro, o presidenciável da oposição, que não é alvo de mandado nenhum. Nem de busca, nem de apreensão. Nada. Flávio entra na manchete por tabela, porque o advogado da máquina de contar cédulas seria seu “amigo”.
E qual é a base dessa amizade que valeu o título? Uma frase dita em 2021, na CPI da Covid, e uma viagem à Flórida em 2025. Uma palavra de cinco anos atrás pesou mais, na balança da redação, do que o cargo de vice-líder do governo Lula exercido hoje, agora, neste exato momento, pelo senador do caso.
Fica ainda mais constrangedor quando se lê a nota do próprio advogado, publicada na mesma matéria. Willer Tomaz nega ser investigado e afirma que a busca ocorreu exclusivamente porque ele é dono da aeronave emprestada, em caráter particular, ao senador Weverton Rocha. Ou seja: pela versão do próprio alvo, o fio que o conecta à operação chama-se Weverton, o homem do governo. A ligação funcional, operacional, documentada nos autos, aponta para o Planalto. A ligação que virou manchete é a social, que aponta para a oposição.
Faça o teste da inversão, que nunca falha. Se a PF tivesse achado uma máquina de contar dinheiro no escritório de um advogado que voou de jatinho com um filho de Bolsonaro, num caso envolvendo a família de um vice-líder de um governo Bolsonaro, alguém tem dúvida de qual sobrenome estamparia a manchete? E de que o vice-líder não seria um “senador” sem nome?
Manchete não é detalhe, é o produto: a maioria esmagadora dos leitores consome só o título. Quem editou aquela página sabia exatamente o que estava fazendo. O leitor apressado sai com a impressão de que a Farra do INSS respinga na campanha de Flávio, quando os mandados, o dinheiro vivo e a máquina de contar cédulas cercam o círculo íntimo da base de Lula.
Isso tem nome: enquadramento militante em ano eleitoral. Pega-se um caso que corrói o governo por dentro, com direito a cena de filme de máfia, e embala-se o pacote com o rótulo do adversário. Não é mentira factual. É pior: é uma verdade com o endereço trocado.
Estamos a semanas de uma eleição presidencial. O aposentado que teve o benefício mordido por esse esquema merece saber, no título, de quem é o círculo que a PF está revirando. Quando a manchete e os autos contam histórias diferentes, acredite nos autos. E siga o dinheiro: ele estava, literalmente, empilhado ao lado de uma máquina de contar.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




